5 de Junho

| sexta-feira, 10 de junho de 2011 | 16 comentários |
-É como te digo, esta situação faz-me lembrar aquela história do urologista. - Abrenúncio exclamava em gestos largos para um Labregoísio atento ainda que um pouco desconcertado.
- Depois de um longo dia de trabalho deu-se conta de que lhe faltava a aliança de casamento. Analisou rápida e criticamente a situação e concluiu que tinha perdido o anel durante um dos inúmeros toques rectais que havia feito durante o dia. Podia ter seguido para casa e explicado à mulher o incidente e a coisa resolvia-se por ali sem mais delongas, na verdade e sinceridade que haviam jurado um ao outro perante deus. Mas o médico escolheu o caminho mais longo, como tantas vezes na vida todos fazemos. Agarrou nos processos e telefonou a cada um dos pacientes a quem tinha feito o exame. «Procure nas fezes» dizia ele, «remexa bem com atenção, que ele há-de aparecer». Os doentes, na ânsia de ajudar o doutor, quando iam à casa de banho lá se punham a remexer o fundo da retrete com o intuito de subitamente verem aparecer no meio da merda um brilhante anel de ouro. Ao fim e ao cabo é o que todos desejamos.
A um outro, que sofria de prisão de ventre, pediu-lhe que com o dedo indicador, procurasse pelo reto, o precioso anel. «Insira bem para dentro o dedo, em movimentos circulares» e o homem, por respeito ao médico lá ia fazendo tudo o que este lhe pedia. Era a segunda vez naquele dia que tinha um dedo espetado pelo cu acima. A situação, que até podia ser cómica se não fosse já trágica desde o começo, tomou proporções surrealistas quando a mulher do paciente entrou de repente na casa de banho e deu de caras como marido, calças pelos tornozelos, telemóvel encostado à orelha, olhos esbugalhados e a mão direita já quase toda dentro do cú.
- E o médico, chegou a encontrar o anel? - Inquiriu Labregoísio.
- Encontrou, encontrou – Suspirou Abrenúncio – Estava no lavatório da casa de banho do consultório.
- Tchhhh!!!
- Pois é – concluiu Abrenúncio depois de mais um gole de cerveja – há dias em que também eu me sinto assim.
- Como se tivesses perdido um anel?
- Não, como se me tivessem a meter o dedo no cú.

O Passeio

| quinta-feira, 9 de junho de 2011 | 16 comentários |

"Poente, fogo na Ria,
Sete cores desiguais.
Chilram aves morre o dia
E vertem sangue os sapais..."
Raul de Matos


Labregoísio sentiu a chapada forte que Abrenúncio lhe deu no cachaço e voltando-se lentamente perguntou: era mesmo necessário? Abrenúncio fez tenção de abanar a cabeça afirmativamente quando foi interrompido pelo real chapadão que Romualdo lhe espetou na testa, parecendo-lhe ter ouvido o eco dentro da cabeça. 
- Temo que isto não tenha acabado aqui! - Declarou Romualdo com ar zangado. Abrenúncio mordia o lábio de irritação quando surgiu Anacleto, que tinha ficado para trás a apertar os atacadores dos sapatos, e, sem pré-aviso, começou a distribuir chapadas por toda a gente: na testa de Abrenúncio, na cara de Romualdo no braço de Labregoísio, que se tentava defender a todo o custo. A situação era tensa e os presentes miravam-se com desconfiança e cautela. As marcas por todo o corpo começavam a dar um ar rosáceo de sua graça e a fazerem-se sentir no incómodo que eram para os seus portadores.
Depois de mais uma chapada de mão aberta que lhe apanhou parte da testa e parte do olho direito, Romualdo, que era o mais pragmático do grupo, resolveu por os pontos nos ii. Largou um estaladão na orelha de Anacleto e declarou:
 - Irmãos! Receio que tenha chegado a hora de partirmos. A situação torna-se insustentável.
- É verdade! Pois claro! - Concordavam os outros, que agora se auto-flagelavam com os olhos postos em Romualdo.
- Como nota futura sugiro que para a próxima vez alguém se lembre de trazer repelente para mosquitos. Isto de andar à estalada é muito bonito mas começa a ser cansativa esta batalha contra as melgas.
- Tem razão! – Concordaram todos, e ao som de chapadas secas a ecoar nos corpos, de lástimas e pruridos, abandonaram apressadamente o sapal. Na Ria, como no poema, o sol incendiava o horizonte em sete cores desiguais.

Para a Fábrica de Letras - Os Problemas Resolvem-se À Chapada