Dois Mundos

| quarta-feira, 29 de abril de 2009 | 4 comentários |
A Cidade havia-se dividido em duas facções logo a seguir à revolução. Haviam os jovens que seguiam o movimento de Dan e os outros, os que seguiam a onda de Rhonda.
A primeira seita acreditava firmemente que o descendente do Salvador estava no meio de nós, e que, qualquer um podia ser Ele. Era cativante a ideia de um dia acordar e pensar «Sou O Messias». Esta seita era constítuida por uma população muito flutuante, uma vez que ironicamente, ao tentarem andar por cima de água, os seus seguidores geralmente afundavam-se, má sorte para os que não sabiam nadar.
Do outro lado das trincheiras militavam os seguidores do positivismo selvagem. Estes até tinham um hino à sua matriarca que não se cansavam de cantar: «Help me Rhonda, Help, Help me Rhonda...». Os adeptos desta facção acreditavam que se pensassem positivo, com muita força, a realidade transformava-se a seu gosto. Ouve logo quem se lembrasse de pensar muito positivo, sobre o regresso do saudoso ditador Salazar. E o homem realmente apareceu, só para voltar a desaparecer num ápice, uma vez que, aqueles para quem o velho ditador não era tão saudoso, pensaram positivamente em mandá-lo de volta. Diz quem assistiu que, a certa altura, havia um Salazar intermitente em cada esquina.
Apesar da Cidade estar dividida em duas, Dan e Rhonda por seu lado, eram amicíssimos. Encontravam-se uma vez por mês, para tomar chá e fazer um balanço dos lucros.

A Aplicação

| terça-feira, 28 de abril de 2009 | 0 comentários |
Só lhe apetecia dormir. Meu Deus, como lhe apetecia dormir. A senhora dos Serviços de Apoio Social não se calava, e ele, já não sabia em que posição se haveria de pôr para não adormecer. Estava ali por obrigação, todos os anos era a mesma coisa. A senhora dos Serviços sentia-se sozinha, e então convocava todos os representantes da colónia para discutirem o mesmo programa e as mesmas aplicações matemáticas. «Não se esqueçam, se a aplicação não funcionar com C, experimentem mudar para D, e confirmem sempre, é muito importante» a senhora gostava muito da sua voz. Todos os anos a porcaria da aplicação deixava de funcionar, sempre na mesmo altura, depois vinha a inevitável palestra que ele já sabia de cór. Lá fora o sol convidava a cerveja de esplanada, e ele já só via tremoços a voar. A voz cinzenta da senhora continuava a martelar os neurónios dos presentes, tudo em nome da máquina burocrática e dos seus funcionários tristes, afinal sempre era verdade, o monstro precisava mesmo de amigos.

A Obra

| segunda-feira, 27 de abril de 2009 | 0 comentários |
Ninguém sabia para que iria servir a estrutura, mas desde o início da sua montagem que dava muito que falar. A população, ao fim da tarde depois do trabalho, juntava-se em volta da construção e comentava o seu futuro uso, ou a falta dele, como eram apologistas alguns. Básicamente era uma estrutura em aço e ferro retorcido com vários patamares, muitas engrenagens e muitos rebites. Um dia, um dos trabalhadores, caiu da parte mais alta da construção e estatelou-se no chão. Muitos sacaram do telemóvel e aproveitaram para captar o momento único. Alguns comentaram com sapiência o estado do operário «aquilo são os miolos, a sairem-lhe da cabeça», como ninguém chamou uma ambulância o homem morreu ali, o que foi um escândalo. Levantou-se de imediato um troar contra a ineficácia dos serviços de socorro. Alguém apontou o dedo à construção «isto devia ser mandado abaixo, não precisamos disto para nada». Outros diziam que não, que a construção era uma obra do progresso e devia ser concluída uma vez que, como era coisa moderna, só podia trazer benefícios. O caso assim é que não podia ficar, por isso, a obra foi embargada. Hoje a obra ainda lá está, serve de abrigo para quando começa a chover, os jovens aproveitam os cantos escuros e vão para lá namorar e é lá que os velhos vendem o seu jogo ilegal. Nunca mais foi posta em causa e muito menos concluída.

O Interrogatório

| sexta-feira, 24 de abril de 2009 | 5 comentários |
Fecharam o ministro numa sala almofadada à prova de tudo. À prova de som, à prova de bala, enfim, à prova de conspirações estrangeiras. O ministro estava sentado numa cadeira de ferro ao centro. À sua volta dispunham-se cinco inspectores de soqueiras postas nas mãos, não fosse o diabo tecê-las, e como havia quem afirmasse que o dito cujo era amigo do ministro, era melhor prevenir do que remediar a súbita aparição de teares em chamas a meio do inquérito.
Um a um os inspectores interrogaram o ministro; queriam saber de onde viera a autorização para plantar mercearias num terreno reservado à produção de aviões de papel. Era escusado. O ministro não cedia, a rotação inquisitorial não o assustava, afinal de contas, tinha sido ele a inventar o método infalível de escape a perguntas incómodas. Os inspectores suavam a baldes e o ministro permanecia impávido que nem um dirigente desportivo.
A certa altura, os inspectores resolveram adoptar a táctica do quadrado e atacaram todos ao mesmo tempo. O ministro não se intimidou, antes pelo contrário, levantou-se e saiu da sala, atravessando uma das paredes como se esta não fosse mais que uma cortina de fumo. Os inspectores não queriam acreditar, nem conseguiam explicar o que se tinha passado. Mais tarde, a comunicação social referiu-se ao sucedido como: o estranho caso do ministro que parte através da parede e foge à questão essencial.

A Crónica

| quinta-feira, 23 de abril de 2009 | 2 comentários |
Estava a 24 horas do prazo de entrega, da sua crónica mensal, para a revista “O Repolho Andaluz”. Desde o príncipio da semana que se sentava religiosamente em frente ao computador, acendia um cigarro e enchia um copo com whisky. Ficava a olhar para a virtual folha em branco, dava baforadas no cigarro, bebia o whisky, mas nada lhe surgia. Bastava apenas pensar na crónica para que a sua mente começasse logo a vaguear por outras pastagens. Jogava à paciência enquanto a sua paciência se esgotava. Lia os mails engraçados, ia para as salas de chat discutir futebol, ouvia música e comprava online produtos que não precisava. Quando começava a sentir-se zonzo do whisky, desligava o computador e ia para a cama. No dia seguinte começava tudo de novo. Foi em frente ao computador que conheceu a esposa e foi em frente ao computador que se divorciou dela. Quando faltavam 24 horas para o prazo de entrega do texto, teve uma súbita inspiração e desligou a máquina. Em vez de escrever a crónica resolveu ir vivê-la.

Amnésia de Uma Noite de Verão

| quarta-feira, 22 de abril de 2009 | 2 comentários |
Acordou, mas não tinha memória de se ter deitado. Com o canto do olho reparou que o relógio de mesa de cabeceira era diferente do seu. Perscrutou o resto do quarto e concluiu que não estava em casa. «Porra!» gritou alto dentro de si, acontecera outra vez. Quando se levantou, reparou imediatamente que ainda estava vestido, o que era mau sinal, era sinal que não tinha sido uma das suas melhores noites. Na cabeça pesava-lhe o mundo, o mundo e a dúvida: onde estaria? Olhou pela janela e não conheceu a rua. A sua última lembrança era ter saído de casa bem disposto. «Desta vez é que foi a última», garantiu a si mesmo pela enésima vez. Queria ir embora mas tinha medo de sair do quarto. Não sabia o que lhe esperava do outro lado da porta. Entreabriu-a e espreitou para um corredor que todo ele indicava que a casa estava vazia, viu ao fundo a porta de saída. Respirou fundo e sentiu uma martelada no cérebro. «Vamos ter calma, é só atravessar o corredor e estou fora». Preparou-se como se fosse arrancar numa corrida de cem metros barreiras, abriu a porta de repente e, com um passo decidido atravessou o corredor até à porta de saída. Um post-it colado à altura dos olhos exortava a vermelho «Esquece que me conheceste - Esquece que aqui estiveste», ora aí estava um conselho que não iria ser difícil de seguir. Já na rua, acendeu um cigarro e olhou em redor, confuso, sem saber para que lado ficava a sua vida.

Policias e Ladrões

| terça-feira, 21 de abril de 2009 | 10 comentários |
Em pequeno, nas férias, Abrenúncio brincava muito com os seus amigos aos Polícias e Ladrões. Jogavam depois do jantar porque a noite envolvia-os todos numa capa de mistério e seriedade. Para os ladrões havia sempre a vantagem da escuridão transformar qualquer cantinho num esconderijo à prova de bala.
Abrenúncio sempre que possível, escolhia ser ladrão. Era uma vida mais excitante, com a adrenalina da fuga e tudo o mais. Nos filmes, mesmo naqueles que o polícia é o herói incontestado, Abrenúncio torcia secretamente pelo bom fim do bandido. Na escola primária chegou a ter problemas quando afirmou que quando fosse grande queria ser ladrão...Ladrão ou Bombeiro, eram os seus sonhos.
Hoje Abrenúncio é um homem crescido, os sonhos de criança ficaram para trás, esquecidos e nunca mais revisitados. É um homem respeitado pela sociedade e respeitador da moral e dos bons costumes. Desde que se tornou Gerente do Banco de Investimentos Galácticos, nunca mais pensou em roubar.

O Método

| segunda-feira, 20 de abril de 2009 | 0 comentários |
Chegara o dia da grande execução. O carrasco estava extremamente nervoso, o cliente era o chefe de uma grande rede de apreciadores de criancinhas. Esta rede havia sido desmontada vinte anos antes pela polícia dos maus costumes, numa operação concertada por um agente que, entretanto havia sido desterrado para Nebulax – a pequena.
Era grande a celeuma sobre como deveria ser executado o facínora. Não havia consenso entre as grandes mentes de Remulak – A Grande. Uns alegavam que a cadeira de electrões seria muito brutal, outros que o gás perfumado seria muito brando, para um crime tão hediondo. O povo não estava interessado no método, só lhe interessava os restos de carne que sempre eram atirados por cima da cerca, e que depois eram dados a comer aos cães de rua. Aquele que estava para morrer, saboreava descontraído o seu almoço gourmet. Como era amigo íntimo do Presidente do Conselho de Ministros, não estava preocupado, sabia que aquele telefonema havia de chegar mais tarde ou mais cedo.
Entretanto, alguém se lembrou de que, deviam ser as criancinhas a escolher o castigo.
Aquele telefonema nunca chegou, e o condenado mijou-se pelas pernas abaixo quando foi colocado frente-a-frente com a criancinha. A criancinha apontou-lhe o dedo e, solene, sentenciou:
- Quero-o cortado às fatias fininhas, como o fiambre.

As Virgens Loucas

| sexta-feira, 17 de abril de 2009 | 4 comentários |
As virgens loucas decidiram casar-se todas em Agosto, pela força do calor e porque estavam com os calores. Vestidas de branco foram a correr para a Catedral da Sé aos gritos histéricos «É hoje! É hoje!». A igreja estava a abarrotar de convidados e de curiosos: a virgem louca, tal como o Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível, era uma visão rara. Arrumada a lenga-lenga habitual com citações bíblicas à mistura, o Padre, que não cabia em si de orgulho, lançou o repto fatal:
Alguém tem algo contra a união destes casais?
Eu! - Ribombou uma voz de trovão por toda a catedral. Era Deus em pessoa.
- Estas virgens não são loucas e nem sequer são virgens. - Era a vontade de Deus que as virgens não se casassem.
Na plateia os convidados resmungavam«eu sabia, nunca me enganaram» e outros ainda «ouvi dizer que uma delas foi para a cama com o filho do primo do padrastro do Zé Filipe». A desilusão era geral e ouve quem fosse reclamar o seu dinheiro à bilheteira.
As virgens, possuídas agora de uma genuína loucura, sairam da igreja a correr aos gritos histéricos «Era hoje! Era hoje!», tomaram o caminho de um penhasco e de lá se atiraram todas ao mar.
Deus ficou todo contente, mas o padre estava inconsolável.

A Dúvida

| quinta-feira, 16 de abril de 2009 | 2 comentários |
Romualdo, Zeferino e Anacleto encontraram-se reclusos na mesma cela. Não se lembravam de nada; nem o que tinham feito, nem porquê, nem se tinham feito alguma coisa. A cela era escura e não tinha janelas, era pequena e não havia onde se sentar por isso sentaram-se no chão. Olharam uns para os outros com desconfiança. Tinham todos a leve impressão de se conhecerem de algum lado, como se já tivessem feito parte de uma mesma estória, como se já tivessem viajado juntos por outras latitudes.
Todos os dias, um deles era retirado da cela por breves momentos só para voltar depois, cansado e angustiado, confuso e agoniado. Depois de conversarem e de trocarem notas sobre as suas experiências no exterior, chegaram à conclusão que estavam à mercê de uma entidade ditadora, auto-denominada de El Matador. Esta personagem tinha por hábito ser cruel com os seus prisioneiros. Pressentiam que a fuga era básicamente impossível uma vez que eram constantemente observados, todos os dias, todas as horas. Mesmo no momento em que discutiam este assunto, sentiam que as ideias não eram tanto suas como do próprio El Matador, que era omnisciente e omnipotente das suas vidas. Não sabiam se haviam de detestá-lo ou erguer altares em seu nome.