Ó Mãe, Ó Mãe, Os Outros Meninos Dizem Que Eu Tenho a Cabeça Grande...

| segunda-feira, 2 de maio de 2011 | |
Mother! You had me
I never had you...
John Lennon

Quando a senhora Laden soube da morte do seu filho estava a untar de manteiga uma forma para fazer um bolo. Entraram-lhe as vizinhas aos gritos pela casa adentro, como era de costume sempre que havia uma desgraça, e lançaram-lhe a má-nova à cara sem qualquer aviso ou preâmbulo: ai mulher és uma desgraçada, mataram o teu filho! A senhora Laden deixou cair a travessa ao chão e acto contínuo desatou a chorar. Cabrões dos americanos, invectivou entre soluços; jogou as mãos ao ar numa expressão de dor que só quem é mãe é que pode entender e parafraseou o Cristo: Eli, Eli, Lama Sabachthani? Que quer dizer mais ou menos, meu deus, meu deus porque me abandonaste? As outras entreolharam-se incrédulas com a erudição da vizinha e com o despropósito da citação bíblica, e logo ali perderam a coragem de lhe perguntar onde havia ela aprendido o aramaico.
Na América, os americanos que conseguiram sair à rua, saíram. Os outros, a maioria, ouviu a boa nova pela televisão, de hamburguer de três andares numa mão e copo de 2 litros de coca-cola na outra. Entre um arroto e um refluxo, limpavam a gordura que lhes escorria dos queixos à bandeira nacional enquanto ruminvam o hino. As mães americanas também festejaram muito. É sempre uma alegria quando são os filhos dos outros a morrer.
Algures em Portugal a senhora Sócrates estremeceu. Ai meu deus e se o próximo for o meu filho? Apertou inquisidora as mãos da vizinha que ouvia a radio-novela com ela. Nã se preocupe vizinha, que eles aqui nã matem ninguém, atã nã viu o 25 de Abril? Mais a mais, já se sabe que cá em Portugal quem charinga toda a gente é o sê filhe.
De onde veio o sotaque algarvio da vizinha da mãe do Sócrates, não sabemos. Nem sequer podemos atestar da originalidade da conversa. Uma coisa sabemos porém: num mundo governado por cabrões, somos todos filhos da mãe.

Para a Fábrica de Letras - Mãe

20 comentários:

desejo Says:
2 de maio de 2011 às 22:12

Simplesmente sensível e marvilhoso.
Não vi nem ouvi notícias, mas entrei num site e vi uma bandeira alaranjada que dizia "Obama 1, Osama 0".
Chocou-me.
E qualquer filho que morre, por mais cabrão e assino que seja, tem uma mãe. A dor é igual a todas as mães.

És um sensível, quando escreves.

:9

El Matador Says:
2 de maio de 2011 às 22:25

;)

Sinhã (açorda não) Says:
2 de maio de 2011 às 22:56

espectáculo.:-)

El Matador Says:
2 de maio de 2011 às 23:09

eheh, obrigado.

luisa Says:
4 de maio de 2011 às 22:32

Já fiquei de tacha arreganhada a ler esta história... impagável :)

El Matador Says:
4 de maio de 2011 às 22:48

Ehehe, obrigado Luísa.

Mz Says:
5 de maio de 2011 às 00:02

Lindo e muito bem apanhado! Olha, e fez-se o bolo ou não?

El Matador Says:
5 de maio de 2011 às 00:05

ahahah, não sei.
:)

Briseis Says:
5 de maio de 2011 às 10:07

A senhora Bin Laden ainda anda por cá? Julguei que teria sido uma orgulhosa bombista suicida nos seus tempos de juventude... Afinal, parte-me o coração imaginar agora a velha senhora a arrancar cabelos e a arranhar o peito...
Se estes senhores da guerra, em vez de brincar aos exércitos, fossem fazer queixa às mães, elas resolviam tudo com uma discussão ruidosa à porta da outra, a regurgitar impropérios de mãos nas ancas... Assim, sofre-se mais...

El Matador Says:
5 de maio de 2011 às 10:29

É o que eu digo, os problemas resolvem-se à chapada.

Eva Gonçalves Says:
5 de maio de 2011 às 18:11

Uma delícia este teu texto!! Adorei! E o título... um primor! Parabéns. Vou passar a seguir-te, nem sei porque demorei a fazer isso, :), Beijinho

El Matador Says:
5 de maio de 2011 às 18:39

Obrigado Eva :)

M Says:
9 de maio de 2011 às 14:20

Gostei muito. Fez-me lembrar uma conversa recente no café da minha rua. Falava-se da tendência generalizada de nos por nos lugar dos bosn da fita... Ou seja, dizemos coisas como "se o sotero fizesse isto a uma filha minha... só morto ou queimado vivo", mas poucos são capazes de pensar "e se o meu filho fizesse o que o satero fez?".
Usei o sotero, porque era dele que se falava no café, podia ser outro qualquer. O renato seabra, o bin laden, o rei ghob... sei lá um dos maus que nos fazem deitar as entranhas pela boca nas pargas que rogamos.

(a comparação não é brilhante, mas dá para captar, certo?)

El Matador Says:
9 de maio de 2011 às 16:19

É isso mesmo.

pink poison Says:
17 de maio de 2011 às 14:18

até um dia, alguém fizer algo que realmente páre o pais.

El Matador Says:
17 de maio de 2011 às 15:19

pois!

orvalho do ceu Says:
22 de maio de 2011 às 19:51

Olá,
Mãe sempre é apreensiva pela sorte dos seus filhos amados...
Abraços fraternais

El Matador Says:
22 de maio de 2011 às 20:52

É um facto.

Otário Says:
28 de maio de 2011 às 15:03

bem, ainda bem que o bin laden não era português, tanto quanto sei, a manteiga por cá está muito cara. jesus credo, valha-nos isso.

El Matador Says:
28 de maio de 2011 às 15:38

hummm!! vou reflectir.