O Paraquedista

| quarta-feira, 7 de outubro de 2009 | 4 comentários |
Quando Romualdo era pequeno andava sempre a cair. Não aquelas quedas naturais e até um pouco saudáveis que todos os miúdos da altura davam e que hoje são tão raras porque a criança pode-se magoar. Não, as quedas dele era aparatosos espectáculos aéreos dignos de um duplo de hollywood, e, sem redes nem amortecedores de impacto. A sua estreia foi logo aos cinco anos quando, descurando os avisos do pai, caiu do primeiro andar duma qualquer agência de viagens. A cabeça aumentou-lhe para o dobro e nessa noite não pôde dormir por ordem do médico. No ano seguinte entrou para a escola primária sem recordações nenhumas anteriores a essa data.
Talvez porque a memória a curto e a longo prazo lhe tivesse ficado afectada, experimentou o seu segundo voo logo aos oito anos. O céu estava limpo, o vento era fraco e as condições eram todas propícias a uma queda do primeiro andar de um prédio em construção. Este até teria sido um evento pouco digno de menção não tivessem sido os tijolos que lhe caíram em cima acto contínuo à queda. Um buraco na perna por onde conseguia ver o osso foi o rescaldo final do incidente; o pai levou-o ao hospital para ser cosido e desta vez, sorte das sortes, pôde dormir à noite.
Até perfazer a bonita idade de vinte e dois anos, Romualdo não voltou a cair. A maldição acabara, chegou a pensar. Caiu muito de bicicleta, partiu a cabeça duas vezes, mas sempre derivado a brincadeiras saudáveis, nada de especial. Como se disse, aos vinte e dois anos, já adulto inconsciente portanto, numa noite de copos e confusão numa discoteca maligna, enquanto tentava meter conversa com uma miúda gira, o inevitável desequilíbrio do ser fez com que Romualdo se descadeirasse do primeiro andar abaixo, conseguindo o prodígio de não acertar em ninguém. O copo de cerveja partiu-se e os cacos cravaram-se-lhe na mão. Desta vez chorou muito, não de dor que não lhe doía nada, mas por não suportar ver cerveja desperdiçada.
Até aos dias de hoje nunca mais caiu e já lá vão largos anos. Não tem saudades. Às vezes dá consigo a questionar-se: teria ele alguma desavença com a lei da gravidade? Ou seria Deus, que para o castigar do ateísmo de vez em quando o empurrava?

A Recordação da Escócia

| terça-feira, 6 de outubro de 2009 | 4 comentários |
Enquanto ela lhe contava a sua aventura por terras da Escócia, Abrenúncio pensava em garrotes. Qual seria o melhor garrote? O de seda? Humm, não sabia que tipo de imagem deixaria um garrote de seda; embora deixasse um cadáver mais bonito as ilações a recolher seriam quando muito dúbias. O garrote de aço estava fora de questão, tresandava a assassino contratado e ele queria que tudo fosse tratado com grande classe. Ela explicava-lhe como os diferentes tipos de malte formavam um blend, falava-lhe dos diversos sabores e aromas e da técnica de envelhecimento, ele anuía com a cabeça afirmativamente; «bom, não terá que ser necessariamente com um garrote» pensava. Como caminhavam lado a lado as mãos de ambos tocavam-se involuntariamente. Ela não se descaía, e como se nada fosse, continuava a dissertar sobre a Escócia e seus castelos assombrados.
As armas de fogo estavam fora de questão, faziam muito barulho e os seus nervos há muito que pediam era silêncio. As facas e derivados eram sempre uma trapalhada, tinham que ser muito bem manejadas e deixavam tudo sujo. Chegaram ao fim do parque e durante o ritual da despedida, enquanto mediam bem as distancias para que os beijos na cara fossem cientificamente de amizade e não suscitassem equívocos de qualquer espécie, ela passou-lhe um saco para as mãos: «Uma recordação da Escócia.»
Abrenúncio abriu o saco e tirou de lá uma generosa garrafa de single malt. O vidro era do mais espesso que já havia visto e o gargalo manuseava-se bem. Uma pancada seca e acabava-se tudo, sem sangue, sem barulho, sem complicações. Esboçou um sorriso de agradecimento: «Obrigado, vai servir-me na perfeição.» Ela ficou contente que ele tivesse gostado. Gostava de o ver assim: calmo, simpático e educado, parecia outra pessoa.

O Ar dos Balões

| sexta-feira, 2 de outubro de 2009 | 0 comentários |
Chegou a uma conclusão que resultava do cansaço que sentia. As dores que lhe atravessam o corpo, os ais dos tendões, as reclamações dos músculos, o reumático precoce da adolescência, tudo se conjugava de forma a mantê-lo sossegado, estático, inerte. Quando neste estados, o seu espírito, como o ar quente que faz subir os balões, inflamava-se e ascendia a outras planícies. Terras de felicidade e contemplação. Era todo um outro universo que se queria imutável – nothing's gonna change my world – trauteava contente. Razão tinha o outro que sentia prazer em não cumprir um dever, reflectia. E nestas filosofias que se querem pequeninas porque também elas às vezes cansam, viu com clareza: a dor é boa.

O Comunicado

| terça-feira, 29 de setembro de 2009 | 0 comentários |
Quando o Palhaço-mor convocou a assembleia geral todos os restantes funcionários do circo ficaram num enorme estado de excitação. Eram sempre uma incógnita os comunicados daquele que era considerado o Rei dos Palhaços. Pérolas de sabedoria, sábias advertências, ou, se estivesse aborrecido, sérias admoestações, era o que se podia esperar de mais uma aparição fulgurante do Palhaço-mor. Ao fim da tarde, depois da hora de jantar dos ursos, era quando o Palhaço-mor gostava de arengar à congregação circense, e, à hora do costume, lá se encontraram todos; os funâmbulos, as contorcionistas, o domador de leões, os trapezistas, os restantes palhaços e até alguns cães adestrados. Não faltaram também os carregadores e montadores de tendas que, regra geral não entendiam nada do que era proferido pelo douto saltimbanco, mas  gostavam de aparecer e de ser vistos naqueles ajuntamentos sociais. Exactamente na hora marcada, nem mais nem menos um segundo(podia-se acertar o relógio por ele) o Grande Palhaço subiu ao palanque e num primeiro momento exibiu a sua cara séria, com as pinturas de palhaço zangado, dava a entender que o assunto era sério. Esticou o lábio inferior deixando a boca aberta por segundos antes algum som dela saísse. E o que finalmente saiu foi: «Hoje de manhã acordaram-me às 8h00», um clamor surgiu de imediato por entre a audiência; como é que era possível? E o Palhaço continuou «Eu só costumo acordar às 9h00.» Era verdade toda a gente o sabia, a indignação espalhava-se pelos presentes ainda suspensos das palavras do Palhaço que finalizou com uma (lá está) admoestação: «Que isto nunca mais se repita, pois sou capaz de ficar aborrecido», e, dito isto afastou-se na sua melhor pose de Palhaço-mor, o primeiro entre iguais.
Os presentes logo formaram grupinhos onde comentaram e analisaram a gravidade do comunicado. «É realmente um escândalo» ouvia-se neste grupo, «Ainda por cima à pessoa que foi» diziam aqueles mais além. Um dos palhaços comuns, que eram muito dados às teorias da conspiração, logo alvitrou uma hipótese: «Só podem ter sido os titereiros, eles é que têm a mania de mexer em todos os cordelinhos.»

Livre Arbítrio

| quinta-feira, 24 de setembro de 2009 | 3 comentários |

As Ratazanas

| terça-feira, 22 de setembro de 2009 | 9 comentários |
O Verão acabou e as eleições estão à porta. Duas formas comuns de acizentar os dias. Ao abrigo das nuvens escuras que ensombram o horizonte chegam as ratazanas. Cheias de bons modos, boas maneiras e promessas vãs, saem no princípio do Outono; que é quando é mais fácil tapar o sol com a peneira. O seu discurso é fastidioso, o seu sorriso é boçal, as suas intenções são venenosas, a sua mordidela é torpe. Amolecem-nos ao de leve o tempo suficiente de nos envolverem na sua ilusão. Depois seguem em caravana atropelando cães e gatos pelo caminho. São espertas estas ratazanas. Sabem que são espertas. Sabem o quanto somos mansos.
Pensava nisto Abrenúncio na esplanada dum bar em Paramaribo. Nunca o entardecer lhe parecera tão bonito, nunca o rum lhe soubera tão bem.

A Descoberta

| quinta-feira, 17 de setembro de 2009 | 4 comentários |
- Uma descoberta magnífica esta, doutor.
- Sim, modéstia à parte, podemos dizer que foi um grande passo para a civilização moderna.
- Ninguém diria que eles se afundariam tão rapidamente.
- O truque foi trasladar todo processo da água salgada para a água doce.
- E o porquê dessa mudança, doutor ?
- Bom, caro amigo, depois de muitos anos a estudar o homem-político, concluímos que este não tem consciência.
- E de que forma influencia isso a velocidade com que eles se afundam?
- É fácil de ver. A príncipio todos julgámos que, como não tinha consciência, o homem-político afundar-se-ia rapidamente, no entanto a experimentação provou-nos o contrário...
- Como assim doutor?
- É simples. No sítio onde deveria estar alojada a consciência, no homem-político não existe absolutamente nada, só o vazio. Vazio este que ao encher-se de ar inicia todo um processo de insuflação que resulta no boiar do político. Daí que, quando atirado ao mar, já de si propício à flutuação devido ao seu grau de salinidade, o homem-político era praticamente impossível de afogar.
- Mas, e permita-me a dúvida doutor...
- Concerteza.
- Por tudo o que acabou de explicar, não deveria o homem-político, flutuar também na água doce ainda que com maior dificuldade?
- Exacto. Foi por isso que lhe prendemos uma bigorna aos pés.
- Ah! Brilhante, magnífico, doutor. Não quero agourar, mas pressinto aqui um Prémio Nobel.
- Oh,...É muito gentil da sua parte.

A Moleza

| terça-feira, 15 de setembro de 2009 | 4 comentários |


Ildefonso arrastava-se pelo sofá imitando um qualquer animal invertebrado. Com os braços pendidos, erguia-se por cima das almofadas contorcendo-se lentamente até achar a posição adequada. De lábio inferior descaído e  olhos tardios, deixava-se estar até chegar a altura de rastejar para outro canto da sala. O telefone tocava a intervalos curtos, mas para Ildefonso o aparelho encontrava-se a anos-luz de distância. Mesmo que lá chegasse, os braços recusar-se-iam a funcionar, por isso «é escusado telefonarem» pensava Ildefonso à laia de mensagem de gravador de chamadas. Dormitava naquela modorra povoada de sonhos estranhos; onde podia correr, saltar e até voar a uma velocidade vertiginosa. Depois acordava com um fio de baba a escorrer-lhe do canto da boca, empapando-lhe a bochecha.
«Ahh!» Balbuciava. Gregor Samsa podia não saber em que ser repelente se havia transformado, mas Ildefonso sabia-o bem: «sou uma lesma!».

O Espelho

| quarta-feira, 9 de setembro de 2009 | 4 comentários |


Um dia, ao passar em frente a uma montra espelhada de uma qualquer casa de comércio, o homem teve um choque que o deixou combalido. A sua imagem, meu Deus, como havia mudado tanto sem dar por isso. Os olhos mais encovados do que o habitual, rodeados de pequenas rugas que lhe recortavam o cenho e a pele a evidenciar claramente que Newton tinha razão. Tinha envelhecido mais de dez anos sem nunca dar por isso. Mas como? Se quando se mirava em casa, o espelho lhe retribuía sempre a imagem jovial e fresca do antigamente, aquela que toda a gente sempre identificara com o seu charme. Arghh!!! Fora o seu espelho, bandido, querendo ser simpático para o dono, enganara-o durante todos estes anos. «Espelho mau, espelho cruel,...» Gritava o homem desesperado, arrastando-se pelo tapete da sala. Já não era ninguém, pensou, «fui ultrapassado pelo tempo, esse cancro maldito, e atraiçoado por uma amálgama de estanho e vidro.» Era toda uma auto-estima que caía por terra naquela tarde.
Dias mais tarde, estando aborrecido e em baixo, talvez um domingo à tarde, que era quando ponderava mais seriamente as ideias suicidas, o homem decidiu, assim sem mais nem menos, sair à rua para passear. Desta vez porém, iria vestido de mulher. Quando se sentou na esplanada do café que habitualmente frequentava, cruzou a perna e acendeu o cigarro que dependurava preguiçoso de uma boquilha. Pediu um vermute, que beberricou enquanto ia soltando, cheio de estilo, argolas de fumo. Sentiu um olhar posto em si que o observava em todos os movimentos; era a Rita. Voltou-se, e os seus olhares cruzaram-se por um instante. Ela corou muito, mas ainda assim lançou-lhe um sorriso malandro. «Ah! Ainda estou em jogo...» pensou ele satisfeito. Gradualmente sentiu o amor-próprio a regressar.

O Comprimido

| segunda-feira, 7 de setembro de 2009 | 2 comentários |
«Temos que cumprir o horário.» Era assim que Abrenúncio desfrutava agora a sua vida: a cumprir o horário. Eram muito importantes os horários; diziam-nos sempre onde estar e as horas certas para se estar lá. «A produção meus senhores, a produção é tudo...» Gritava o capataz enquanto circundava os cubículos «a produção não pode parar» acrescentava sempre no fim. «E eu que pensava que era o espectáculo que não podia parar» reflectia Abrenúncio. E então produziam, produziam muito. Produziam até se esquecerem do que estavam a produzir. Quando não estava a produzir estava em filas para o transporte de regresso a casa. Eram tão obrigatórias como cumprir o horário, as filas. Um jantar plastificado, uma cerveja quente e um pouco de entretenimento embrutecedor e estava pronto para mais uma jornada no mundo real, na maravilhosa da realidade, disponível em qualquer banca perto de si.
«Vamos lá meus senhores, vocês são a minha máquina oleada, a produção não pára...», de novo o capataz e a sua retórica infalível; eles eram a máquina e ele o condutor. «Matá-lo seria fácil» fantasiava frequentemente Abrenuncio «Depois,...Tomava o comprimido vermelho e acordava verdadeiramente para a vida.»
Após cumprir o horário, Abrenúncio dirigiu-se à enfermaria e queixou-se de dores de cabeça e pensamentos negativos. As dores cabeça nem tanto, mas os pensamentos negativos eram altamente desaconselháveis à produção. A enfermeira remexeu o dispensário e entregou-lhe um comprimido; vermelho desejou Abrenuncio de olhos fechados, mas não: era branco, como o coelho da Alice. Tomou-o e dirigiu-se para a fila dos transportes. Sentiu-se muito mais conformado.