Dedos que Procuram Aliviar Um Tal de Prurido Sub-Abdominal

| sábado, 31 de dezembro de 2011 | 7 comentários |














Um poema senhor,
pede o homem no lugar da esmola;
Um poema apenas, um verso só: livre como se fosse ruivo.
Das dores ninguém me cura e da morte ninguém me salva:

Um frase simples, um verbo...todas as palavras contam na vida, todas!
As demais magoam as costelas, por isso há que contá-las...como os tostões.

Há que contá-las e rimá-las e confundi-las e acasalá-las, como se de amorzinhos se tratassem.
Mas nada que rime com cordões...Nada!
Há o perigo de  induzir nas falanges mal intencionados, ruins, escabrosas, morgadas, adjectivas, veja só:
ligações metamórficas dessa bolsa testicular, proverbial e rugosa, conhecida por: 
- Escroto!


#271

| | 2 comentários |
Ao que parece, quando a senhora Parker levou o neto a visitar o museu de história natural de nova iorque, nunca lhe passou pela cabeça que o miúdo fosse picado por uma aranha radioactiva. Estremeceu a idosa senhora só de pensar nas consequências:
  • Ai mê deus – Disse ela como quem invoca...Deus. - E se o mê néte desata a amarinhar p'las paredes sem mai' nem ménes, feite parve, todo vestide de vermelhe e azúle como um maulquinhe qualquer saíde do asile? Cruz Créde, livrai-nes senhôr.
Todos os dias úteis, vigiou a senhora Parker o sacrossanto neto, filho do seu filho, neto do seu avô, primo do seu primo, irmão da sua irmã, amigo do seu amigo. Mas nada! As mutações a nível celular que a senhora Parker temia, resquícios da radiação aracnídea: o lançar das teias, o sexto sentido , o subir p'las paredes, a agilidade de portageiro; nenhuma se revelou visível em tempo útil.
A única coisa que o TAC confirmou foi um cancro nos pulmões. O que muito aliviou a senhora Parker: lá em casa ninguém fumava.


http://www.youtube.com/watch?v=y8AWFf7EAc4&ob=av2e

White Russians (agora aprendeu esta dos títulos em inglês, diz que é para agradar a troika)

| sexta-feira, 30 de dezembro de 2011 | 4 comentários |

A esperança é sempre a última a morrer, dizem eles. Ora eu, uma vez quando tinha para aí seis anos, ou sete vá, fui numa excursão a Sagres pela 125, não a azul, aquela da morte de que se fala tanto agora, e nisto o autocarro dá uma guinada forte para esquerda, seguido de uma para a direita, perde o controlo e capota por uma ribanceira abaixo. Só parou por que havia lá embaixo umas rochas enormes que lhe serviram de travão. A minha colega de turma, a Esperança, moça que eu gostava secretamente com afinco desde que tinha começado a gostar de pessoas, para aí aos cinco anos, foi a primeira a morrer. Eu sei porque os contei. Primeiro foi a Esperança, que foi cuspida pelo vidro da frente indo abrir o crânio de encontro a uma das rochas supracitadas. Depois foi o Gustavo que morreu esgasgado com o gelado que lhe entrou de supetão pela garganta adentro. A Adelaide, que era amiga da Esperança e tinha apostado que esta seria a última a morrer, também espatifou a fronte no granito. O Diogo e o Tiago morreram espezinhados quando toda a gente fugiu em debandada, e, como eram gémeos, quando um morreu o outro ressentiu-se morrendo também e vice-versa. Eu só não morri porque estava a dormir e, como cantou o bardo uma vez: you are innocent when you dream. Além de que a morte é uma coisa séria; diga-se de passagem que eu, com seis anos, não estava nada preparado para morrer, por isso acho que tomei a opção correcta.

Ao que parece tudo aconteceu porque uma abelha entrou pela janela do motorista - é motorista ou condutor? Uma abelha, dizia eu, entrou pela janela do chauffeur a zunir para a frente e para trás, tipo abelha Maia (lá está) mas sem a permanente, e o pobre homem, o desgraçado moço digo eu, olha-me para a abelha e pensa: abelhas-flores-rosas. E nisto desata a invocar anos de outrora em que ofereceu pelo aniversário um ramo de rosas, a uma tia sua, mulher do seu tio, ou seja, tia emprestada, mas que era muita mais nova que o tio, muito bonita a magana, que por coincidência era mais ou menos da sua idade, e que, também por coincidência era portadora de umas protuberâncias mamárias dignas de registo mental, ou até mesmo de registo físico, se é que existem actas para tal, e que ele sem querer, quando o tio não estava a ver, escorregou e acabou por fazer o amor com ela.

A imagem da tia, que o visitava todos os anos por alturas das festas, alterou-lhe a disposição de tal forma que, imaginem só, o sangue que normalmente irriga o cérebro e o coração e outras cenas do corpo humano, tipo, concentrou-se todo, feito parvo, no coitado do orgão do homem.

Ora, como todos sabemos, o efeito erectus involuntarius, é uma das principais causas de morte nas estradas deste país. Ainda o homem não tinha feito bem a ligação consciente entre a abelha e a tia mamalhuda, e já o orgão erecto estava a empecer com o volante da viatura, para a esquerda e para a direita, a torto e a direito, como se tivesse vida próprio, o bandido.

Os olhos da Esperança eram verdes; verdes de Esperança, brincávamos nós quando a descreviámos ao Arnaldo que era um amigo nosso daltónico que não foi na excursão porque tinha acordado de manhã com uma diarréia por mór de comer muitos chocolates na véspera.

Anos mais tarde tive contacto com um filme que abordava a história verídica de um escocês highlander, McClaúdio de seu nome, que, esse sim seria o último a morrer. Se a Esperança o tem conhecido a tempo, talvez nunca se lhe encasquetasse na cabeça que seria a última a ir. Hoje se calhar até podíamos estar casados há trinta anos, com pequenas esperançazinhas a correr pelo jardim, a puxar as orelhas ao labrador e a cantar o atirei o pau ao gato. E daí talvez não: se bem me lembro, ainda a Esperança não tinha arrefecido já eu estava vidrado nos olhos azuis da Helena, que por sinal tinha as partes todas do corpo, que como vim a descobrir mais tarde: estavam todas no sítio certo.


Para a Fábrica de Letras - Crise



Charles, You Naughty Boy!

| quinta-feira, 29 de dezembro de 2011 | 8 comentários |
Quando acordou já o natal tinha passado. Teria mesmo? Olhou ao relógio para confirmar: terça-feira, 11 da manhã. Uau, desta vez foi em forte. Começou a beber ainda não eram vésperas, e agora, tinham passado dois dias. Objectivo concluído, pensou, passar o natal sem dar por isso; de fininho, como quem não quer a coisa, assobiando se possível.

Tinha ouvido algures que os cocktails eram constituídos por, pelo menos 3 bebidas, e por isso decidiu fazer uma experiência: misturar vodka, com vodka e vodka. Bombástico sem dúvida. Perigoso? Talvez. Quando um homem se julga um avião e quer à força atirar-se de um primeiro andar como baptismo de voo, a palavra ‘perigoso’ é sempre amparada por ditados populares que garantem a indestrutibilidade do sujeito ébrio.

O natal tinha sido até então, sinónimo de angústia, hipocrisia, solidão e comércio. Naquela noite porém, havia magia no ar; magia natalícia talvez? Não! Ilusionismo etílico.

Sentiu-se um outro homem, um super-homem; ansiava pela salvação das pessoas, desejou ter uma capa vermelha. Embora as ruas estivessem desertas, silenciosas, escuras até, havia sempre um ou outro sem-abrigo com quem confraternizar. Estes sujeitos são meus irmãos de circunstância, reflectiu, e então partilhou a vodka, à volta da fogueira improvisada, num postal de natal urbano onde só faltavam a vaca, o burro e o menino.

Os sem-abrigo acolheram com carinho aquela alma, que tinha vestido umas cuecas vermelhas por cima das calças da ganga e que dizia ser do planeta Krypton. É muito simples, explicava-lhes, com os óculos sou o Clark Kent, sem os óculos sou o super-homem. Punha e tirava os óculos para exemplificar; os indigentes riam cada vez mais desbragados. A garrafa rodava de mão em mão no sentido dos ponteiros do relógio.

Agora está acordado na cama com uma ressaca de dois dias e uma música sentada no cérebro. Trauteou com voz de catarro e bafo-de-onça, you’re a bum, you’re a punk, you’re an old slut on junk, lying there almost dead on a drip in that bed. Que pena não estar em nova Iorque, a música faria bem mais sentido.

Quem serei eu no presépio, interrogou-se. A vaca, o burro ou o menino?

Mais um ano, novo outra vez, como todos os outros. Bah! Os melhores anos tinham sido aqueles de que não se lembrava. 2012! Nossa senhora, parece que este é que vai ser. O mundo a acabar e mais não sei o quê. A culpa é dos Maias: aquela história do Carlos ter andado a comer a irmã tinha que dar em merda.

http://www.youtube.com/watch?v=HwHyuraau4Q

A Conversão

| sexta-feira, 23 de dezembro de 2011 | 5 comentários |
A princípio pensou ter passado por cima de um anúncio da coca-cola. Só depois é que viu que tinha atropelado o pai natal. Saiu do carro, coçou a cabeça embaraçado: olha que chatice, não vem nada a jeito. As renas que sobreviveram levantaram voo a coxear, deixando para trás aquele som característico de guizos desafinados. O pai natal jazia inerte na berma da estrada. O fio de sangue que lhe escorria pela boca parecia querer juntar-se ao traço contínuo. 24 de dezembro à noite numa estrada deserta, as lojas todas fechadas; só existe uma solução possível, pensou Abrenúncio: enterrar o pai natal e rezar para que o menino jesus exista mesmo.
Chegou a casa com cara de caso a assobiar e a mulher pensou que estivesse bêbado. Ao longo da noite e sempre que alguem mencionava o velho lapão, Abrenúncio assobiava. Que grande camada, pensava a mulher.
No dia seguinte, de manhãzinha cedo, ainda envolto nos restos da teia onírica, Abrenúncio acordou sem ressaca, e, qual criança ansiosa correu para a sala. Lá estava ela, a árvore de natal com as luzinhas dos chineses a piscar, repleta de embrulhos pela base. Afinal era verdade, ele existia mesmo, louvado seja, balbuciou, numa conversão relâmpago. Pouco depois já os putos gritavam alegria e excitação ligados à playstation III. A mulher, com um sorriso que lhe ia de uma orelha à mesma, pois dava a volta à cara toda, babava-se em frente da bimby ao mesmo tempo que lhe tirava fotografias com o novo iphone4. Tu não és nada um bêbado, gritava ela para Abrenúncio, tu és é um amor, ouviste? Um AMOR!
Abrenúncio decidiu então com um assobio, que agora já se lhe tornara num tique nervoso, que aquilo devia ser um dos tais milgares de natal que tanto ouvira falar. Sentou-se à frente do computador e foi à página do menino jesus no facebook. Carregou no botão gosto, coisa a que o facebook retribuiu de imediato: gostas disto. É que gosto mesmo, sublinhou Abrenúncio em voz alta. ÉS UM AMOR! Gritou-lhe a mulher, da cozinha.

Pedro e o Lobo

| sexta-feira, 16 de dezembro de 2011 | 11 comentários |
Pedro era um rapaz bem apresentado e muito vistoso, pelo menos se levarmos em conta o ponto de vista das raparigas, que se enchiam de sorrisos e de chiliques cada vez que Pedro se acercava delas. Raparigas estas que Pedro, em guisa de retribuição, se esforçava por impressionar cada vez que desmontava da sua bicicleta branca de freestyle, que o pai lhe comprara. Ora, sendo Pedro um moço absolutamente banal, desinteressante mesmo, sem nenhuma qualidade extraordinária a que se lhe dissesse benza-o Deus, não restava muito com que impressionar as moçoilas. E assim, sem querer, ou talvez de propósito, Pedro, ao longos dos anos acabou por desenvolver uma tendência patológica para a mentira. Quando chegava ao pé da meninas com as calças cheias de pêlo, por ter estado a brincar com o caniche de estimação, Pedro metamorfoseava a narrativa de tal forma que aquilo que lhe acabava por sair da boca, para grande espanto e excitação das raparigas, era que tinha entrado em confronto directo com o Lobo. A escolha do Lobo aqui é evidente uma vez que Pedro conhecia bem a carga sexual que as histórias com lobos costumam acarretar, veja-se o caso do Capuchinho Vermelho que ia sendo comida por um.
Volta e meia chegava Pedro desarvorado no seu alvo rocinante, arfante, aos gritos: é o Lobo, é o Lobo!!! E logo as criaturinhas largavam todas num correria histérica de mãos no ar, soltando ais e uis demonstrando bem a vontade que tinham em não ser comidas (ainda).
Passado o susto inicial e certificando-se que não havia sinais de Lobo nas redondezas, voltavam pouco a pouco ao café central apenas para encontrar Pedro, de peito cheio, numa pose garbosa de matador, a sacudir o pó dos ombros. Depois começava o fogo de artifício mitómano. Pedro desfiava um chorrilho de patranhas, de como tinha feito frente ao Lobo e lhe tinha arrancado o pêlo e lhe tinha dado uma coça que ele nunca mais se esqueceria e por aí fora, e entretanto as miudinhas suspiravam e mordiam os lencinhos, e uma sensação agradável descia-lhes ao baixo ventre e tremiam-lhes as pernas. Pedro era um héroi...E tão bonito.
Ora, o problema das cidades pequenas é que toda a gente sabe tudo de todos, e a história acabou por chegar inevitavelmente aos ouvidos do Lobo. Este cofiou a barba, num gesto de quem acaba de ouvir uma história interessante, verbalizando-o até: Hummm, que interessante!
Numa noite de sexta-feira em que Pedro se dirigia à baixa, todo preparado para se autopromover à conta do Lobo, deu de caras com o próprio numa travessa escura e pouco frequentada.
O Lobo, que era de poucas palavras, sendo o animal de acção que todos conhecemos, logo ali o sodomizou à bruta. Depois acendeu um cigarro com o ar mais cool alguma vez visto numa história infantil. Agora já tens uma história para contar, disse o Lobo com desprezo, e nisto virou-lhe as costas e foi-se embora, não sem antes soltar dois uivos prolongados à lua.
No chão ficou Pedro lavado em lágrimas, chorando copiosamente baba e ranho.
O que mais custava a Pedro não era o tremendo ardor que sentia subir-lhe pelo ânus; nem sequer por não se conseguir sentar ou andar a direito, a dor de Pedro tinha outras origens: sobrevinha de lhe ter caído a máscara. Agora já não se podia mais esconder, o Lobo sabia quem ele era.

Ali Vai o Homem

| quarta-feira, 7 de dezembro de 2011 | 10 comentários |
Hermenegildo, o homem, depois de um apurado estudo sobre a sua condição socio-económica, depois de um extensivo corte nas gorduras quotidianas, de um apertar de cinto radical nos vícios, de um auto-controlo espartano na alimentação, Hermenegildo, o homem, criativo que era, sonhador de nascença, decidiu dar um passo mais à frente na corrida contra a dívida, que o senhor primeiro ministro dizia ser de todos, ainda que ele não devesse nada a ninguém.
Hermenegildo, o homem, naquela manhã de nevoeiro, tomou a decisão de poupar no oxigénio. Dali em diante não respiraria mais às terças e quintas. Dois dias por semana: um pequeno esforço para o indivíduo, mas um salto gigantesco para a Nação. Hermenegildo, o homem, seria o novo farol de Alexandria da poupança nacional e quiçá do mundo, um exemplo a seguir, uma história para se contar às criancinhas na escola primária em dias de chuva. Ali vai Hermenegildo, diriam as pessoas, o homem que deixou de respirar para ajudar o país, e aplaudiriam, e Hermenegildo, modesto que era na sua criatividade e engenho, acenaria um tanto ou quanto incomodado com a distinção.
Na manhã seguinte à manhã de nevoeiro em que tomou a decisão, era uma terça-feira e também estava nevoeiro. Hermenegildo levantou-se, tomou o café sem açucar, sentou-se na cozinha e deixou de respirar.
O sucesso foi imediato e superou todas as expectativas, um dia apenas e nunca mais Hermenegildo teve que repetir o sacrifício.