O Passeio

| quinta-feira, 9 de junho de 2011 | |

"Poente, fogo na Ria,
Sete cores desiguais.
Chilram aves morre o dia
E vertem sangue os sapais..."
Raul de Matos


Labregoísio sentiu a chapada forte que Abrenúncio lhe deu no cachaço e voltando-se lentamente perguntou: era mesmo necessário? Abrenúncio fez tenção de abanar a cabeça afirmativamente quando foi interrompido pelo real chapadão que Romualdo lhe espetou na testa, parecendo-lhe ter ouvido o eco dentro da cabeça. 
- Temo que isto não tenha acabado aqui! - Declarou Romualdo com ar zangado. Abrenúncio mordia o lábio de irritação quando surgiu Anacleto, que tinha ficado para trás a apertar os atacadores dos sapatos, e, sem pré-aviso, começou a distribuir chapadas por toda a gente: na testa de Abrenúncio, na cara de Romualdo no braço de Labregoísio, que se tentava defender a todo o custo. A situação era tensa e os presentes miravam-se com desconfiança e cautela. As marcas por todo o corpo começavam a dar um ar rosáceo de sua graça e a fazerem-se sentir no incómodo que eram para os seus portadores.
Depois de mais uma chapada de mão aberta que lhe apanhou parte da testa e parte do olho direito, Romualdo, que era o mais pragmático do grupo, resolveu por os pontos nos ii. Largou um estaladão na orelha de Anacleto e declarou:
 - Irmãos! Receio que tenha chegado a hora de partirmos. A situação torna-se insustentável.
- É verdade! Pois claro! - Concordavam os outros, que agora se auto-flagelavam com os olhos postos em Romualdo.
- Como nota futura sugiro que para a próxima vez alguém se lembre de trazer repelente para mosquitos. Isto de andar à estalada é muito bonito mas começa a ser cansativa esta batalha contra as melgas.
- Tem razão! – Concordaram todos, e ao som de chapadas secas a ecoar nos corpos, de lástimas e pruridos, abandonaram apressadamente o sapal. Na Ria, como no poema, o sol incendiava o horizonte em sete cores desiguais.

Para a Fábrica de Letras - Os Problemas Resolvem-se À Chapada

16 comentários:

Briseis Says:
10 de junho de 2011 às 16:56

Sabe-se lá quantas melgas não serviram de pretexto para, sob a forma de uma chapada, se vingar um rancor antigo... =)

El Matador Says:
10 de junho de 2011 às 17:25

Pois :)

luisa Says:
10 de junho de 2011 às 18:19

ah ah ah... boa história a deste passeio! E eu que já estava preocupada por não teres colocado uma bolinha vermelha no canto superior direito do post!

El Matador Says:
10 de junho de 2011 às 18:34

Ehehe

desejo Says:
10 de junho de 2011 às 22:48

Fiz um comentário a este post.
Não o recebeste?

:)

El Matador Says:
10 de junho de 2011 às 22:56

Não!? Deve ter falhado qualquer coisa.

Catsone Says:
10 de junho de 2011 às 23:34

Estava curioso para saber a razão de tanta violência pura e sem sentido: melgas, essas grande put$%!

Muito bom, como sempre,

El Matador Says:
10 de junho de 2011 às 23:37

e os melgas também. :)

Sus Says:
11 de junho de 2011 às 15:25

Magnifica a volta que deste ao tema deste mês!
Gostei

Eva Gonçalves Says:
11 de junho de 2011 às 16:24

Muito bom e inesperado o motivo das chapadas. :)) Gostei imenso! Boa participação! Beijo

El Matador Says:
11 de junho de 2011 às 17:43

@Sus: Obrigado Sus, volta sempre.

@Eva: Obrigado Eva, fico contente por teres gostado.

soninha. Says:
12 de junho de 2011 às 05:16

rs...muito show!parabéns.bjs

Catarina Says:
13 de junho de 2011 às 00:45

Mas que estória! : )

El Matador Says:
13 de junho de 2011 às 12:06

:)

Mz Says:
13 de junho de 2011 às 13:22

Não sabia onde nos levaria tanta chapada, mas o fim foi original. Não estava nada à espera.
Num ataque de melgas, elas escolhem sempre o meu parceiro do lado.

El Matador Says:
13 de junho de 2011 às 19:35

pois.