um dia um homem cansa-se

| quinta-feira, 31 de maio de 2012 | 10 comentários |

Jogava sempre com duas chaves e os resultados saíam-me sempre ao lado. Eu explico, saía sempre o número ao lado daquele que eu escolhia. Cedo delineei um método infalível baseado nesta minha descoberta teórica da lateralidade: comecei então a jogar com três chaves. A primeira e original, a segunda só com os números ao lado da primeira e a terceira com os números ao lado da segunda. Não por sorte ou azar, por sarcasmo apenas, digo eu, começaram a sair os números ao lado dos números ao lado do números ao lado. Seria o destino a rir-se de mim?
Eu, um não crente da providencia, um apostador do caos, de imediato urdi um plano para fintar a aparente ironia poética desse tal destino parvalhão. Optei pelo cerco, a jogada mais paciente ainda que aparentemente desesperada: joguei com uma chave ao centro e as outras com os números todos à volta. O boletim era um massacre, havia cruzes por todo o lado. Nada! Gastei uma fortuna, duas até, e não me saiu nada. Cheguei a comparar-me com aquele homem da televisão que apostava sempre no vermelho e saía-lhe sempre o preto. Deixar de jogar era fácil, e talvez uma das melhores coisas que faria na vida, o meu médico havia de gostar, mas não me conformo. Estou obcecado, tem de haver uma saída, as combinações são incontáveis mas não são infinitas; é só apostar ao lado do lado do lado do lado do lado... A ansiedade só por si é o suficiente para me matar. Mas não pode ser, tenho que continuar, estou viciado. Sou um masoquista ao fim de contas. Um dia pode ser que me canse

O Pesadelo

| terça-feira, 29 de maio de 2012 | 6 comentários |

O senhor Onofre sonhou com o dr. Reis toda a noite; onde este o perseguia com os outros heterónimos e lhe gritava impropérios e o insultava furibundo. Uma descompostura nunca vista, uma humilhação ímpar. Que mal teria ele feito ao poeta, pois se mal se conheciam.
Abriu a janela do quarto e sentiu o ar de maresia encher-lhe a casa. Sentou-se à secretária antes da quebra do jejum e escreveu sem tino:

Vem deitar-te comigo Lídia, à beira mar.
Massaja-me as têmporas de ressaca que eu lambo-te as feridas abertas.
O mar molha, de cima abaixo o corpo já de si húmido, salgado.
Deixa o tempo passar Lídia, à beira mar, como se o tempo não passasse.
Só existe um tempo à beira mar, Lídia, Agora.
Vem deitar-te, Lídia, e esquece-te comigo
descomprometida da história, da vida e de tudo.

Não era uma homenagem ao poeta, nem sequer uma qualquer forma baixa de plágio. Era vingança apenas, da pura: não se persegue um homem assim; uma noite inteira, aos gritos.