O Shot, o Limão e o Sal da Terra

| sábado, 8 de setembro de 2012 | |

Numa destas noites, tentava eu esquecer as vicissitudes da existência, quando conheci uma personagem que mudou significativamente a forma como encaro a vida. Estava encostado ao bar e senti de supetão um toque no ombro, como quem empurra:
- Tens lume, ó pá?
Virei-me e dou de caras com uma freira portentosa, com quase dois metros de tamanho e pelo menos oitenta quilos de peso.
- Deus te abençoe chavalo – agradeceu-me quando lhe acendi um enorme charuto. Depois pediu uma caneca de cerveja e um shot de whisky irlandês. Eu estava como que incrédulo, sem saber se se tratava de uma partida de carnaval antecipada ou se a estranha criatura tinha vindo de alguma festa de fantasias.
- Ah! Caraças - Abanou a parte debaixo do hábito, como se tivesse a arejar – Esta vida de devota está a dar cabo de mim, miúdo.
- Mas a senhora é mesmo freira? – inquiri desconfiado.
- O que é que julgavas pá, que era um pinguim gigante? - Pediu outro shot que emborcou de penalty e bebeu longamente da caneca. Um pequeno bigode de espuma formou-se-lhe no lábio superior sem que ela o limpasse ou parecesse sequer importar-se. Puxou de uma longa fumaça do cubano e virou-se novamente para mim.
- E tu pá, que é que fazes por aqui? Ganda seca este bar, hã? Pareces aborrecido, 'tás sozinho? Vem comigo, vamos a um bar de strip
Embarquei naquela viagem com a curiosidade de alguém que quer ver como tudo vai acabar.
No intervalo de tempo em que paguei ao taxista, a freira entrou disparada pelo estabelecimento adentro e ainda a ouvi a gritar para o porteiro «sai da frente parvalhão!». Quando me sentei ao seu lado já ela estava a meter notas nas cuequinhas de uma das dançarinas. Pedi um whisky. Ela continuou nas canecas com shots da Irlanda. Espetou mais uma nota de dez na nádega de uma stripper que se agachava, arrotou, e, sem que eu lhe perguntasse nada encetou um desabafo:
- Pois é, pá, se eu não fosse freira, era lésbica. Estou farto desta história de ser noiva de deus – arejou novamente o hábito – Estamos para ali fechadas a maior parte do tempo: irmãs para a esquerda, irmãs para a direita, sempre a louvar o senhor, sempre a louvar o senhor...Estou farta de louvá-lo, pá! - bebeu o shot e pediu outro – Uma mulher tem necessidades, percebes?
- Compreendo perfeitamente - Anuí.
Fez sinal com um maço de notas a uma das raparigas que por ali cirandava, e pouco depois esta obsequiava-me com uma sensual e não menos complicada lap dance. E entre um mamilo que me fustigava o globo ocular e uma nádega que desafiava as leis do fecho éclair, prossegui a ouvir-lhe o desafogo:
- Antigamente é que era pá, com os deuses gregos e mais não sei o quê; volta e meia vinham cá a baixo e tungas: siga fazer filhos às mortais. E assim é que tinha que ser, pá. De onde é que pensas que saíram os grandes heróis, hã?  Do fornicanço divino, camandrio! Hoje em dia, onde é que tu encontras um Hércules, um Aquiles, um Heitor? Em parte nenhuma, pá, é por isso que esta merda está como está. É só louvar, só louvar...É um desperdício de vagina, é o que te digo.
Bebemos cerveja avonde juntamente com shots de whisky, de vodka e de tequilla, e foi só quando já havia sal nas mamas de uma stripper e rodelas de limão na tanga de outra que os bouncers nos convidaram a sair.
A freira, levada ao velho estilo de saco de batatas não se conformava:
- Malditos sejam, fazerem isto a uma mulher de deus! A todos vos esconjuro meus grandes filhos de puta, abrenuntio maledictis cabrões da merda.
Lá fora partilhámos um cigarro. Quando chegou o táxi, a irmã, muito comovida, em grande parte devido à bebedeira, abraçou-me com tal força que desconfio ter-me partido uma costela:
- És um gajo porreiro, pázinho - a emoção a brotar-lhe dos olhos - Se eu não fosse freira era lésbica e se não fosse lésbica era contigo que eu me casava, não fosses tu tão feio.

8 comentários:

nAnonima Says:
8 de setembro de 2012 às 08:41

:) :) :)

um desperdício de vagina...

desejo Says:
8 de setembro de 2012 às 13:30

ahahahahah! Um final em pleno!
Adorável, este post.

:)

Catsone Says:
9 de setembro de 2012 às 15:17

Nem o álcool o embelezou perante a "moça"? Deve ser mesmo feio.
E raio do Abrenúncio virou santo também? Ou será encarnação do demo?

El Matador Says:
10 de setembro de 2012 às 20:07

Obrigado N e desejo.

Catsone: o Abrenúncio também se foi, mais uma baixa entre as fileiras da parvoíce.

luisa Says:
10 de setembro de 2012 às 21:46

Gosto mesmo de histórias românticas :)))

Briseis Says:
14 de setembro de 2012 às 11:12

hum...demasiados "ses"... acho que não vale a pena esperares, que dali não levas nada...

Maria Says:
22 de setembro de 2012 às 21:06

Adoro.

Olinda P. Gil © Says:
25 de setembro de 2012 às 11:28

Adoro o cómico