O Cansaço

| quinta-feira, 24 de março de 2011 | 10 comentários |
 Foi desde muito cedo que começou a sentir-se cansado. Um cansaço existencial, que carregava na alma como um fardo, como uma mula de carga. Chegou a questionar-se se não teria já nascido cansado e, toda a sua vida não fosse apenas um consciencializar-se desse facto: um recordar do peso que lhe tinha sido imputado à nascença, como se tivesse nascido já velho; de cansaço, não como o outro do filme. Os budistas acreditam que carregamos no presente o peso cósmico de outras vidas passadas, mas ele não era budista.
O peso do cansaço que trazia na alma reflectia-se-lhe no corpo e toda a sua imagem era uma anúncio ao desalento. Passava na rua com os ombros descaídos, a cabeça baixa fixando a calçada, como se tivesse recebido uma má notícia ou alguém lhe tivesse batido. Quem o via podia sempre dizer: Olha! Ali vai um homem cansado.
Não raras vezes pensou numa forma eficaz de se matar. No entanto, tudo lhe pareceu complicado e doloroso; eram tantos os preparativos e os trâmites a cumprir que, de tão minuciosos lhe tiravam a vontade e cansavam-no ainda mais; por isso sempre que pensava na morte acabava sentado. Foi num desses dias que reparou em algo curioso. Um ambiente pesado gerara-se à sua volta sem que tivesse dado por isso. Havia uma atitude cinzenta nas pessoas que se cruzavam com ele; um mau estar,uma azia, um desgosto; uma cinzentitude que ele conhecia bem e que se podia traduzir numa única palavra: cansaço! Levantou-se e sem saber porquê desenhou um pequeno sorriso de felicidade; começou a andar e seguiu o mesmo caminho de todos os dias, desta vez porém não se sentiu sozinho.

12 de Março

| segunda-feira, 14 de março de 2011 | 11 comentários |
Às 15h30 a confusão já é grande, o que sempre acontece quando se agregam tantas pessoas num espaço tão exíguo; as sub-reptícias cotoveladas são inevitáveis. Há um nervosismo miudinho que ameaça tornar-se adulto num curtíssimo espaço de tempo. Começam os desabafos, soltos como quem não quer a coisa, mas em voz alta, para que sejam perfeitamente ouvidos «o estado a que isto chegou» ou «isto é uma vergonha».
Embora lá fora o sol expluda em todo o seu esplendor, saudando um dia primaveril antecipado, na sala de espera a luz amarelada projecta sombras castanhas nas cinzentas pessoas que aguardam. Quem espera também é paciente.
Numa parede desfazem-se mitos e dúvidas sobre as doenças crónicas. Ao alto, duas placas em azul e branco indexam os variados serviços: da cardiologia à obstetrícia, passando pela nefrologia até à pneumologia. Sob a autoridade tácita das placas, a multidão (des)organiza-se em duas filas onde se empurram e afastam como numa pequena batalha campal. São quase quatro horas, a impaciência cresce com o aproximar da hora da visita; uma mulher baixinha, mais afoita, corta a fila e decidida dirige-se à porta de acesso; é barrada pelo segurança ao mesmo tempo que um clamor de protestos se levanta «Ó minha senhora, onde é que pensa que vai?» grita uma mulher do meio da fila. «Tem que esperar como toda a gente, minha senhora, aqui não há cunhas» grita outra quando os empurrões começam como forma de protesto. Vista de fora a multidão faz lembrar os ajuntamentos à porta duma qualquer livraria em dia de lançamento do último Harry Potter, ou o Harrods em dia de saldos, ou qualquer loja americana durante a Black Friday.
Um homem enraivecido, visivelmente  magoado no seu sentido de dever cívico, rasga o cartão de dador de sangue quando se apercebe que não tem livre circulação e que tem de aguardar na fila como toda a gente. Desfaz o cartão em mil pedaços em frente das auxiliares lívidas e grita para toda a sala que neste momento é a sua audiência, «Vaiem vocês dar sangue que a mim já não me apanham mais» e depois acrescenta, a confirmar o que todos os outros já tinham concluído «isto é uma vergonha!»
16h00: A multidão ansiosa avança desarvorada pela escadaria acima. O rosto dos visitantes denuncia o estado dos visitados. A euforia bem disposta dos que visitam um recém-nascido ombreia com a desolação velada de quem procura o doente terminal. Para os que esperam lá dentro, a hora das visitas é sagrada,  como a manhã de natal.
Lá fora, a multidão em protesto desce a avenida de volta ao Largo de S.Francisco. A Luta Continua.