#323

| domingo, 30 de setembro de 2012 | |

Primeiro retiraram-nos os cordões dos sapatos e só depois é que nos despejaram num cela claustrofóbica, escura e infecta. Três bancos corridos de madeira e para decoração, além da tinta estalada das grades e das marcas de bolor na parede, era só. A princípio gerou-se um pouco de confusão, como numa clássica dança de cadeiras quando a música pára; dois ou três socos que voltearam o ar sem plano de voo, uns quantos pontapés sem bola, dentes partidos, um nariz torto, e vá, muitos egos magoados, mas nada de grave: uma pequena sessão apenas, um tanto ou quanto agitada, de ice-breaking. Depois o marasmo, a inevitável constatação de irmos passar ali uma noite inteira. Já estávamos aborrecidos ainda que só tivessem decorridos alguns minutos.
- Já não se pode manifestar neste país – Queixou-se um dos presentes rompendo o silêncio
- Já não se pode estar bêbado, digo eu – Retorquiu um.
- Já não se pode manifestar bêbado – Concluiu um terceiro para grande gargalhada de todos.
Depois foi o silêncio outra vez. A inconfortável sensação de estarmos sós no meio da multidão; aquele sentimento de alguém nos estar a ouvir os pensamentos: suspiros.
Um melodia em surdina surgiu do nada e pairou sobre as nossas cabeças como uma brisa refrescante no calor da noite. Alguém com dotes artísticos, mimava um virtuoso trompete pressionando apenas os lábios, ao bom estilo do compadre Armstrong. Animado pelo improviso do outro, houve quem desatasse a dançar com pequeninos saltos descoordenados, como se estivesse num velho speakeasy do antigamente. Tinha os cabelos grisalhos, a camisa coçada e as calças caiam-lhe largas, presas apenas por uma corda. A restante turba acompanhou o espectáculo batendo palmas incentivando o homem que dançava frenético.
- Este já é cliente habitual cá da casa – esclareceu alguém perto de mim – Antes via-o sempre bêbado pelas ruas a passear o cão; agora, há muito tempo que o vejo sozinho: o cão deve ter morrido.
E o homem saltava cada vez mais alto, como se quisesse tocar o céu, depois aterrava suave, qual bailarina do Bolshoi. Não dizia nada, mas abanava a cabeça e sorria com os olhos tristes, como se estivesse feliz.
- Quem é este velho – perguntou alguém – parece o Charlot.
- É o Mr. Bojangles – Corrigi.

...e este é para ti n

6 comentários:

nAnonima Says:
30 de setembro de 2012 às 01:17

Diz-me que a N sou eu!!!!
OBRIGADA! MUITO OBRIGADA!

(adoro ler-te :)

El Matador Says:
30 de setembro de 2012 às 01:26

não conheço mais nenhuma :)

desejo Says:
30 de setembro de 2012 às 15:31

Sortuda, a mAnonima.
Belas metáforas, as tuas.


:)

desejo Says:
30 de setembro de 2012 às 15:31

corrijo

* nAnonima

nAnonima Says:
30 de setembro de 2012 às 16:10

:)))))))

(tenho de admitir, desejo, adorei!!!!)

nAnonima Says:
30 de setembro de 2012 às 16:18

acabei de fazer a experiência, ouvir a musica e reler o teu texto... :)))))

há momentos felizes, obrigada.