Pedro e o Lobo

| sexta-feira, 16 de dezembro de 2011 | |
Pedro era um rapaz bem apresentado e muito vistoso, pelo menos se levarmos em conta o ponto de vista das raparigas, que se enchiam de sorrisos e de chiliques cada vez que Pedro se acercava delas. Raparigas estas que Pedro, em guisa de retribuição, se esforçava por impressionar cada vez que desmontava da sua bicicleta branca de freestyle, que o pai lhe comprara. Ora, sendo Pedro um moço absolutamente banal, desinteressante mesmo, sem nenhuma qualidade extraordinária a que se lhe dissesse benza-o Deus, não restava muito com que impressionar as moçoilas. E assim, sem querer, ou talvez de propósito, Pedro, ao longos dos anos acabou por desenvolver uma tendência patológica para a mentira. Quando chegava ao pé da meninas com as calças cheias de pêlo, por ter estado a brincar com o caniche de estimação, Pedro metamorfoseava a narrativa de tal forma que aquilo que lhe acabava por sair da boca, para grande espanto e excitação das raparigas, era que tinha entrado em confronto directo com o Lobo. A escolha do Lobo aqui é evidente uma vez que Pedro conhecia bem a carga sexual que as histórias com lobos costumam acarretar, veja-se o caso do Capuchinho Vermelho que ia sendo comida por um.
Volta e meia chegava Pedro desarvorado no seu alvo rocinante, arfante, aos gritos: é o Lobo, é o Lobo!!! E logo as criaturinhas largavam todas num correria histérica de mãos no ar, soltando ais e uis demonstrando bem a vontade que tinham em não ser comidas (ainda).
Passado o susto inicial e certificando-se que não havia sinais de Lobo nas redondezas, voltavam pouco a pouco ao café central apenas para encontrar Pedro, de peito cheio, numa pose garbosa de matador, a sacudir o pó dos ombros. Depois começava o fogo de artifício mitómano. Pedro desfiava um chorrilho de patranhas, de como tinha feito frente ao Lobo e lhe tinha arrancado o pêlo e lhe tinha dado uma coça que ele nunca mais se esqueceria e por aí fora, e entretanto as miudinhas suspiravam e mordiam os lencinhos, e uma sensação agradável descia-lhes ao baixo ventre e tremiam-lhes as pernas. Pedro era um héroi...E tão bonito.
Ora, o problema das cidades pequenas é que toda a gente sabe tudo de todos, e a história acabou por chegar inevitavelmente aos ouvidos do Lobo. Este cofiou a barba, num gesto de quem acaba de ouvir uma história interessante, verbalizando-o até: Hummm, que interessante!
Numa noite de sexta-feira em que Pedro se dirigia à baixa, todo preparado para se autopromover à conta do Lobo, deu de caras com o próprio numa travessa escura e pouco frequentada.
O Lobo, que era de poucas palavras, sendo o animal de acção que todos conhecemos, logo ali o sodomizou à bruta. Depois acendeu um cigarro com o ar mais cool alguma vez visto numa história infantil. Agora já tens uma história para contar, disse o Lobo com desprezo, e nisto virou-lhe as costas e foi-se embora, não sem antes soltar dois uivos prolongados à lua.
No chão ficou Pedro lavado em lágrimas, chorando copiosamente baba e ranho.
O que mais custava a Pedro não era o tremendo ardor que sentia subir-lhe pelo ânus; nem sequer por não se conseguir sentar ou andar a direito, a dor de Pedro tinha outras origens: sobrevinha de lhe ter caído a máscara. Agora já não se podia mais esconder, o Lobo sabia quem ele era.

11 comentários:

desejo Says:
18 de dezembro de 2011 às 20:35

Não tenho comentário a fazer, El Marador.

:)

El Matador Says:
18 de dezembro de 2011 às 20:38

El Marador, eheh, agora é que acertaste.

Olinda P. Gil © Says:
19 de dezembro de 2011 às 16:56

Está muito bom... E com muito humor...

El Matador Says:
19 de dezembro de 2011 às 18:56

Obrigado Olinda.

desejo Says:
19 de dezembro de 2011 às 23:16

ahahahahahah!que estúpida!
Mas assentou muito bem, sem ofensa.

:)

Briseis Says:
21 de dezembro de 2011 às 00:02

Ai, pose de Matador, o maroto... Um reles imitador, e foi por isso que o Lobo lhe deu cabo do canastro... =)

El Matador Says:
21 de dezembro de 2011 às 08:38

Sem apelo nem agravo.

Tulipa Says:
21 de dezembro de 2011 às 17:23

Bela versão! :)

El Matador Says:
21 de dezembro de 2011 às 18:23

eheh

Pp_FANTASMA Says:
22 de dezembro de 2011 às 22:26

É mudar-se para uma grande metrópole e deixar as serras:)
Bom txt...

El Matador Says:
22 de dezembro de 2011 às 23:20

É de facto uma solução. :)

obrigado.