#243

| segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011 | 21 comentários |


Perguntaram a Romualdo se era capaz de escrever uma estória só com uma linha. Ele disse que sim.


A Desilusão

| terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 | 19 comentários |
Zubaida decidiu divorciar-se no dia em que se convenceu que o marido, Labregoísio, era homossexual. Foi uma ideia que se lhe escarrapachou na mente, e por muito que as suas amigas e os amigos do marido dissessem o contrário, nada a demovia. O seu homem era gay e acabou-se.
Já há tempos que ela vinha sentido uma certa apatia da parte de Labregoísio pela sua pessoa. O ar de enfado com que ele se punha quando ela se apresentava de negligé, o desinteresse total pelas suas coxas roliças, não enganava: tinha um homem-sexual em casa.
O raio do homem, só pensa em jogar playstation com os amigos – reclamava Zubaida a quem a quisesse ouvir, ou seja, quase ninguém.
Labregoísio confrontado com as acusações que punham em causa a sua macheza latina, limitou-se a responder com a bonomia e indolência característica dos maconheiros:
- Oh mulher, tu ‘tás doida.
Mas Zubaida não ia em conversas, e sabia muito bem quando o marido estava a esconder algo, ou não estivessem juntos há mais de 6 meses. Um dia, depois de ler o correio sentimental da revista Maria, as suas fervorosas suspeitas, que já de si cresciam exponencialmente, depressa se tornaram em certezas absolutas, que por sua vez escalaram o monte Everest do preconceito. Saiu alvoroçada do trabalho e seguiu decidida para casa. Pelo caminho treinou cuidadosamente o que diria a Labregoísio, de forma a que este percebesse e não houvesse margem para mais desentendidos. Rejeitou mentalmente várias abordagens até ter chegado àquela que lhe pareceu ser a fórmula perfeita:
- Homem! Tu és guei e eu quero um divórcio.
Chegou a casa e dirigiu-se ao quarto «ainda deve estar a dormir, o calão». Abriu a porta de rompante e deparou-se com um quadro que não correspondia bem ao que ela tinha imaginado. Labregoísio praticava selvaticamente o sexo com a vizinha do 3º andar que era uma moça jeitosa, estudante de Biologia Marinha. Zubaida, desiludida, não com a cena em si, mas por não poder jogar-lhe à cara a tirada que tanto trabalho lhe dera a compor, exclamou em forma de desabafo:
- Ai homem, homem! As coisas que tu fazes só para me contrariar.

25 Por Segundo

| sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011 | 16 comentários |
Frame by frame (Suddenly)
Death by drowning (from within)
In your, in your analysis

King Crimson

Abrenúncio olha para os dias que passam como quem olha para um filme. Sentado em silêncio. Desejando que os dias passem céleres, anseia ao mesmo tempo que não acabem tão cedo. Um paradoxo temporal portanto. E assim se sente; angustiado e ansioso. Padece de um mal peculiar; a avidez pelas coisas que passam depressa demais, antes mesmo de chegarem a acontecer. Abrenúncio observa a vida como uma passagem acelerada de imagens em câmara lenta.
E no entanto, entre um café e outro meio whisky, contempla admirado a exaltação das pequenas coisas. Das miudezas, das frases curtas, das abreviaturas, dos acrónimos. Não existe poesia nenhuma no tédio e a vida passa, agora, tão rapidamente, mesmo quando em câmara lenta. Já não há tempo para mais de duas linhas  de conversa, e para os parágrafos então – meu deus- não há paciência.
É toda uma arte – pensa Abrenúncio – quase uma religião. Uma nova forma de comunicação; onde não se diz nada, afirma-se tudo, e evita-se de livre vontade essa necessidade incómoda que é pensar.

São Pipocas ao Almoço...

| quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011 | 27 comentários |
         Depois de ler o Blog-do-Otário

Tudo o que ele queria era fazer pipocas no microondas. Nada de especial. Sentar-se, relaxar e comer pipocas. O contacto com os outros humanos tornara-se doloroso em demasia. Algo que, a pouco e pouco ganhara contornos de função; melhor, de obrigação.
A tirania da normalidade no decorrer dos anos obrigara-o a uma congregação de costumes e decências que ele abominava.
Detestava a mentalidade de rebanho, aquela que rapidamente se transforma em mentalidade de matilha, e se volta contra nós, se não seguimos a direcção do pastor. E isso era uma das coisas que o empurravam para a solidão; o não ser como os outros, o não gostar, nem de fazer, nem de falar como os outros; não por espírito de contradição, apenas por não lhes reconhecer nenhuma originalidade. A falta de originalidade, lá está, era para ele, o oitavo pecado original, o mandamento que faltava nas tábuas da lei: Não serás trivial!
O que a sociedade entendia por filtros; entendia-os ele como grilhetas. Sentia-se um prisioneiro dos pensamentos e opiniões, um agente da pide de si mesmo. Patrulhava o cérebro de um hemisfério ao outro, escolhia cuidadosamente as palavras e adoptava o ar mais polido antes de afirmar isto ou aquilo. No fim acabava sempre por anuir nas maiores atrocidades só para agradar a este e aquele.
No fim da primeira guerra mundial, contavam-se entre os loucos, uma minoria de homenzinhos vestidos de camisa e calções castanhos, que patrulhavam as ruas insultando e lançando o seu ódio aos sete ventos. Eram os pobres coitados da altura; os tristes; os delirantes, como podia haver quem os aturasse? Durante a segunda guerra mundial, era louco quem não seguisse os homenzinhos de camisa e calções castanhos,  com o seu líder enfezado, de bigode à Charlot, que insultava e lançava o seu ódio ao mundo, como podia haver quem não os amasse? Era tudo muito normal; e as pessoas sentiam-se confortáveis nessa normalidade, porque eram muitas, e já se sabe que muitas pessoas não podem estar erradas. A multidão é um organismo vivo acéfalo. Uma máquina de triturar individualidades afoitas; o maior crime é o de não estar inserido no circulo das conveniências, daquilo que deve de ser, da decência, da normalidade, da superioridade moral. Um dia crucificamos um homem porque o achamos louco; no dia seguinte queimamos os adversários da ideologia do homem crucificado.
Por isso um dia o homem não pensou mais no seu futuro. Aprendeu a fazer uma coisa que segundo o Günter Grass, os portugueses não sabem fazer: dizer não. A partir daí todos os seus impulsos, ou a falta deles, se libertaram e foi como se lhe tirassem o maior peso de cima. Dizer não pode ser das coisas mais libertadoras que um homem pode fazer. Diz a sogra: então, não quer vir jantar cá a casa? Não! - responde o homem – e com uma satisfação estampada na alma, senta-se de cerveja na mão a ver o futebol.
E foi isso que o homem fez desde então. Nunca mais jantou com a sogra. Nunca mais trabalhou como um louco, como um condenado, insaciável, para arranjar dinheiro, muito dinheiro, para comprar coisas, muitas coisas, para ter muitas coisas para mostrar. Um homem tem que ter coisas para mostrar senão não é um homem decente: quem é aquele? Não tem nada? Então é um ninguém. Não pode ser, não podemos ser ninguém, temos que ser alguém, para podermos mostrar que somos alguém; mostrar a quem? Aos outros. É muito importante que os outros saibam.
O homem levantou-se, ignorou os outros, foi à cozinha e pôs as pipocas no microondas. E esse foi um dos maiores prazeres que teve na vida, e por isso o chamaram louco.

Para a Fábrica de Letras - Loucura