Um Dia Bem Passado

| sexta-feira, 31 de agosto de 2012 | 4 comentários |

Primeiro arrumou o quarto todo. Limpou o pó, aspirou, mudou os lençóis da cama e compôs o pequeno Buda que se sentava debaixo de uma invisível árvore bodhi na sua secretária. Arrumou os compactos numa caixa e colou-lhes uma etiqueta com um nome que não era o seu. Fez o mesmo com os vinis. Escreveu qualquer coisa no computador enquanto bebia doses generosas de vodka. Esta é a mim, brindava, esta é aos que me vierem buscar, esta é ao pai, outra para o filho e claro não podemos esquecer o espírito santo, o tal que trocou as voltas ao S.José e lhe emprenhou a mulher.
Passou a tarde a ouvir a sua música preferida e a cantar em voz alta. Uma que repetia ocasionalmente era dos Beatles, não aquela que agora toda a gente assassina nos anúncios ranhosos de uma telecomunicadora, antes outra, do álbum Rubber Soul: He’s a real nowhere man, sitting in his nowhere land, making all his nowhere plans, for nobody.
Entretanto mudou de veneno e começou a emborcar whisky de malte; era mais estiloso e impressionava sempre as visitas. Atingiu a fase melancólica da bebedeira e pôs-se a ver velhos álbuns de fotografias. Volta e meia encetava monólogos com as imagens impressas, algumas já desbotadas; fazia-lhes perguntas, dava-lhes respostas, zangava-se com elas e atirava com os álbuns contra a parede. Pronto, agora vou ter que arrumar tudo outra vez – grunhiu.
Lá pela tardinha, como quem diz crepúsculo, àquela hora que os fotógrafos gostam, a hora dourada – deu-lhe aquilo a que uns chamam de coragem e outros covardia, e, dependurou-se pelo pescoço num cinto previamente montado numa barra que tinha na porta. A princípio ainda estremeceu um bocado mas depois acalmou-se. De vez.
Era Romualdo, o homem de nenhures.

Como Quem Vai Para a Índia

| terça-feira, 28 de agosto de 2012 | 6 comentários |

Ao fim de sete anos à procura do Tibete, Abrenúncio cansou-se. As fronteiras estavam fechadas e o ar era rarefeito. Sentou-se numa pedra e poderia ter chorado, como o outro do livro do Paulo Coelho nas margens dum rio qualquer, mas, como não gostava de emular literatura rasca, em vez disso acendeu um cigarro. O fumo volteou pelo ar e com um olho fechado, forçando a perspectiva, Abrenúncio viu a montanha fumegar.
Que desilusão, pensou, agora ter que fazer o caminho todo de volta. Do Tibete ao Algarve ainda é um esticão.
A primeira coisa que fez foi tirar a roupa toda. Pensava melhor quando estava nú.  Descascado no Tibete – aqui está um título bom para um filme.
Poderia ficar ali, para sempre, a admirar de longe o Tibete, como o Dalai-Lama. Mas a santidade nunca foi o seu forte. O que ele queria mesmo era entrar por Lhasa adentro, pregar um estalo ou dois nos chineses e rezar à força toda no Palácio de Potala. Mas agora sentia-se cansado. Ao longe, no sentido Evereste–K2,  um anão voador cruzava os céus a uma velocidade estonteante. É um sinal! – Exclamou Abrenúncio – Volto para trás.

Tragédia Com Sabor a Maresia e Bolas de Berlim

| segunda-feira, 27 de agosto de 2012 | 6 comentários |

Vejo-me com a água pelos joelhos rodeado de senadores. There's a natural mystic blowin' through the air... Mergulho, e nisto César é apunhalado por Casca e Cássio. O sol queima agora com força, fustiga a pele branca, os conspiradores sucedem-se um a um na matança, cheira a queimado: é Roma que está a arder? Ainda não.
Et tu Brute? Quem eu? Pergunta o surfista ao instrutor. As ondas estão rasteiras e faço uma ou duas carreiras, if you listen carefully now you will hear, Quem eu? O homem das bolas passa junto ao corpo de César que tem a cara tapada com o manto: Olhá boliiiiiiiiiinha!
Estou na areia e assisto à cena toda: os surfistas a sairem da água e os senadores a fugirem pelo mar adentro. O sol está agora a pique e arde ainda com mais força. O cheiro a queimado intensifica-se, é Roma que está a arder? Ainda não, é a Serra do Caldeirão. Passo por entre a multidão que ouve a elegia de Marco António a César e sigo para a cidade.
Na rua do Hotel Albacor os plebeus lançam fogo à casa dos senadores homicidas, um cheiro doce e quente invade-me as narinas, é Roma que está a arder? Não, são bolas de berlim acabadas de fazer. Guiltiness, pressed on their conscience, as bolas a esta hora desfazem-se na boca de um indivíduo, Bruto cai sobre a própria espada, nham, nham, nham, César foi vingado.
Ah! Billy, Billy, tu é que as sabias escrever. Quem eu?

#313

| segunda-feira, 13 de agosto de 2012 | 7 comentários |

- Já não há esquerda nem direita, só existe em cima e em baixo. E nós não estamos em cima.
- Estamos onde?
- Adivinha!
-  Sempre ouvir dizer que o que está em cima é igual ao que está em baixo.
- Achas? Isso é porque tens a espinha tão dobrada que já só vês o teu umbigo.
- E os políticos, onde estão eles?
- Quais políticos? A politica é uma fase transitória na vida dos sanguessugas. É um processo: agora estão em baixo e de repente já estão em cima.
- E como conseguem eles isso?
- Usam as tuas costas como trampolim.
- Que ousadia, quem lhes deu autorização?
- Tu.
- Arghhhh, sinto-me revoltado, tão revoltado que só me apetece sentar um bocado a ver televisão. Mas espera, o que é aquilo a cruzar os céus, será um comboio, será o super-homem?
- Nada disso: é  o anão voador do outro post.

Km 40*

| quinta-feira, 2 de agosto de 2012 | 10 comentários |

Ao chegar ao quilómetro 40, Romualdo encostou à berma. Parecia perdido. O mapa não lhe dava indicações nenhumas que o ajudassem a localizar-se e a estrada parecia a mesma de sempre: para trás pouca coisa, para a frente coisa nenhuma. A paisagem impunha-se pela aridez desértica. Um cacto ou outro, meia dúzia de pedras, vida quase nenhuma.
- O que acham? Seguimos em frente ou damos meia volta? – Meia volta era impossível, comunicou Abrenúncio, que embora tivesse feito a viagem a dormir, mostrava ter estado alerta: a estrada era de sentido único. Ildefonso lembrou que o combustível estava quase no fim. Não é só o combustível que está quase no fim - anunciou Romualdo – a minha paciência segue pelo mesmo caminho.
Podíamos ficar por aqui – sugeriu Labregoísio.
Ficar não era uma opção reclamou Romualdo. Ouve quem lançasse para o ar a ideia de apanhar boleia. Ir de boleia é fazer batota, lembrou Abrenúncio, não há esforço, não dá luta, e além disso quem lhes daria boleia com aquele aspecto sujo e mal barbeado.
Por fim Romualdo decidiu que não havia nada a decidir, deu à chave e arrancou numa nuvem de poeira que, suspensa no ar, dir-se-ia auspiciosa.
Aproveitemos para celebrar, concluiu Abrenúncio, augura-se um bom quilómetro. Beber é sempre um bom remédio e a única maneira decente de se conseguir ficar bêbado.
Brindaram – Que se levante a poeira e que esta merda ande de vez.


*metáfora roubada descaradamente ao Dytonisius