Móce, ò Moody's: Vai Cagar!

| quarta-feira, 6 de julho de 2011 | |
Só lhe apetecia mandá-la à merda: à agência de rating, à colega de trabalho já só pensava em matá-la. Era automático, sempre que ela abria a boca e desatava numa daquelas verborreias que sugavam o ar todo da sala, era inevitável que as ideias homicidas surgissem. Durante muito tempo eram ideias suicidas as que primeiro lhe chegavam às franjas do cérebro sempre que ela se punha com aquela litania «ai eu trabalho muito, ai eu tou muito cansada, ai o meu marido isto, ai o meu cão aquilo, ai eu é que sou a coordenadora...», viu-se muitas vezes a regar-se com gasolina e imolar-se pelo fogo, como aquele monge no Vietname ou o puto na República Checa. Mas depois punha-se a pensar e chegava à conclusão que ela provavelmente nem daria pelo o sacrifício e continuaria a falar ad aeternum.
Na rádio, a TSF transmitia em loop que o Pedro Palhaço Coelho tinha apanhado um soco estômago. Bem feita, pensou Romualdo. O rapaz sentiu-se traído pelos liberais selvagens que tanto admira: que desilusão! Já estou a vê-lo a chegar a casa, olhos marejados de lágrimas, a mulher envolta em trapos, os filhos muito magrinhitos, a lareira quase apagada, e o pobre coitado, vergado a uma crise que muito mais que o quebrar, deixou-o de rastos, exausto, famélico, a ter que dar a má notícia:
- Crianças, mulher, o pai apanhou um soco no estômago; este ano não vai haver outra vez prendas de natal.
E a outra não se calava, com aquela loiritude platinada, maquilhada de Rute Marlene num dia não, a falar, a falar: blá, blá, blá,blá, blá, blá,blá, blá, blá,blá, blá, bláblá, blá, blá,,blá, blá, blá,blá, blá, blá,blá, blá, blá,blá, blá, bláblá, blá, blá,,blá, blá, bláblá, blá, blá. Era nestes momentos que chegavam a Romualdo os primeiros instintos assassinos. Primeiro tentava evitá-los, atirá-los para a parte detrás do cérebro; refugiava-se na rádio para se distrair mas esta não calava com o soco no estômago do outro e da agência de filhos da puta que nos andam a tentar foder, e então não conseguia fintar mais a natureza e entregava-se ao desejo reptilário, como se dum casaco quente numa noite de inverno se tratasse. Imaginava-se a atirar com o rádio contra a parede, só para lhe chamar a atenção, chegar-se ao pé dela e arrancar-lhe os olhos com um x-acto, mijar-lhe para o cérebro e no fim dar-lhe um soco no estômago como aquele que a agência deu ao Coelho. Era um pensamento doce que o embalava naqueles momentos difíceis, e por minutos conseguia esquecer-se de tudo: da crise, do FMI, da Moody's, e da colega irritante. Mais droga nenhuma consegue acalmar um indivíduo com a mesma intensidade que o poder da imaginação.
Mas como qualquer droga, em que a pedrada acaba por desvanecer e extinguir-se, também Romualdo acabava por descer à terra e ter que enfrentar as suas crises: a da rádio e a outra. Nessas alturas rangia os dentes e martelava as teclas do computador com muita força, como se quisesse fugir pela internet adentro.

Para a Fábrica de Letras - Segredo

10 comentários:

luisa Says:
7 de julho de 2011 às 09:06

Quem não tem, de vez em quando, esses "doces" pensamentos secretos?

El Matador Says:
7 de julho de 2011 às 09:53

;) ehehe

Briseis Says:
7 de julho de 2011 às 23:33

Hum.... o Romualdo deve trabalhar perto de mim... É que gente dessa conheço eu muito... =) E, já agora, devo dizer que cada vez me dá mais satisfação vir cá... Agora já temos citações em latim e tudo... Essa do "ad aeternum" é a pièce de résistance do post! =)

El Matador Says:
7 de julho de 2011 às 23:40

Ad astra et ultra - ehehe

desejo Says:
8 de julho de 2011 às 19:48

Espectacular!

"agência de filhos da puta que nos andam a tentar foder", ahahahahaha!
Adoro ler-te.


:) desejo

El Matador Says:
8 de julho de 2011 às 20:06

Obrigado Desejo. Gosto que cá venhas.

Natália Augusto Says:
17 de julho de 2011 às 17:38

Com a crise, quantos pensamentos maquiavélicos, sombrios, mefistofélicos nos surpreendem, por muito pacíficos que sejamos. Mas mantemo-los em segredo.

Bjs

Mz Says:
18 de julho de 2011 às 22:47

Eu já sabia que tu escrevias bem mas não sabia que o Romualdo para além de dizer palavrões tinha um instinto assassino bem escondidinho!Ai se a loira sabe!

El Matador Says:
18 de julho de 2011 às 23:09

@Natália: agora é que se vai ver.

@Mz: O Romualdo gosta de soltar umas caralhadas de vez em quando, diz que é terapêutico. O instinto assassino, acho que temos todos, uns mais bem guardado que outros.

Catsone Says:
19 de julho de 2011 às 23:18

O Romualdo teria que se enfiar na fila para o respectivo castigo físico às personagens.
Sempre pode mudar de país ;)