| segunda-feira, 4 de março de 2013 | 14 comentários |



FIM

Uns começam pelo princípio,
outros pelo meio, eu começo pelo fim.
Dedicar-me-ei doravante à lascívia
 e ao comércio de armas. 
Sem pudor e sem vergonha
como as pessoas normais.




five years                                                                                                                           04/03/2009

#345

| segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013 | 5 comentários |

Foi só depois de ter batido com a cabeça pela segunda vez que me apercebi que já não sou uma pessoa normal. Insociável desde cedo; vivo para o consolo de não comunicar com ninguém: único sobrevivente dum Apocalipse autista.  
Nas viagens constantes que faço ao passado lanço a âncora no fundo da memória. Atolo-me quase sempre na escuridão do lodo reminiscente enquanto chafurdo na ânsia de imagens felizes. As lembranças comportam-se qual areias movediças; afundo tanto quanto me inquieto.
Agora quero bater com a cabeça outra vez, a terceira, que oblitere para sempre a recordação do tempo passado. Limpo e vazio viajo para as Ilhas Trobriand. Nasço ali um homem novo, sem pecado, puro como Adão. Convivo jovial com os argonautas do sul e nado à solta com os tubarões. Sem dor, sem memória, sem passado. 

...

| sábado, 2 de fevereiro de 2013 | 5 comentários |

#341

| terça-feira, 29 de janeiro de 2013 | 5 comentários |

- O que deus me deu em beleza retirou-me em talento!
- Achas? Por outro lado compensou-te em modéstia.
- Como assim?
- Não penses mais nisso.
- Podia ser tudo o que quisesse se tudo o que eu quisesse não fosse: nada.
- Sendo assim já és tudo o que queres.
- Explica.
- Se tudo o que queres é nada e se não és nada, és tudo o que queres.
- Parece-me confuso, mas sinto que há um pouco de verdade nisso tudo. O que eu queria mesmo era ser feio.
- Feio e optimista ou feio e realista?
- Feio como as pessoas feias que não têm nada e padecem os horrores de nascerem feias e pobres, sem ninguém que goste delas, sem sorte, sem nada percebes? Horríveis, angustiantes, sem graça, gordas, asquerosas, daquelas que uma pessoa primeira controla-se e depois não aguenta mais e tem que dizer: Caraças! Que pessoa tão feia.
- E tu querias ser uma dessas pessoas porquê?
- Queria sentir o que a maioria das pessoas neste mundo sente. Queria saber como é.
- O quê?
- A angústia. A dor de viver. Aquilo de que é feito a Arte. Mas, helas, sou belo e mágico e bom…
- …E humilde.
- Exacto.

#339

| sexta-feira, 25 de janeiro de 2013 | 3 comentários |

É triste. É tudo tão triste. Começa com um piano que marca preguiçoso um compasso simples, pergunta e responde conforme avança. O executante parece não querer mais levantar as mãos cada vez que as pousa no teclado. Arrasta depois uma melodia: uns versos lentos e melancólicos como quem boceja nostálgico, como quem acorda drogado de saudade.
Entra o violino… Que angústia! Um sofrimento que se prolonga quase até deixar de ouvir-se, um esgar no rosto, uma nota suspensa de aflição. O piano martela aqui e ali como que a chamar para a realidade, mas o que se mantém é aquela expressão paralisada de medo: uma boca de braços em baixo, um olhar de mãos pendidas. O ambiente aquece com a voz semi-rouca do violoncelo que surge qual bálsamo conciliador. Ameniza acolá a ferida aberta com uma escala ou duas. Depois parece deixar-se levar pela entropia e mais não faz que sublinhar a dor. Harmonizam os instrumentos; reparamos agora que também há uma espécie de xilofone baixinho a sustentar todo o edifício. Agora estão todos de acordo: não há nada a fazer, é deixar sufocá-lo, é deixá-lo ficar. Saem de cena, um a um, os instrumentos ao de leve, como uma brisa que se deixa de sentir. Fica apenas o violino, em suspenso como entrou: um chorar baixinho sem lágrima, uma nota só que se mantém equilibrada sob ameaça de extinção, indelével, incorrupta, como o passado que paralisa à noite, como uma droga. 

Moon

Espelho Meu, Espelho Meu...

| sexta-feira, 18 de janeiro de 2013 | 6 comentários |

Tenho a alma em carne viva
E os cordões desapertados
Cada vez que troco os passos
Desfaço-me em mil bocados


Hoje de manhã, no acto de me pentear e tentando alinhar os pêlos mais revoltos da ruiva barba que me caracteriza, dei comigo a pensar: caramba pá, és um gajo deveras bonito. Acto contínuo resolvi convidar-me para jantar. Uma coisa impessoal lá em casa, com umas velas de cheiro, um vinho branco e uma massa feita à pressão. Já há umas semanas que me circundava e mandava umas indirectas, a apalpar terreno, mas nada… Nunca quis saber de mim. Hoje no entanto, fazendo uso de umas falinhas mansas que só eu conheço e aproveitando que estava um tudo nada invulnerável, telefonei-me e lá consegui convencer-me. Cheguei mais cedo que o combinado com uma garrafa de vino e um ramo de flores. Oh! Emocionei-me, não era preciso, Qual quê? Eu sou mesmo assim, um romântico invertebrado. Como cheguei antes da hora marcada dei comigo ainda a fazer o jantar. Abri a garrafa de vino e servi-me generosamente. Gosto de beber vinho enquanto me ensaio na cozinha. Ultimamente acho que cozinho apenas como desculpa para poder abusar do vino. Sentei-me à mesa e ataquei as entradas de queijo derretido com orégãos e azeite que tinha preparado. Hummm! Que bom! Comentei e agradeci-me. Com o prato principal enchi mais um copo de vino e brindei-me. Que maravilha, pensei, isto está a correr muito melhor do que tinha planeado. Geralmente fico nervoso quando recebo visitas, mas desta vez, até me estava a portar condignamente. Fiz os brindes habituais para um futuro e saúde melhor e aproveitei como sempre para falar sobre mim: dúvidas, angústias e tudo mais. Abanei a cabeça, fingindo-me interessado enquanto me ouvia: sou um bom ouvinte, e para mais, conhecia bem aquela história. Depois do jantar, a pièce de résistance foi o whisky de malte com que me felicitei. Não há dúvida que só uma pessoa como eu é que me pode conhecer desta forma: pois se era exactamente a marca que costumo beber, mais do que devia, advirto-me, ultimamente parece que tenho abusado do licor dos deuses (da Escócia), sim, sim, mas não há-de ser por causa de uma noite que há-de vir o mal ao mundo, retorqui. Tens razão, concordei e enchi mais um copo. Depois, já no quarto, como se estivesse num qualquer simpósio questionei-me sobre o sentido do Amor. Parece que tenho andado a ler Platão às escondidas, O Banquete, nos intervalos dos intervalos de quando não faço nada. Pela parte que me toca, argumentei, o amor são duas linhas paralelas que se cruzam de vez em quando e que nunca se hão-de encontrar nem no infinito, e disto não se lembrou Platão. É bem verdade, anuí, pode dar-se o caso que nem sequer sejam paralelas, as linhas, e que uma seja apenas uma projecção da outra, ou seja, a outra nunca esteve lá, compreendes? Compreendo perfeitamente, já estás bêbado! Não é por aí, expliquei-me, a outra linha nunca esteve lá, era apenas uma ilusão, um engano. É possível! Tenho que escrever isto! Sentei-me ao computador sem reparar que me tinha deixado desamparado à porta do quarto. Daí observei-me sentado ao PC em efervescente agitação de conceitos que se escapavam pelo teclado, vítimas de um jantar e noite bem regadas. Despedi-me até uma próxima altura mas sinceramente nem dei por ter saído. Acabei com a excelsa liquidez caledónia e estirei-me ao comprido na cama, na diagonal, como gosto de fazer de vez em quando em noites de lua nova. Pensei em mim e na rudeza que foi o não me ter acompanhado até à porta. 
Adormeci a borbulhar em malte na certeza porém de que iria acordar bem acompanhado.


Às Portas de Kiev no Inverno

| terça-feira, 15 de janeiro de 2013 | 7 comentários |


Dou comigo uma e outra vez a retornar ao café onde se assistem a jogos de futebol 24 horas por dia. A população continua na mesma: mines firmemente em punho, beatas dependuradas do canto da boca, pescoço levemente inclinado para o ecrã gigante e um dos braços poisado sobre a perna traçada, sempre pronto a violentar o tampo da mesa em caso de prevaricação por parte do árbitro. A linguagem também se mantém a mesma: caralhadas a torto e a direito e o ocasional filho-da-puta quando se trata de mencionar o já referido juiz. O que também se mantém firme no seu posto são as mamas da ucraniana que serve ao balcão. Duas luas cheias a rebentar por dentro do soutien, que me agitam as marés vivas sempre que vou tomar café.
- Ultimamente tens vindo muito aqui! – Grunhe o meu vizinho do rés-do-chão, pessoa que detesto e que é uma das alimárias frequentes no recinto.
- É verdade, descobri que o café me faz bem, ajuda-me a concentrar…– minto descaradamente, o café faz-me horrivelmente mal, sendo uma das questões que mantenho com o meu médico.
Encosto-me ao balcão e peço um café à Ucraniana. Aproveito a interacção para lhe elogiar a nova cor com que pintou o cabelo. Ela mira-me desinteressada e com secura: da, da. Sinto o ar gelado como se estivesse às portas de Kiev no inverno.
Reparei entretanto que o tipo dela passa pelo homem macho, o mecânico com as mãos ainda sujas de óleo, o trolha com as calças manchadas de cimento e por aí a fora. Por isso fiquei uma vez sem tomar banho durante 3 dias, rebolei-me na terra molhada depois de chover (para grande espanto de uma senhora que passeava um caniche) e por fim coloquei o inevitável palito ao canto da boca. Cheguei ao café com a blusa de alças toda cagada à Bruce Willis, pedi um café e um bagaço com a voz rouca à Tom Waits, e, como a Ucraniana estava de folga nesse dia a única coisa que fiz foi figura de parvo.
- Andas a estudar para sem-abrigo? – Perguntou sarcástico o cabrão do rés-do-chão. 
Como se não bastasse ainda apanhei uma valente constipação.
- Aiai – Resmunga o médico sem olhar para mim enquanto passa a receita – Olha que o café faz-te mal, pá! Mas as mamas dessa ucraniana ainda te fazem pior.

Na Fronteira Com a Rússia

| segunda-feira, 14 de janeiro de 2013 | 10 comentários |

Pessoalmente sinto-me uma matrioshka. Sou oco e arredondado e existem vários cá dentro. Vi-as uma vez à venda na fronteira com a Rússia mas não comprei nenhuma. Assombrou-me a forma como se pareciam comigo.
Por fora também sou grande e prometo muito. Quem me vê ao longe até pensa antes de se aperceber da minha vacuidade, eh lá, o que é aquilo que ali vem? Depois desatarraxam-me a cabeça só para encontrar lá dentro uma versão mais pequena e mais mesquinha de mim. Uma e outra vez repetem a operação e lá vão surgindo eus cada vez mais absurdos, brutais, coléricos, cínicos, invejosos e sempre que isso acontece diminuo de tamanho perante os olhares espantados da multidão. Que prodígio é este perguntam, o homem tem que estar em algum lado. Enganam-se redondamente. E camada atrás de camada, como se faz à cebolas, vão-me desmanchando, com a fúria avassaladora de quem se atola no lodo e não encontra a agulha no chiqueiro. Acabo por aparecer na última peça, compacto e indivisível, sujo, intratável, boçal, patético, minúsculo e imprestável. Ah! Exclamam, é só isto? Agito furioso os bracinhos num frémito enervante. Alguém me dá um pontapé que me deixa deitado de costas a espernear, como as baratas depois de pisadas. Brado aos céus insultos a todos os deuses mas a voz sai-me esganiçada. De tanto remexer acabo soterrado na lama e toda a vida me sabe mal.  

Da Assimetria do Cansaço

| sábado, 12 de janeiro de 2013 | 8 comentários |



Não há mais a dizer que não seja: o cansaço. O cansaço comanda a vida. Insurge-se-lhe sub-repticiamente. Baralha-lhe as ideias. Obstrui-lhe o senso comum, a decisão sensata. O cansaço toma decisões independentes de um cérebro que não o consegue controlar e no fim desculpa-se: foi o cansaço.
Está na base de todos os ismos de todas as guerras e revoluções. Foi por cansaço que o Cristo se deixou levar ao monte Gólgota. Entregou-se de corpo e alma à fustigação tonitruante, em virtude da amnistia de um povo criado e abençoado por deus. Deus, que ao fim e ao cabo eram ele e mais dois transfigurados num só. A diversidade na unidade. «Que canseira!» disse Pilatos ao tentar compreender o paradoxo, e ainda que lhe esperasse nas termas um banho quente numa infusão de ervas aromáticas, ficou-se por uma simples lavagem de mãos.
Até Judas, o apóstolo inteligente, cansou-se um dia de toda a mistificação do cansaço perene. Farto de dar a outra face e de amar o próximo; farto dos milagres de pacotilha, da política em prol dos pobres e desfavorecidos, dos reformados, dos doentes, dos cegos e paralíticos, dos ciganos e bombeiros, dos viciados em láudano; alardeou um dia: fuck you guys, i’m goin’ home!
«Quem é que eu tenho que beijar para sair deste cansaço miserável?»- Perguntou o apóstolo inteligente antes de perder as botas (que na verdade eram sandálias) no seu próprio cu. 
Hoje passei por uma estante no sweet drop onde se oferecia um copo  de whisky na compra de uma garrafa. Eu como gosto de copos e promoções agarrei de imediato na garrafa. Mais tarde regurgitei: com o dinheiro daquela garrafa poderia ter comprado cinquenta copos. 
Mas tal como o Cristo redentor, deixei-me sacrificar ao deus antropomórfico dos mercados, do dinheiro e da economia. «Deus é o dinheiro, só é salvo quem o adorar»  cantou a sábia e não menos cansada Lena d’Água nos idos de oitenta. Estar cansado é condição sine qua non para se ser cidadão deste cubículo golfista, como atesta o próprio documento na sua designação: C.C. – Cartão de Cansaço.
Nós o que precisamos não é de austeridade nem de subsídios em duodenos. Não precisamos da imaginária Europa prostituída, nem sequer dum pangermanismo pós-moderno disfarçado de gorda arrogante. O que a malta precisa é de descanso…Ou então de uma guerra: provam as estatísticas que durante as guerras os suicídios baixam consideravelmente.

#334: Mines, Minduíns e Dirigíveis

| sábado, 5 de janeiro de 2013 | 10 comentários |
Fui tomar café com o intuito de despertar as ventas e dar um pouco de passeio às gorduras depois do jantar. É certo que não devia beber café, segundo o médico, a cafeína é um dos muitos alcalóides que me são prejudiciais à saúde. É por isso que o acompanho sempre com um balão de whisky, não vá o outro entrar todo puro e despudorado pelo estômago adentro como se tivesse num concerto rock. Digo isto porque ouço Led Zeppelin enquanto escrevo estas linhas: é banda de adolescência que já não ouvia há muito e hoje apeteceu-me. Talvez por ter vindo motivado do café. Encostei-me ao balcão e pedi um café, ou melhor, resolvi a confusão da empregada que sempre que me vê nunca sabe se quero um descafeinado ou um café a sério, como os homens. No ecrã gigante da parede passava um jogo de futebol do campeonato de Espanha, digo passava porque nestes estabelecimentos às vezes dá-se o hábito de se verem os jogos do dia anterior quando não são in extremis de uma outra época. É uma espécie de fé inabalável, típica do fã de bola:  esperar que no dia a seguir a sua equipe acabe por ganhar o jogo que perdeu no dia anterior. Não façamos no entanto juízos de valor, existem crenças mais absurdas. O que os homens gostam a sério é de estar em conjunto, mesmo que em mesas separadas torcendo por equipas diferentes. O homem cultiva a sua homenzorrazuidade com fervor religioso e é isso que o une em volta do cálice divino da mine e da hóstia consagrada do tramoço. Reparei nisto com um olho enquanto que com o outro apreciava o decote generoso da ucraniana do balcão (sim, sou vesgo além de gordo). Sempre que havia um quasi golo ou uma entrada daquelas mesmo duras (esta expressão aprendi lá) os indivíduos agitavam-se como fiéis de uma igreja baptista, levantavam os braços e davam graças ao deus do catechu.
Porra! Ia sendo! Ah caralho! Foram alguns dos aleluias que depreendi fizessem parte do culto. Tentei repeti-los em ocasiões que me pareceram adequadas no intuito de me integrar; até porque notei que a moça de leste nutria um espécie de ternura por demonstrações de virilidade sedentária-etílica, e eu, como tenho um fraco por moças oriundas daquela linha que vai do Báltico ao Mar Negro tentei portar-me à altura. Dei por mim a coçar os testículos (outra profissão de fé) e a pedir mais mínduins.
Como se a gaja não reparasse puto em mim, ainda que eu me tenha tornado num macho latino instantâneo, resolvi que estava na altura de me sobrepor àquela horda de grunhos embrutecidos, ou não fosse eu um adepto ferrenho daquela equipa que tinha a camisa às riscas. Ah! Caralho. Quase que ia fonde! – gritei à bruta ao mesmo tempo que bati com a mine no balcão num acto que tinha tanto de desiludido como de irritado. A lituana olhou-me com ar espantado assim como o resto dos meus congéneres: parece que o jogo já tinha acabado há pelo menos meia hora. Fiquei atabalhoado como sempre fico quando mais que uma pessoa olha para mim, no entanto não me desfiz:
- A culpa desta merda é do árbitro!
Saí de cabeça erguida; o consenso era geral, a culpa tinha sido mesmo do árbitro e da sua mãe que pelos vistos mantém um ocupação freelancer por detrás do Hotel Eva.
Não engatei a moldava mas descobri o homem que havia em mim. Até hoje eu nunca passara de uma Elisabete Sofia intelectualóide, incapaz de tomar conta fosse do que fosse, mas agora sim eu era um verdadeiro Romualdo Alizando Cresce, de micose no escroto e arroto leguminoso; isto tudo numa noite, sem nunca ter ido à tropa. 


#333: Metade da Besta

| sexta-feira, 28 de dezembro de 2012 | 3 comentários |





- Feliz Ânus Novo!
 Foi a última coisa que ele ouviu, depois de deixar cair o sabonete no duche.




...

| terça-feira, 25 de dezembro de 2012 | 7 comentários |

Há Sempre um MacClaúdio em Cada Solstício

| segunda-feira, 24 de dezembro de 2012 | 5 comentários |

Quando chega a noite de natal, existem apenas duas tradições que respeito com fiel ardor e devoção. Uma é ali da região de Borba e a outra é oriunda da Escócia. 
Abstenho-me do peru e quejandos bacalhaus em prol desta maravilhosa fusão de culturas: a alentejana e a celta. Não sou xenófobo nas tradições nataleiras; apetecem-me também tabacos de outras regiões, de texturas moles e aromáticas, mas isso são apetites que não posso satisfazer, com  grande pena e saudade minha.
Se pensarmos bem, não  é assim tão estranho celebrar o natal encalhado entre tão distantes etnografias. Uma já foi berço de imortais e a outra é frequentemente visitada por extraterrestres. Ambas têm um sotaque deliciosamente carregado; ambas permitem o uso de saias ao domingo e ambas aliviam o fardo da existência em pequenas doses intercambiáveis.
É uma noite calma e silenciosa a do nosso salvador, uma noite de recolha e paz. Saio portanto trajado a rigor: tomates à solta por debaixo da saia padronizada, peitos musculados ao léu como que a desafiar o temperamento dos deuses pagãos. Coço o escroto vítima de micose meridional e possuído de uma vetusta ânsia andaluz, mijo em cada um dos 18 buracos do campo de golfe junto ao mar; como se fosse um highlander sem capote.
-  There can be only one ! - Exclamo em voz alta.
 – E que seja de Borba! – Acrescento depois à laia de conciliação cultural.


Como o Sódio Sem Cloro

| sexta-feira, 21 de dezembro de 2012 | 3 comentários |

“Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer.”
J.P. Sartre

Sei que estou nu e ainda assim apresento-me a tribunal. Entrego-me à mercê dos meus pares no estado em que vim ao mundo: transparente e impoluto. Sem mágoas, sem apelos, sem agravos. Sou tudo o que está à vista. Assumo a tremenda estupidez, arrogância e inépcia de me comportar como um ser pertencente à humanidade. Não valho nada, estou consciente e em paz. Conhece-te a ti próprio, alvitram as filosofias; é isso que faço: conheço-me a cada dia que passa e a cada dia sinto mais asco daquilo que sou: um verme vermelho e verde, uma viscose daninha, um vírus vaidoso. Mea Culpa por tudo o que fiz e por tudo o que ainda virei a fazer. É muito importante prevenirmo-nos de pessoas como eu, Meritíssimo. Se me deixam a sós e sem supervisão, isto é, se me deixam tomar decisões baseadas no livre arbítrio, então declaro ser um individuo perigoso. Não sou fiável admito, sou cruel e traiçoeiro; sou instável como o sódio sem o cloro; mereço o cadafalso, uma guilhotina que me apazigúe, digníssimos.
Um dia saí à rua e fui mau porque pude, e essa foi a mais forte das drogas que já tomei, também a mais viciante.
Não tenho medo de deus, senhor doutor, tenho medo de mim; é que, sabe senhor doutor, de mim eu já senti as dores, deus nunca vi.
Por esta altura um meirinho fustiga-me os genitais com uma vara de bambu, só para ver se ainda funcionam uma vez que se dependuram ressequidos. Ai! Exclamo deveras incomodado, a madeira quando ofende as partes pudibundas tende a ser dolorosa, e lá está, as dores eu sinto.
É um facto que está vivo, declara o Supra Sumo Supremo Meritíssimo. É um facto que é culpado. Deverá portanto ser exposto como exemplo. Atirem-no pela janela besuntado de mel, depois soltem as vespas.

Eu Não Sou o Elvis

| quarta-feira, 19 de dezembro de 2012 | 3 comentários |

Sei que me tornei um epicurista quando até o som do vinho a bater no fundo do copo me dá prazer. É um acto que alegra todos os sentidos, o beber. E se houve quem se tenha lembrado que não era satisfeita a audição, logo houve quem de imediato inventasse o tchim-tchim. Quem me contou isto foi um amigo meu, numa noite de grande bebedeira. Disse isto e adormeceu com a cabeça encostada ao lancil e o corpo exposto à estrada: a imagem clássica do anjo caído, com a devida ressalva de o meu amigo não ser nenhum anjo.
Pois então, digo-vos eu que me tornei num epicurista invertebrado. Não, não corrijam o português, é mesmo invertebrado que queria dizer. É assim que me sinto quando me dão aqueles ataques de Epicuro, em que tudo me é indiferente e a vida passa lentamente envolta numa estranha modorra. É sempre por alturas do natal que me entrego mais afincadamente a estas práticas de lascívia e entorpecimento. Deve ser por ser esta a quadra que me é mais querida; quando toda a gente é honesta e boazinha e troca prendas desinteressadamente. A imagem do menino, eternamente nas palhas deitado, rodeado de duas vacas e dois burros inspira-me deveras. E por isso deito-me também, e fico ali, todo empalhado, a contemplar o azul do tecto.
Que não devia misturar drunfos com o álcool, insistem os meu amigos, que faz mal, que podes sufocar no vómito. O que eles não sabem é que eu faço isto sempre em jejum, e por isso não corro riscos. Além disso o Elvis fazia a mesma coisa e ainda ia para cima do palco lá em Las Vegas, todo gordo, cantar o love me tender com aquela voz de cú que ele tinha. Se o Elvis pode eu também posso, caraças. O que é que o Elvis tem a mais do que eu? Eu também sou gordo e desleixado. Eu também tenho uma voz irritante às vezes quando estou bêbado e quase sempre quando estou sóbrio. Eu também gosto de aos domingos me vestir de fato de macaco de cetim branco às estrelinhas azuis, e abanar as ancas em frente ao espelho. A única diferença entre mim e o Elvis é que eu não sou parolo.
Olha, por falar nisto, sinto que vem aí outro ataque daqueles; maldito epicurismo que se apega à gente como sarna. Fito o tecto azul e deixo-me embalar num emaranhado de ideias parvas. Ahahah, o Elvis é que havia de gostar disto.

O Enquadramento

| domingo, 16 de dezembro de 2012 | 4 comentários |

Olho as fotografias e imagino que és real e que estás aqui. Sinto que te conheço, como se tivéssemos feito parte um do outro numa qualquer realidade paralela. Às vezes consigo até sentir o cheiro que emanas por debaixo dessa minissaia tímida, tracejada de negro em fundo branco. Gostava de rasgá-la e deixar-te montada nessas pernas longas e torneadas que se apoiam em sapatos de altos saltos negros. Ai! Que visão.
Encostava-te a esse corrimão que atravessa o enquadramento de uma ponta a outra, virada de costas para mim, mala vermelha na mão, e aí sim, entrava em ti, como um animal mítico esfaimado; um Minotauro espumando sexo pela glande. E nisto baralhar-se-ia Teseu perante tamanha cópula, e Dédalo, o perfeito designer, construiria asas inspiradas em orgasmos alados, libertadoras do labiríntico determinismo do homem, do mundo, da história, da guerra e da desigualdade. E no fim, visto de longe, sobraria apenas a fusão dos dois corpos, pairando no ar, nem tão perto do sol nem tão longe, de forma a não se derreter nunca a cera primordial; ali, no meio-termo, como aconselhou Dédalo e o Buda.



O Rei-Lua Postiço*

| sábado, 15 de dezembro de 2012 | 3 comentários |

[…] O corrido, o raimoso, o desleal
O balofo arrotando Império astral
O mago sem condão, o Esfinge Gorda.
 (in Aqueleoutro, M. de Sá-Carneiro, 1916)*


E é assim que passo os momentos de ócio: em ociosidade. Rebolo-me vagaroso na cama de casal que ocupo de forma  singular; gordo, flácido, boçal. Passo os dias nesta forma amorfa de banha espalhada pelas colchas. Não há sentido na vida que não seja engordar, tudo nas estrelas assim o indica, e eu, não gosto de contrariar os astros. Reviro os olhos num bocejar benzodiazepino; a luz do sol filtrada pelas persianas, forma um padrão de luz nas mantas que me tapam. Acordo de tempos a tempos e vejo que o padrão se move da esquerda para a direita, da cama para a parede, da parede para o tecto: é assim que meço o tempo.
Sou um monte disforme de gordura e chocolate. A mão escorrega o suficiente para alcançar a garrafa de vinho; e, é só porque preciso de enxaguar os dentes: há pedaços de carne que se recusam a abandonar os interstícios. Uma boa higiene oral é tudo, dizem na rádio; é verdade, tenho o rádio ligado. As notícias de meia em meia hora confundem-me os sonhos; às vezes sonho que estou na rua a ser entrevistado e que sou belo e magro e ágil, articulo elegante o discurso quando digo que “isto não vai nada bem!”. Acordo de tempos a tempos com o sal da baba solidificado nos cantos da boca e rebolo-me um pouco mais; há que mudar de posição de quando em vez, para evitar a criação de chagas no corpo.
Chove! Que bom que é ouvir a chuva na cama. As gotas a percutirem na janela são como pequenos comprimidos para dormir quando chegam ao cérebro: entorpecem e acalmam-no.
Diz que o mundo está quase a acabar. Gostava de ver isso. Imagino-me deitado; sonolento e muito balofo; arrotando chocolate da América Central, como o um dos Maias. E pensar a quando das primeiras bolas de chamas que irrompessem pela atmosfera:
- Ah! Maria Eduarda, não soubesse eu o que sei hoje e tivéssemos nós mais tempo, ainda era moço para te dar mais uma. 

Honk-Logia I

| sexta-feira, 23 de novembro de 2012 | 6 comentários |

Quando tinha cinco anos, o meu pai levou-me a visitar o seu local de trabalho. Depois de logo à entrada ter sido vítima dos habituais puxões de bochechas e esfreganços de cabelo, acompanhados do clássico “Ah! Campeão”, subi até ao primeiro andar, sempre guiado pela mão forte e enorme (aos meus olhos) do meu pai. Foi apenas um segundo, contou-me ele mais tarde, em que para cumprimentar um colega, o meu pai me deixou da mão. Nesse instante, parece que consegui enfiar-me pelas varetas das escadas e mergulhar de cabeça, qual torpedo, rumo ao rés-do-chão. Do que se seguiu não tenho relatos, mas imagino que tenha sido o pânico. A minha mãe uma vez contou-me  que a minha cabeça parecia uma melancia em tamanho, com a orelha esquerda completamente dobrada, tal era o tamanho do hematoma. É claro que as mães exageram sempre, mas ainda hoje tenho um alto no lado esquerdo da cabeça, para não me esquecer de uma queda que ainda hoje não me lembro.
Trinta e cinco anos depois, quando estava na fase terminal de um cancro na próstata, o meu pai chorava sempre que eu o ia ver ao hospital. As enfermeiras estranhavam muito pois parece que o meu pai, mesmo cheio de dores mantinha o sentido de humor; chegando mesmo a mandar uns piropos de vez em quando. No entanto, sempre que eu atravessava as portas da enfermaria, era um pranto que só visto. Pareces uma Madalena, homem! - censurava-lhe a companheira.
Um dia, em que os pensos de fentanyl  não estavam a fazer efeito e o meu pai já não conseguia chorar, julguei desvendar-lhe nos olhos o segredo íntimo do sofrimento. Não eram as dores atrozes nas artroses, nem a anca delapidada com as metástases, nem o potássio a subir-lhe ao cérebro pela falha renal. Era a queda. O meu pai continuava a ver-me cair com cinco anos de idade. Todos os dias eu caía do primeiro andar. Quando o visitava tinha sempre cinco anos, e, pensando bem, acho que para o meu pai eu tive cinco anos a vida toda. Tive cinco anos quando comecei a fumar, tive cinco anos quando deixei de estudar, tive ano sim, ano não: cinco anos de idade. Uma tarde, durante a visita,  fui buscar café à máquina e quando voltei, já não tinha cinco anos; nunca mais caí desde esse dia, foi então que me estremeceram os joelhos. 

Honk-Logia II

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Não fossem as dores de cabeça fenomenais, não fosse um dia ela ter tentado comer a sopa com o lado errado da colher, e, se calhar ninguém teria descoberto que a minha mãe tinha um cancro no cérebro. Como era uma mulher de guerra, capaz de suportar as maiores sevícias com um espírito estóico digno de envergonhar Zenão de Cítio; aguentou-se quase até ao limite sem um queixume.
Neste caso não houve lembranças nem angústias do passado, também não houve fentanyl, nem nada. O diagnóstico foi quase coincidente com o atestado de óbito.
Uma tarde porém (estas coisas parece que acontecem sempre à tarde) lembro-me de estar à beira da cama dela, na nossa casa, num intervalo entre-dores, e ler-lhe nos olhos um profundo assombramento. É que ela já não me reconhecia. Eu então devia parecer-lhe um estranho qualquer que lhe entrara pelo quarto adentro, no meio da sesta. Já não era o filho que ela via, antes um adolescente qualquer, polvilhado de borbulhas; penugem bastante a despontar-lhe do lábio superior.
Neste caso não havia o sentimento de culpa, nem o remorso, nem aquela angústia materna de continuar a ver o filho a cair do primeiro andar (continuamente) aos cinco anos. Nem sequer havia a lembrança de vê-lo chegar a casa com um buraco abaixo do joelho devido a outra queda do primeiro andar, nem sequer a lembrança das rezas a São Judas, o das causas perdidas. Não havia sequer a clássica repreensão : Porra filho, quando é que vais parar de cair de primeiros andares. E eu não pude responder-lhe que nunca mais cairia de outro primeiro andar enquanto não fizesse os meus vinte anos. Não lhe disse nada porque ela continuava a olhar-me com aqueles olhos assustados de quem diz: quem é esta gente e o que é que eu faço aqui?
Ficámos assim uma tarde inteira, nem ela se importou, nem eu chorei. Foi então que à noite voltaram as dores de cabeça terríveis e tiveram que vir buscá-la pela última vez. O bombeiro, que a conhecia desde miúda, esse sim, chorou que se fartou. Acho que gostava dela.

A Sua Forma Mais Líquida

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"Tudo o que é sólido se dissolve no ar" - Karl Marx

Compra no supermercado uma garrafa de vinho e sai a passos lentos, arrastados. A princípio parece não saber o caminho, mas não está desorientado, é como se estivesse perdido. Vagueia pelas ruas como se evitasse ir para casa. A casa dum homem é a sua paz, é o sorriso de uma mulher na sua direcção, é o silêncio que se anseia. Por isso não tinha casa. Havia uma moradia, um apartamento até, com mobília e loiça e tudo mais, mas não era a sua casa. A sua casa desmoronara-se de um dia para o outro, como um castelo de areia que o mar leva. Que lugar tão comum! Os castelos de areia são feitos de propósito para serem levados pelo mar. É o nosso desejo secreto de destruição. A casa de um homem é o seu espírito, e ele já não o tem. Ergueu-se como Dédalo e estatelou-se como Ícaro.
Agora vejo-o ali parado em frente da passadeira sem a atravessar, o olhar cativo no intermitente das faixas brancas e negras. Os condutores é que não estão para filosofias, e já vociferam caralhadas no conforto dos seus bólides. É uma cidade agitada esta, as pessoas enervam-se muito junto às passadeiras.
Os outros transeuntes julgam-no doente mental. Há muitos doentes mentais nesta cidade. Agarram-no pela mão e tentam levá-lo a atravessar a estrada, eis então que acorda do estupor e pensa que lhe querem roubar o vinho. E nisto larga a fugir apavorado sem direcção que o valha; não tem casa mas tem vinho, e o vinho já se sabe, é o espírito na sua forma mais líquida.