White Russians (agora aprendeu esta dos títulos em inglês, diz que é para agradar a troika)

| sexta-feira, 30 de dezembro de 2011 | |

A esperança é sempre a última a morrer, dizem eles. Ora eu, uma vez quando tinha para aí seis anos, ou sete vá, fui numa excursão a Sagres pela 125, não a azul, aquela da morte de que se fala tanto agora, e nisto o autocarro dá uma guinada forte para esquerda, seguido de uma para a direita, perde o controlo e capota por uma ribanceira abaixo. Só parou por que havia lá embaixo umas rochas enormes que lhe serviram de travão. A minha colega de turma, a Esperança, moça que eu gostava secretamente com afinco desde que tinha começado a gostar de pessoas, para aí aos cinco anos, foi a primeira a morrer. Eu sei porque os contei. Primeiro foi a Esperança, que foi cuspida pelo vidro da frente indo abrir o crânio de encontro a uma das rochas supracitadas. Depois foi o Gustavo que morreu esgasgado com o gelado que lhe entrou de supetão pela garganta adentro. A Adelaide, que era amiga da Esperança e tinha apostado que esta seria a última a morrer, também espatifou a fronte no granito. O Diogo e o Tiago morreram espezinhados quando toda a gente fugiu em debandada, e, como eram gémeos, quando um morreu o outro ressentiu-se morrendo também e vice-versa. Eu só não morri porque estava a dormir e, como cantou o bardo uma vez: you are innocent when you dream. Além de que a morte é uma coisa séria; diga-se de passagem que eu, com seis anos, não estava nada preparado para morrer, por isso acho que tomei a opção correcta.

Ao que parece tudo aconteceu porque uma abelha entrou pela janela do motorista - é motorista ou condutor? Uma abelha, dizia eu, entrou pela janela do chauffeur a zunir para a frente e para trás, tipo abelha Maia (lá está) mas sem a permanente, e o pobre homem, o desgraçado moço digo eu, olha-me para a abelha e pensa: abelhas-flores-rosas. E nisto desata a invocar anos de outrora em que ofereceu pelo aniversário um ramo de rosas, a uma tia sua, mulher do seu tio, ou seja, tia emprestada, mas que era muita mais nova que o tio, muito bonita a magana, que por coincidência era mais ou menos da sua idade, e que, também por coincidência era portadora de umas protuberâncias mamárias dignas de registo mental, ou até mesmo de registo físico, se é que existem actas para tal, e que ele sem querer, quando o tio não estava a ver, escorregou e acabou por fazer o amor com ela.

A imagem da tia, que o visitava todos os anos por alturas das festas, alterou-lhe a disposição de tal forma que, imaginem só, o sangue que normalmente irriga o cérebro e o coração e outras cenas do corpo humano, tipo, concentrou-se todo, feito parvo, no coitado do orgão do homem.

Ora, como todos sabemos, o efeito erectus involuntarius, é uma das principais causas de morte nas estradas deste país. Ainda o homem não tinha feito bem a ligação consciente entre a abelha e a tia mamalhuda, e já o orgão erecto estava a empecer com o volante da viatura, para a esquerda e para a direita, a torto e a direito, como se tivesse vida próprio, o bandido.

Os olhos da Esperança eram verdes; verdes de Esperança, brincávamos nós quando a descreviámos ao Arnaldo que era um amigo nosso daltónico que não foi na excursão porque tinha acordado de manhã com uma diarréia por mór de comer muitos chocolates na véspera.

Anos mais tarde tive contacto com um filme que abordava a história verídica de um escocês highlander, McClaúdio de seu nome, que, esse sim seria o último a morrer. Se a Esperança o tem conhecido a tempo, talvez nunca se lhe encasquetasse na cabeça que seria a última a ir. Hoje se calhar até podíamos estar casados há trinta anos, com pequenas esperançazinhas a correr pelo jardim, a puxar as orelhas ao labrador e a cantar o atirei o pau ao gato. E daí talvez não: se bem me lembro, ainda a Esperança não tinha arrefecido já eu estava vidrado nos olhos azuis da Helena, que por sinal tinha as partes todas do corpo, que como vim a descobrir mais tarde: estavam todas no sítio certo.


Para a Fábrica de Letras - Crise



4 comentários:

Catsone Says:
11 de janeiro de 2012 às 17:44

Muito bom! LOL
Isto não é humor negro: é azulão!!!

El Matador Says:
11 de janeiro de 2012 às 18:17

Obrigado Catso, estava convencido que este texto já estava esquecido nos confins da blogosfera, e que nem a fábrica o salvava.

ditonysius Says:
12 de janeiro de 2012 às 15:54

Comoveu-me a historieta!
Ai Esperança, Esperança, quem espera pela Helena sempre alcança.

Um abraço do Canto de Cá ...

El Matador Says:
12 de janeiro de 2012 às 16:35

Já lá dizia o Bartolomeu Dias:
- Tenho que dobrar o cabo à Boa da Esperança.