Arbeit Macht Frei

| quarta-feira, 23 de novembro de 2011 | 11 comentários |
A Formiga fartava-se de trabalhar o ano todo. Na Primavera, à soalheira do Verão, no Outono, enfim...Uma canseira daquelas de raça lobo, tudo para poder ter um Inverno no sossego do Senhor. Quando se levantava de manhã, ainda antes do sol nascer, para ir para a fábrica, assistia ao espectáculo que era a Cigarra a chegar a casa de táxi, ainda bêbada da noite. Excitada, e como gostava de dar nas vistas, a Cigarra, ao ver as formigas em fila indiana, desatava numa cantoria despegada: Ó GENTE DA MINHA TERRAAAAA!!! - Dava uns goles no que restava da garrafa de vodka, gargalhava disparatadamente e entrava em casa, onde se punha a dormir o dia todo.
Eram da mesma a idade, a cigarra e a formiga. Tinham andado à escola juntas. Depois a formiga seguiu o seu destino de operária e a cigarra o caminho da juventude partidária. A formiga não odiava a cigarra, não, antes invejava-a. De manhã, quando ao frio assistia à chegada da cigarra de mais uma festa glamorosa, não podia se não quedar-se a imaginar como seria ir a um evento daquela espécie, com roupas bonitas, gente alegre e comida à farta. Sobrava-lhe apenas o consolo de saber que o trabalho esforçado, de muitas horas, muitos dias e muitos meses, o trabalho honrado como era o seu, um dia, no futuro, proporcionar-lhe-ia os momentos de descanso e de lazer que ela tanto cobiçava à Cigarra. Talvez até ir de férias – sonhava a Formiga.
Um dia, depois de mais uma longa jornada de trabalho, estava a Formiga a descansar quando recebe a inusitada visita do La Fontaine. Desconfiou. De cenho carregado, mandou-o entrar.
La Fontaine, já à vontade na casa da Formiga, como qualquer patrão, começou a falar com os gestos largos e abundantes, típicos das falas mansas que antecedem as más notícias.
- Tenho boas notícias – Começou La Fontaine – Vais manter o emprego. A Formiga suspirou de alívio.
- No entanto... – A Formiga sabia que tinha que haver um “no entanto”, o patrão não tinha ido a sua casa só para lhe confirmar o posto de trabalho. E La Fontaine prosseguiu em tom de choradinho, que a crise também tinha chegado em força ao mundo das fábulas, que tinha havido uns investimentos mal pensados por parte da Cigarra, que os mercados estavam chateados, enfurecidos mesmo, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá e que por tudo isso vinha aí a austeridade: mais horas de trabalho, menos ordenado, férias? Nem pensar nisso nos próximos anos, temos é que trabalhar mais, muito mais, para que os mercados voltem a ganhar confiança na Cigarra, sem isso, a fábula não funciona.
- Sabes como é, Formiga, a fábula precisa do esforço de todos nós, somos todos parte integrante desta imensa e generosa fábula. Temos todos que desempenhar o nosso papel.
- E qual é o meu papel? – perguntou a formiga com voz de olheiras.
- Bom...O meu é escrever – Pigarreou La Fontaine - O da Cigarra é cantar,  e o teu é trabalhar. Mas não penses que o teu papel é menos importante que o meu ou o da Cigarra, não, não fiques com essa ideia, cada função é essencial para a fábula. A fábula é a soma das partes. 
O importante é não irritar os mercados. Lembra-te que da última vez que os mercados se chatearam o Lobo Mau comeu a Avózinha. Percebeste?
A Formiga fez que sim com a cabeça e foi deitar-se.
De manhãzinha enquanto se preparava para trabalhar, ouviu a gritaria da Cigarra: Ó GENTE DA MINHA TERRAAAAA!!!
Três pensamentos assaltaram-lhe o espírito: o primeiro foi suicidar-se, o segundo foi revoltar-se nas ruas, o terceiro foi matar a Cigarra. Mas, como era uma formiga de hábitos brandos, vestiu o casacão e saiu para trabalhar.
Ao mesmo tempo, noutro canto da fábula, Abrenúncio passeava no jardim com sangue a pingar-lhe do nariz.


Septoplastia - It's a Bitch!

| quinta-feira, 10 de novembro de 2011 | 6 comentários |
Há sangue e ranho por todo o lado, por isso, nos próximos tempos não contem comigo.

X

| sábado, 5 de novembro de 2011 | 10 comentários |
Labregoísio era um indivíduo que só compreendia o que via com os olhos, ou o que conseguia visualizar na cabeça. Só compreendia imagens, portanto. E por isso era pouco dado à poesia e às artes abstractas e à matemática, que diga-se, fora o seu terror na juventude. Quando na escola lhe pediam para descobrir X, Labregoísio, em modo de piloto automático imaginava-se logo um detective de gabardine e cachimbo na boca, qual Sherlock Holmes, à procura do tal X. Quem será este X e porque andará toda a gente à procura dele? -  imaginava Labregoísio. E a partir daí, via a incessante demanda de um homem solitário em busca de um ser cruzado, que quase sempre era alvo de operações obscuras para ser encontrado. Abstraía-se muito mas nunca conseguia abstraccionar-se.
Para ele, o amor era um coração sangrento atravessado por uma seta. E quando lhe falavam da dor, dessa dor que não é física, que não se vê, daquela que sofrem os apaixonados e os lunáticos, ele à falta de melhor ia buscar a imagem do coração e da seta; e foi assim que deduziu sozinho que paixão era sinónimo de sofrimento.
Era um homem simples e não se importava de todo quando lhe gritavam: queres que te faça um desenho? Pelo contrário, mostrava-se agradecido e encantado com a gentileza de quem se dispunha a ajudá-lo.
O que não via não lhe afectava,  por isso era um homem feliz; e foi assim que deduziu sozinho que o que os olhos não vêem, o coração não sente.
Também nunca chegou a encontrar o tal X.