O Homem Que Gostava de Ir às Putas

| sexta-feira, 26 de outubro de 2012 | 10 comentários |

Com as putas não havia necessidade de mentir. De parte a parte. Nem ele mentia às putas nem as putas lhe mentiam a ele. Estavam reunidas portanto, todas as condições necessárias para o início de uma relação sincera e duradoura.
A princípio foi a estranheza. A timidez perante a carne nua e despudorada, a mobília mapeada a tons de vermelho; as luzes em néon, a música quase tribal que lhe acompanha as batidas do coração, os espelhos sujos...
Depois foi o verbo: quero aquela! - Como quem está no talho e aponta para a vitrina:  Aquele belo naco por favor. E o pedaço de carne de pronto lhe é entregue: embrulhado em rendas finas de negro e vermelho, perfume barato salteado de  palavras gentis.
Ainda que o verbo inicial seja o motor de toda a acção, posteriormente, são as exclamações que tomam as rédeas do carburador: Oh!, Ah!, ou apenas (!!!) momentos singelos em que nada se diz e tudo se sente, à flor da pele (lá está o Chico outra vez); tempos interjectivos e puros, roubados aos deuses e tornados sublimes pelo homem. Uma dialéctica muscular que se resume em ir-vir e chegar.
Estão aqui envolvidas todas as ciências do mundo moderno. Primeiro a química, depois a física; a biologia aliada à psicologia, e por fim, como que a rematar o cortejo, ou às vezes encabeçá-lo, a economia: mãe/produto de todas as transacções -  Check please!

Apologia de Apolo

| sexta-feira, 19 de outubro de 2012 | 9 comentários |

Levanto-me da cama e digo adeus à sobriedade. Nunca mais voltarei a escrever sob este manto frio de lucidez que me estremece o espírito e acorda a meio da noite. Não quero! Recordar é não viver.
Apetece-me gritar como Pã no meio da floresta. Quero o caos. Quero correr ao lado dos cães e uivar como os porcos em noites de lua cheia. Não às histórias de encantar: quero-as gregas! Quero-as gregas com grandes titãs.
O lobo mau comeu o capuchinho vermelho e pediu para ser julgado em Portugal. Pronto, é mesmo assim: já não histórias felizes ainda que de vez em quando se encontre uma boa fada.
Os anões voltam aborrecidos da mina onde são explorados há décadas e, num acto de desespero, sodomizam a Branca de Neve à vez. 
Entretanto, noutra parte da floresta, aproveito que a Bela está adormecida e ponho-lhe o falo na boca. Ela acorda feliz mas o príncipe fica com um sabor estranho na boca.
A Cinderela de tanto trabalhar já tens os pés inchados, não há sapato que lhe sirva. Tem um ar velho e gasto.  Culpa dela, digo eu, queria sapatos tivesse casado com um sapateiro. É mesmo assim.
Quero o caos criador da natureza e de todos os deuses. Já chega de princesas de encantar, senhoras de grandes chiliques e pequenas idiossincrasias. Venham de lá essas afrodites poderosas, ciumentas mães de príapos gigantescos, gente real em vez de realeza e titãs, não esquecer, grandes titãs.   

A Minha Alegre Casinha

| sábado, 6 de outubro de 2012 | 16 comentários |

Uma língua desce serpenteante dos picos dos montes mamários até ao declive circular do umbigo, ou embigo, segundo o dicionário existem as duas entradas. Aqui também existem duas entradas, mas por ora debruçamos-nos apenas numa: aquela que primeiramente se situa a sul do equador. É certo que há que ultrapassar montes e vales nesta nossa aventura, mas é uma aventura prazerosa, e como dizia o camarada Cela, o caminho faz-se caminhando, ou neste caso, lambendo.
Descemos do tal umbigo, em ziguezague, como quem não sabe por onde ir, e abordamos a coxa da direita, naquele lugar côncavo mesmo antes de chegar à floresta, outrora apelidada de virgem. É todo um matagal que se tem que explorar: ou não, hoje em dia a pós-modernidade trouxe-nos o landscaping, algo que nos permite ver em pouco tempo toda a anatomia de uma paisagem palpitante. Então, fazem-nos lembrar que do lado esquerdo existe também toda uma estrutura óssea, carregada de carne e músculos e nervos, que exigem uma mesma atenção; é para lá que nos dirigimos, e pelo caminho sentimos o bafo a maresia que nos vem da fossa das marianas: um lugar profundo e misterioso, o mais profundo dos oceanos, segundo a wikipeida.
Não há tempo a perder entre a carne que estremece; lançamos-nos, qual ataque desesperado à cidade sitiada; de boca aberta, língua em riste. Os grandes lábios não oferecem resistência - a investida é digital. Há que estimular os aliados. Depois sim, subimos destemidos pelos montes cavados e sinuosos que circundam a glande daquele que é, escancarado, o Farol de Alexandria, o Monte Evereste, o Kilimanjaro dos manjares: Clítoris de seu nome, o que não pode ser pronunciado, quando se está de boca cheia pelo menos.
Depois é o que se sabe, beija-se, chupa-se, lambe-se, como não houvesse amanhã; como se não houvesse crise, nem troika, nem governo. Convulsões agigantam-se até sentirmos os rios da Babilónia a escorrerem-nos pelos cantos da boca ao mesmo tempo que calcanhares nos batem nos intervalos das costelas. É então que nos lembramos quase sempre de uma música libertadora no seu sotaque:
Não existe pecado do lado de baixo do equador, vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo o vapor... (Chico Buarque)

Olhos de Mula Cósmica

| sexta-feira, 5 de outubro de 2012 | 5 comentários |
- ...Foram aqueles olhos que deram cabo de mim.
- Como assim?
- Os olhos dela, pá, eram terríveis, não havia maneira de os contornar.
- Eram muito bonitos?
- Nem por isso, mas quando saíam à rua, metiam-se no meio da estrada e não deixavam passar ninguém.
- A sério, mas porquê, eram grandes?
- Eram grandes e escuros, como dois buracos negros, o tempo passava mais devagar quando estávamos ao pé deles.

- Tinham uma força gravitacional enorme, portanto.
- Pfff, nem queiras saber, pá, nem a luz conseguia escapar.
- Impressionante.
- Uma vez vi-a pôr-se no meio da pista do aeroporto a olhar para o céu …
- E...
- Os aviões desapareceram todos.
- Como assim???
- Há quem diga que viajaram no tempo e foram parar a uma outra época.
- Ou até a outra dimensão;
- Sim, também há essa possibilidade, o que eu sei é que as leis da física se desmancham todas quando ela se põe a olhar com aqueles olhos de mula.
- São uns olhos portadores de um certa estranheza quântica.
- Nem me digas pá. Uma vez ouvi um cientista explicar que os olhos dela quando explodissem iriam provocar uma onda de choque tão grande que poderia até ser a causa da criação de universos paralelos.
- Ah!
- A sério, universos onde tudo poderia ser igual ou diferente, as leis da física subverter-se-iam completamente e até a percepção do tempo poderia alterar-se.
- Deixar de experienciar o tempo como linear, era capaz de ser interessante, como se andássemos em círculos e o passado estivesse permanentemente ligado ao futuro sem que tivéssemos noção disso.
- Um pesadelo!
- Mais uma condenação. Estarmos sempre a repetir os mesmos erros, a voltar ao mesmo lugar, fazer tudo de novo, sem ser outra vez, porque seria sempre a mesma vez repetida.
- Nem me fales nisso.
- Humm,  gostava de os ter conhecido, esses olhos de que falas.
- Não digas isso nem a brincar pá, foram aqueles olhos que deram cabo de mim.
- Como assim?
- Os olhos dela, pá, eram terríveis, não havia maneira de os contornar.
- Eram muito bonitos?

- Nem por isso, mas quando saíam à rua, metiam-se no meio da estrada e não deixavam passar ninguém.

[...]

Eu, a Porta e o Resto

| quarta-feira, 3 de outubro de 2012 | 7 comentários |

Aconteceu tudo de uma forma muito rápida, como já é costume nas revoluções dos homens e nos terramotos. A água baixou de nível tão depressa que alguns peixes morreram sufocados no ar. O chão tremeu, as paredes tremeram e a chávena de café tremeu-me nas mãos. As pessoas correram desesperadas pelas ruas, não observando o velho adágio que diz que o melhor sítio para se estar numa ocasião destas é junto aos batentes das portas, mesmo que o prédio se desmorone por completo. Desmorone é um belo verbo para insultar turistas anglo-sáxónicos. Foi o que fiz: ao passar por mim um que ia a correr desarvorado, gritei-lhe:
- Corre sim bife antes que o prédio se desMóron.
O homem em pânico, desorientado da vida, respondeu-me com o indicador e o dedo médio esticados:
- fuck you!   
- Vai tu ó parvalhão – gritei-lhe em português – Havia de te cair um tsunami em cima desses cornos.
E digo isto e sinto-me mais aliviado. Não há nada melhor no meio duma catástrofe do que saber que há pessoas a sofrer mais do que nós; é uma doce sensação de conforto que nos aconchega no meio do caos. E no entanto sinto que tremo cada vez mais.
- Eh lá – penso eu - olha que isto já não é só do tremor de terra: há aqui também resquícios de ontem à noite. Uma noite longa e nebulosa, povoada de equívocos. Devia ter pedido um cheirinho no café; é um hábito ancestral  que uma pessoa tende a esquecer-se sempre que uma catástrofe natural nos entra assim pela vida, sem mais nem menos.
A páginas tantas, dou-me conta de uma inusitada mudança de paisagem. O cabrão do prédio acabou mesmo por ruir e só sobrei eu e a moldura da porta. Como numa máquina fotográfica olho através da porta e enquadro a desgraça: tudo são ruínas, destroços, tudo é disforme, não há ponta por onde se pegue e se diga: isto começou aqui e acabou ali. Nada! Não sobrou nada. Tudo tão de repente. E eu só consigo pensar:
- Ah foda-se, agora é que eu bebia um belo de um whisky.