São Pipocas ao Almoço...

| quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011 | |
         Depois de ler o Blog-do-Otário

Tudo o que ele queria era fazer pipocas no microondas. Nada de especial. Sentar-se, relaxar e comer pipocas. O contacto com os outros humanos tornara-se doloroso em demasia. Algo que, a pouco e pouco ganhara contornos de função; melhor, de obrigação.
A tirania da normalidade no decorrer dos anos obrigara-o a uma congregação de costumes e decências que ele abominava.
Detestava a mentalidade de rebanho, aquela que rapidamente se transforma em mentalidade de matilha, e se volta contra nós, se não seguimos a direcção do pastor. E isso era uma das coisas que o empurravam para a solidão; o não ser como os outros, o não gostar, nem de fazer, nem de falar como os outros; não por espírito de contradição, apenas por não lhes reconhecer nenhuma originalidade. A falta de originalidade, lá está, era para ele, o oitavo pecado original, o mandamento que faltava nas tábuas da lei: Não serás trivial!
O que a sociedade entendia por filtros; entendia-os ele como grilhetas. Sentia-se um prisioneiro dos pensamentos e opiniões, um agente da pide de si mesmo. Patrulhava o cérebro de um hemisfério ao outro, escolhia cuidadosamente as palavras e adoptava o ar mais polido antes de afirmar isto ou aquilo. No fim acabava sempre por anuir nas maiores atrocidades só para agradar a este e aquele.
No fim da primeira guerra mundial, contavam-se entre os loucos, uma minoria de homenzinhos vestidos de camisa e calções castanhos, que patrulhavam as ruas insultando e lançando o seu ódio aos sete ventos. Eram os pobres coitados da altura; os tristes; os delirantes, como podia haver quem os aturasse? Durante a segunda guerra mundial, era louco quem não seguisse os homenzinhos de camisa e calções castanhos,  com o seu líder enfezado, de bigode à Charlot, que insultava e lançava o seu ódio ao mundo, como podia haver quem não os amasse? Era tudo muito normal; e as pessoas sentiam-se confortáveis nessa normalidade, porque eram muitas, e já se sabe que muitas pessoas não podem estar erradas. A multidão é um organismo vivo acéfalo. Uma máquina de triturar individualidades afoitas; o maior crime é o de não estar inserido no circulo das conveniências, daquilo que deve de ser, da decência, da normalidade, da superioridade moral. Um dia crucificamos um homem porque o achamos louco; no dia seguinte queimamos os adversários da ideologia do homem crucificado.
Por isso um dia o homem não pensou mais no seu futuro. Aprendeu a fazer uma coisa que segundo o Günter Grass, os portugueses não sabem fazer: dizer não. A partir daí todos os seus impulsos, ou a falta deles, se libertaram e foi como se lhe tirassem o maior peso de cima. Dizer não pode ser das coisas mais libertadoras que um homem pode fazer. Diz a sogra: então, não quer vir jantar cá a casa? Não! - responde o homem – e com uma satisfação estampada na alma, senta-se de cerveja na mão a ver o futebol.
E foi isso que o homem fez desde então. Nunca mais jantou com a sogra. Nunca mais trabalhou como um louco, como um condenado, insaciável, para arranjar dinheiro, muito dinheiro, para comprar coisas, muitas coisas, para ter muitas coisas para mostrar. Um homem tem que ter coisas para mostrar senão não é um homem decente: quem é aquele? Não tem nada? Então é um ninguém. Não pode ser, não podemos ser ninguém, temos que ser alguém, para podermos mostrar que somos alguém; mostrar a quem? Aos outros. É muito importante que os outros saibam.
O homem levantou-se, ignorou os outros, foi à cozinha e pôs as pipocas no microondas. E esse foi um dos maiores prazeres que teve na vida, e por isso o chamaram louco.

Para a Fábrica de Letras - Loucura

27 comentários:

luisa Says:
3 de fevereiro de 2011 às 23:03

É o chamado milagre das pipocas. Uma revelação de liberdade. :)

El Matador Says:
3 de fevereiro de 2011 às 23:07

:) já lá dizia no livro:
olhai as pipocas no microondas.

M Says:
4 de fevereiro de 2011 às 01:13

gosto muito

El Matador Says:
4 de fevereiro de 2011 às 08:29

Obrigado M.

B Says:
4 de fevereiro de 2011 às 10:48

Uau... isso é uma Ode ao Otário!
Tá muito bem escrito! Muito lindo! É a sublimação da inércia e do desinteresse! ...eu sou normalmente contra estas duas coisas, mas depois de ler isto tou a pensar converter-me... =)

El Matador Says:
4 de fevereiro de 2011 às 11:21

Ehehe. Não tem nada a ver com a ele, que não o conheço pessoalmente, mas foi inspirado no último post dele, sim.

desejo Says:
4 de fevereiro de 2011 às 22:02

E tu também dizes "não"?

:)

Mz Says:
5 de fevereiro de 2011 às 00:25

Todos os homens têm as suas convicções e as suas teorias de liberdade. Sendo assim mais vale comer pipocas orgulhosamente livre.
Espero que saiba fazer mais coisas no micro-ondas porque depois vai enjoar decerteza e vai acabar por escolher não uma mulher mas uma sogra que não o convide para jantar e ficar cada vez mais louco e mais louco...e mais só.
:)

El Matador Says:
5 de fevereiro de 2011 às 09:45

@Desejo: Sempre que posso, embora haja certas coisas impossíveis de se dizer não :)


@MZ:Devia haver um livro de receitas para cozinhar no microondas. ;)

Catsone Says:
7 de fevereiro de 2011 às 19:13

Gostei principalmente dos últimos parágrafos: um retracto fiel das máscaras que a sociedade exige.
Muito bom, como sempre.

Porta-te

El Matador Says:
7 de fevereiro de 2011 às 21:07

É isso, Catsone.

Portarei-me.

Anne Lieri Says:
8 de fevereiro de 2011 às 20:18

Sensacional seu texto!Não sabe como me identifiquei!A coragem de dizer não,de ser diferente,muitas vezes nos rotulam como loucos,mas é ai que reside a toda a sabedoria!Parabéns pela sua participação!Bjs,

El Matador Says:
8 de fevereiro de 2011 às 20:40

Obrigado Anne.

Johnny Says:
9 de fevereiro de 2011 às 16:06

Muito bem, boa filosofia. Gosto do mandamento, embora admita que o quebro frequentemente. A trivialidade esmaga-nos, fica a bela (para mim) lição.

El Matador Says:
9 de fevereiro de 2011 às 20:55

Temos que ser originais.

JoeFather Says:
10 de fevereiro de 2011 às 12:20

Caro amigo, entendi!

Algumas vezes um pequeno gesto que foge a regra, apesar de não ferir ninguém, de não incomodar ninguém, de não causar estardalhaços, por ser um gesto não tão usual, confere ao cidadão o belíssimo título de louco...

Enquanto outras vezes loucuras generalizadas são tomadas por simples gestos comuns!

Mas não é isso que determina a loucura: fugir dos padrões? Me fez lembrar de textos que li sobre a inquisição!

Vou falar baixinho para fugir das amarras das camisas de força: creio que alguma vezes também sou louco! Assim como poeta, compositor...

Grande abraço e parabéns pela participação!

El Matador Says:
10 de fevereiro de 2011 às 14:40

Obrigado pelo teu comentário amigo Joe, a tua análise supera o texto.

Henrique ANTUNES FERREIRA Says:
13 de fevereiro de 2011 às 14:17

Elmatadoramigo

привет

Я "старый" португальского журналиста и писателя, который также говорят, ... сказать, и я пошел несколько раз, чтобы затем СССР. В России, я надеюсь сделать еще один день ...
Пока я был в зале Риган - Горбачев и интервью последнего. Я также говорил с Ельциным и Шеварднадзе. И я не коммунистической ... LOL
Я пишу через прекрасный переводчик Google, и я думаю, вы можете писать мне на португальский, французский, английский, испанский, итальянский и даже немецкий, и я думаю, что вы также можете использовать Google переводчик.
Многое будет, как - если вы хотите сделать, конечно, - что выдать этот текст своим друзьям на так что вы можете дать все "вещи" в Португалии.

Я прошу Вас прислать мне еще раз, если вы хотите сделать, адрес электронной почты. Большое спасибо
Генри

Porra!, peço-te muitas desculpas, pensei que estava a falar com o немецкий, meu correspondente na Sibéria de Cima. Obnubilações de um velho (Já fiz 69... anos) jornalista e dizem que escritor, dizem, um tanto despassarado, mas, de acordo com os meus netos, bué da fixe.

Pipocas no microondas também eu sei fazer, ora essa; cozido das Furnas ou lagosta muito suada ékeu queria ver. Mas, se souberes, apita.

Quanto ao dizer não, o caso fia mais fino. Sobretudo ao convite da queridíssima sogra. Portantos (sm s), não maior felicidade no Mundo para o homem: fazer pipocas.

El Matador Says:
13 de fevereiro de 2011 às 16:05

Lagosta suada no microondas, boa ideia.

Obrigado Henrique.

soninha Says:
15 de fevereiro de 2011 às 14:50

...ou chutar o pau da barraca!rs...Maravilhoso texto.abçs

El Matador Says:
15 de fevereiro de 2011 às 20:27

Obrigado Soninha

inês Says:
26 de fevereiro de 2011 às 06:35

está simplesmente maravilhoso. Um texto com o mesmo tema de muitos outros mas com uma forma de explicar o problema absolutamente fantástica. Continua! :)

El Matador Says:
26 de fevereiro de 2011 às 08:36

Obrigado Inês.

otário Says:
26 de fevereiro de 2011 às 10:50

ando nas bocas do mundo e nao sei ahah por acaso nao tinha reparado neste post...

vivam as pipocas então.
permite-me dizer que os teus textos, este, principalmente, me relembrou as crónicas do Peixoto na visão. muito moralismo, muito moralismo...
...deixa um gajo a pensar.

parabéns meu caro.

El Matador Says:
26 de fevereiro de 2011 às 10:58

Obrigado Otário, foste uma inspiração. E ainda és, às vezes.

Lala Says:
24 de março de 2011 às 21:28

Às vezes entro em estado de loucura temporária e faço pipocas no microondas... e nunca as como sozinha :)

El Matador Says:
24 de março de 2011 às 21:33

Eu por acaso nunca fiz :)