#259

| quarta-feira, 21 de setembro de 2011 | 14 comentários |
Na cidade pequena confunde-se a grandeza com prédios altos. Descaracterizada, a cidade cresce para cima. As pessoas pequenas da cidade pequena sobem ao topo dos prédios altos e julgam-se grandes; olham para baixo e para a frente, abarcam o horizonte com gestos largos e dizem: - tudo isto é meu!
As pessoas pequenas da cidade gostam de usar frases grandes para dizer pouca coisa; na sua avaliação constante da grandeza julgam-na intimamente ligada ao comprimento da gramática. É tudo uma questão de métrica dizem uns, ou mesmo quilométrica apressam-se a afirmar outros. O progresso na cidade pequena faz-se na periferia em abandono do centro. As pessoas pequenas têm horror ao centro onde toda a gente anda a pé. Andar a pé não é progressivo, dizem gramaticalmente quilométricas: - Como pode ser isso então? Se assim fosse Deus nunca teria criado os automóveis. Antigamente no centro, as casas eram pequenas e singelas e nisso residia toda a sua grandeza; depois vieram as pessoas pequenas e elevaram construções grandes para poderem lá do alto ver melhor as luzes da periferia. A periferia, que é onde está o progresso assemelha-se a uma feira. Para as pessoas pequenas o progresso, as luzes brilhantes e a algazarra andam de mãos dadas com progresso. Se Deus não quisesse ruído não tinha inventado as buzinas – dizem eles- e buzinam noite fora, cheios de progresso e grandeza.
Outro sinal de indefectível grandeza das pessoas pequenas, são as estradas. As estradas são a seiva que corre nas veias das pessoas da cidade pequena. É na estrada que comem bebem e convivem. É na estrada que riem e choram. O indivíduo pequeno na cidade pequena só se sente definitivamente grande quando está junto a uma estrada ou em cima dela, e, como se sentia incompleto por nunca ter estado debaixo de uma, foi alcatroado o cemitério.
As pessoas pequenas da cidade pequena, sentem-se orgulhosas da sua obra e dizem: somos uma cidade grande – somos uma grande cidade. Dizem isto porque não compreendem o conceito de relatividade.

...A Sul

| segunda-feira, 19 de setembro de 2011 | 14 comentários |
…Tenho saudades da chuva. De andar de botas de água a chapinhar nas poças, admirar os girinos e apanhar agúidas. De patinar na lama e ver os outros atascados como se afundassem em areias movediças. Uma vez um amigo meu, cujo nome já não me lembro, num desses concursos de atolance, ficou de tal forma atolado que quando o puxámos, as botas ficaram lá, e ele teve que ir em meias para casa e da rua ouviram-se os gritos da sua mãe.
Mas aqui já não chove e agora já não há terra para fazer lama para os miúdos se poderem atolar. Há no entanto, muitos prédios que fazem sombra e carros que passam muito depressa, e jardins que nunca o foram senão em projecto, por isso os miúdos, podem não brincar na lama nem apanhar agúidas, mas podem engordar à sombra ou ser atropelados, o que é muito mais excitante.
Tenho saudades do frio. De dormir aconchegado por debaixo de mantas e edredons. Lembro-me de ir para a escola, a bater o queixo, com a roupa vestida por cima do pijama, de usar cachecol, luvas e gorro, acessórios que hoje me parecem um tanto estranhos quando me falam deles. Hoje durmo nu, o que também é divertido, mas há um tempo para tudo na vida de um indivíduo. O bafo quente que sopra do Sahara avança de dia para dia, como uma maré silenciosa de areia e mistério. Os meus olhos mudam de cor; do azul do mar para o castanho das dunas. As dunas são vagas que avançam silenciosas, áridas, desérticas, altas como tsunamis.
Na televisão, de vez em quando, falam do sul; o sul isto, o sul aquilo…Mas o sul onde eu vivo é outro: é um sul que fica a sul do sul. Para lá disto não existe mais nada, só o deserto, que é o norte de coisa nenhuma.
Queixo-me de barriga cheia. Sou um ingrato. Dormir nu não é mau. Costumo acordar e espreguiçar-me longamente na varanda aproveitando o fresquinho da manhã. Os meus vizinhos é que não gostam nada, ficam logo mal dispostos.

O Mar Cruel, O Mar Cruel...

| segunda-feira, 5 de setembro de 2011 | 10 comentários |
- O que fazer quando não temos um livro para ler?
- Podes sempre escrever um.
- É uma ideia mas não saberia por onde começar.
- Começa pelo princípio, é sempre um bom começo.
- No princípio era o verbo, depois apareceram os surfistas. Eram dois. Dois mais a assistente da praxe a acompanhar. Podia ser irmã, namorada, prima, escolhe tu, o parentesco não interessa aqui. É engraçado como o idílio da maioria das pessoas reside na proverbial praia deserta, com os coqueiros a abanar ao vento e o mar azul, mas se reparares bem, as pessoas na praia gostam é de estar amontoadas em grupos enormes muito colados uns aos outros; mesmo que exista ali ao lado um areal imenso para desbravar,  vão colocar a sombrinha onde estiver mais gente…
- Não respeitam a distância higiénica.
- Exacto, nem a física, nem a mental. Dizia eu que os surfistas eram dois, mais a rapariga para impressionar claro está. O mar? Estava raso. Raso digo-te eu. Parecia um tapete azul muito esticado, sem um vinco, sem uma ruga que fosse. No entanto os moços vestiram os fatos de pinguim e fizeram-se ao mar na mesma. A miúda despediu-se deles emocionada, de lágrima fácil no canto do olho, como que antecipando uma viuvez anunciada; porque isto de um homem ir para o mar já se sabe…
E eles lá foram, com a água pelos joelhos; rasinha, flat como eles dizem, porque um homem nunca não desiste, não é?
Montaram-se nas tábuas, com o elástico preso ao artelho, e ali ficaram, a mirar o horizonte. Passado um bocado remaram para a esquerda e quedaram-se a olhar para o horizonte mais um bocadinho. Depois remaram para a direita e lá estava o horizonte no mesmo sítio, e eles olharam para ele.
A rapariga também fitava o horizonte, ansiosa; quando voltariam os seus homens? E chegariam salvos? De fundo ouvia-se, não sei vinda de onde, a Canção do Mar, versão Dulce Pontes, como se fosse o vento a assobiar.
A páginas tantas, os moços saltaram das tábuas e, com a água pelos joelhos, assim como entraram, saíram do mar. Estavam estafados, moídos, que isto de olhar o horizonte também cansa, porra.
A moça, qual Penélope, ao ver chegar não um Ulisses mas dois, não se conteve mais, ajoelhou-se a beijar a areia e agradeceu a Deus e à Nossa Senhora dos Navegantes e a Poseidon e a Neptuno, que se não me engano são a mesma pessoa.
Eles, finalmente em terra firme, espetaram as tábuas na areia, abancaram de encontro às dunas e comeram croissaints. Estranhamente pareceram-me mais loiros do que quando chegaram.
- Então, o que é que achas?
- A próxima vez que fores para a praia não te esqueças do livro em casa.

#256

| sexta-feira, 2 de setembro de 2011 | 6 comentários |
Gervásio, o Cruel, mastigava furioso um naco de carne em sangue, o maior da travessa, porque era o chefe. Levava a comida à boca com as mãos e limpava-se com as costas das mesmas, por isso a gordura espalhava-se-lhe pela barba comprida e escorria-lhe dos pulsos. Gervásio, o cruel, era o chefe, o líder da tribo, e, por isso tudo lhe era permitido, desde o comer com as mãos ao soltar flatulências sonoras em pleno banquete. Quando isso acontecia, os convivas quedavam-se num silêncio completo, atemorizados só de pensar na ira anunciada de Gervásio, o cruel. Este no entanto começava por exibir um sorrisinho cínico que nascia no canto direito da bocarra e alastrava-se como um tremor de terra por toda a cara até se transformar numa ribombante gargalhada. Os bobos e outros saltimbancos, mais atentos às luas do líder, largavam aos saltos e pinotes cantando em falsete e batendo em latas. Era o sinal de que tudo estava bem, que a situação não era incómoda nem de terror, antes de alegria e celebração, então toda a corte largava numa saudável salva de palmas, o que muito agradava a Gervásio, o Cruel. A interpretação dos arlequins podia salvar vidas, ou acabar com elas. Um sorriso mal colocado, ou a falta dele logo a seguir a uma anedota sem piada do líder podia ser o suficiente para um indivíduo se auto-sentenciar à morte.
Gervásio, o Cruel, não era o mais forte, nem o mais inteligente, nem sequer o mais hábil membro da tribo, era sim o mais Cruel, e por isso se tornara chefe, e por isso era temido.
Um dia, um caixeiro-viajante de outro reino, ao jantar na corte com Gervásio, o Cruel, reparou que este comia com as mãos. Então lembrou-se como gesto de cortesia e de apreço pelo anfitrião oferecer-lhe um conjunto de talheres de prata.
- Para que serve isto? – Inquiriu curioso Gervásio, o Cruel.
- É para comer majestade! – E como se o outro apresentasse um ar de ignorância bovina, apressou-se a demonstrar-lhe com a faca e o garfo cortando-lhe um perfeito filete de lombo assado.
Gervásio, o Cruel, segurou o garfo com espanto, passou-o de uma mão para a outra, observou-o atentamente, e, com um gesto relâmpago espetou o utensílio no olho direito do viajante. Acto contínuo arrancou-lho da órbita e meteu-o na boca. Na sala era o vácuo, os saltimbancos há muito que se haviam escondido debaixo da mesa.  Depois de mastigar vagarosamente, Gervásio, o Cruel sentenciou:
- O olho é bom! – E nisto peidou-se ruidosamente. Os bobos largaram de imediato aos saltos e aos gritos na barulheira habitual e toda a gente na corte fez o que habitualmente fazia quando o líder se peidava, bateu palmas.