O Ataque

| segunda-feira, 24 de janeiro de 2011 | 12 comentários |
Abrenúncio admirou-se quando Romualdo não compareceu na escola primária à hora marcada. Sempre fora um indivíduo pontual e não gostava de esperar nem de se fazer esperado. Era um anti-Sebastianista nato. Passada uma boa meia hora ao frio e à chuva miudinha, que diz-se só molhar os parvos, Abrenúncio cansou-se e entrou para votar.
O acto em si, não tinha nada de especial. Uma cruz dentro de um quadrado e já está. Todo o peso do futuro da nação resolvido em menos de um minuto. O curioso era toda a multiplicidade de comportamentos que se acotovelavam no pequeno hall de entrada.
Romualdo havia de gostar disto, pensava Abrenúncio ao reparar nas senhoras com as suas roupas mais domingueiras, algumas muito pintadas, demonstrando um porte altivo, quase superior. Outras havia, que demonstravam claramente o corriqueiro que havia naquele gesto, apresentando-se quase de pijama. Também havia os que nunca sabiam qual era a sua mesa, os eternos perdidos, e ainda os que se posicionavam como se fossem as estrelas principais do acontecimento. Eram estes que irritavam Abrenuncio e enfureciam Romualdo: os chico-espertos. Há sempre um em qualquer ajuntamento. O que calhou a Abrenúncio naquela tarde, não se cansava de exibir ao seu vizinho de fila, a caneta com que ia votar. Como se fosse uma espécie de Excalibur a que só ele tivesse acesso. Depois desatou a papaguear uma qualquer conversa de comentador político e anunciou em voz alta, mais que uma vez, a sua intenção de voto. Era preciso que toda a gente soubesse. Volta e meia atendia o telemóvel e falava para toda a escola ouvir, como já  era de esperar. Esta fauna…Não é muito diferente de uma ida ao Jardim Zoológico.
No regresso, perto de casa, parou num café para beber a proverbial bica do dia de eleições. O sítio estava apinhado; o café é o fórum do povo – reflectiu.
-A abstenção é que é uma merda – dizia alguém numa mesa perto do balcão.
-Pois – retorquia outro – É por isso que eu não sou abstémio. Risos
Encostou-se ao balcão numa ponta de onde podia observar todo o estabelecimento. Era um hábito seu, beber café e observar. Em pé junto ao balcão tinha uma vista privilegiada das gentes. O balcão era o seu púlpito, os clientes, o seu eleitorado. O povo não vota porque está farto de ser enganado. Cada ida à urna é como se lhe fizessem uma colonoscopia; ou talvez não, talvez seja apenas preguiça e apatia.
Estava nesta doce letargia a sorver demoradamente o café quando é sacudido violentamente por Labregoísio:
- Atão pá, já sabes o que aconteceu ao Romualdo?
- Não, ele não apareceu para votar.
- Pois pá, foi atacado por um Lyonce.
- A sério???
- Diz que sim, diz que foi horrível.
Os ataques de Lyonce tinham vindo a subir muito nos últimos anos, especialmente entre as camadas mais jovens. Era um flagelo aparentemente imparável, nenhuma das acções de prevenção até à data tinham surtido algum efeito. As vítimas caracterizavam-se por entrarem num estado de embrutecimento aterrador; fixavam catatónicas o aparelho de televisão e apresentavam uma lassidão generalizada, que se traduzia numa apatia aguda face a estímulos exteriores. Era uma visão realmente aterradora.
Coitado do Romualdo,...um moço tão novo.

O Toque Rectal

| segunda-feira, 17 de janeiro de 2011 | 21 comentários |
Uma nova estética. Uma nova mentalidade. Algo que não se venda, algo que não se compre. Algo parido numa explosão que nunca se apaga. Algo efémero como a eternidade. Algo que ofusque mas não cegue, algo que nos encante e nos embale; uma ternura, uma partilha na multidão. Um braço levantado no ar, uma música, um quadro.
Algo que seja de todos e não seja de ninguém; algo de que nos possamos orgulhar.
Um dia todos os políticos serão substituídos por músicos de rock'n'roll, e todos os comícios por concertos e todos os votos por aplausos. Alguém precisa de ser governado e humilhado por quem o governa? Alguém elegeu alguém para se ver privado do essencial da vida? Os eleitos não são nossos funcionários? Que parvoíce é esta de mercados para aqui e para ali? Os mercados estão chateados, os mercados estão desconfiados, os mercados estão mal dispostos, não faças barulho que acordas os mercados: mas que merda é esta? E que tal um dedo no cu dos mercados? E que tal um dedo no cu do engenheiro parvalhão; e no cu do presidente com ar de mongolóide; e no cu dos candidatos que salivam com a hipótese de ocuparem o mais alto cargo da pirâmide dos chulos. E porque que se há de resumir tudo a pirâmides? Somos egípcios ou quê? O que é feito das planícies alentejanas e dos espaços abertos? E esta inércia, meu deus! De onde saiu esta pasmaceira, este cair de braços, este bocejar de tédio, este enfado? O único milagre que verdadeiramente se deu,  neste pedaço de terreno abençoado pelo demónio e desprezado por deus, foi o temo-lo arrancado à estalada aos nuestros hermanos. Não se compreende portanto este amochar: de pé ó vítimas da inércia!
Há um ovelhar geral que paira sobre as nossas convicções, sobre as nossas atitudes, sobre a falta delas. Há uma auto-mutilação intelectual que se pratica entre as hostes; uma pletora de mesquinhez, uma mediocridade constitucional, uma diarreia cívica. Nunca mais voltaremos a ser marinheiros: uma nau não se governa de cu para o ar. Nunca mais voltaremos a ser poetas: um poema não se escreve com os pés. Urge acordar. Urge criar uma nova estética, uma nova mentalidade...

O Buraco Negro

| sábado, 15 de janeiro de 2011 | 7 comentários |
A minha cidade é como um buraco negro. Será a minha cidade um buraco negro? Vários estudos científicos apontam para tal eventualidade. Nada escapa à força gravitacional que é a parvoíce na minha cidade. Nada. Nem a luz dos olhos dos cidadãos, que por isso, deixam de ver. O próprio tempo retarda junto de um buraco negro, o que justifica o facto de as pessoas na minha cidade serem um pouco retardadas.
Das forças que se esmagam sobre si próprias e se comprimem no núcleo da minha cidade feita buraco, nasce um nova intelligentsia, cujo espectro se traduz numa variada gama de estupidez. Uma espécie de radiação maligna que corrompe e destrói toda energia artística e beleza natural que por ela circunde. Não há fuga possível ao poder da sua ignomínia. Daí a escuridão. Daí o buraco.
Os cientistas contam-me que certos buracos negros, foram em tempos, estrelas. Hummm! Suspeito que a minha cidade nunca tenha sido estrela: buraco sim, negro também, mas estrela, não.
Agora que penso nisso, vem-me à lembrança um buraco negro que em tudo se assemelha à minha cidade. É um buraco escuro, malcheiroso e parece que também é cego.

#237

| terça-feira, 4 de janeiro de 2011 | 25 comentários |
- Há uma coisa que me aborrece.
- O que é?
- Os bombeiros.
- Porquê?
- São bonzinhos demais...apagam os fogos e mais não sei quê mas...
- Mas?
- Bebem leite sem chocolate.
- E vai daí não gostas deles?
- Irrita-me aquela história deles serem soldados da paz, como é que é possível, um antagonismo destes?
- Bom... Parece-me que eles se denominam soldados porque funcionam na mesma lógica de comando e hierarquia que os militares.
- Exacto: acho mal.
- Como assim?
- Acho que não deviam de haver hierarquias nenhumas: cada um apagava o fogo como lhe apetecesse e prontes.
- Isso era a anarquia não achas?
- E tu achas que é preciso uma democracia para mandar baldes de água para cima dum incêndio qualquer? Não te parece que o sistema actual é igualmente desorganizado?
- Bom...Sim... Talvez...
- Em todo caso o que me irrita mesmo são as filarmónicas.
- O quê??? Como?
- Aquelas fardas estilo militar que algumas usam, arrghhh!!!
- De certo modo seguem um mesmo estilo: têm o maestro que faz as vezes de capitão e toda uma tropa que lhe obedece tocando afinado e a tempo...
- Não gosto! Acho que cada um devia tocar aquilo que lhe dá na veneta.
- Anarquia outra vez?
- Não, Jazz!

Para a Fábrica de Letras - Preconceito

Valsa a Quatro Tempos

| segunda-feira, 3 de janeiro de 2011 | 14 comentários |
Não existe maior solidão que aquela que sentimos no meio duma multidão. Alguém disse isto. Este tipo de máximas são sempre ditas por alguém, como é lógico, não se pronunciam sozinhas. São como as leis da física que gerem o universo: existem e apenas precisam de ser enunciadas. Quem as enuncia é quase sempre portador de voz grave e ar pesaroso, como quem diz: Olhem! Aqui estou eu: Ouçam só o que eu vou dizer - tossicam um pouco, clareiam a garganta e depois lá cagam a sentença.
Para Romualdo, que se encontrava no centro da multidão em êxtase, a frase, embora fizesse todo o sentido, carecia de complementos circunstanciais, como por exemplo: Não existe maior solidão do que aquela que sentimos no meio duma multidão quando não temos dinheiro para o táxi e estamos com frio e ninguém fala connosco. O centro de uma bebedeira é como o centro de um furacão: vazio.
O que angustiava Romualdo não era a solidão, nem o abandono, nem o estar sozinho. Isso sabia ele ser parte da condição humana, tendo em conta as dimensões minúsculas do planeta em relação ao sistema solar, e do sistema solar relativamente à galáxia, e da galáxia ao seu agregado, e de todos os agregados juntos, ainda assim ínfimos quando comparados com a vasta extensão do universo. Não. Para Romualdo nada o fazia sentir-se mais pequenino do que ver a luz dos olhos dela extinguir-se lentamente; do intenso ao baço, do lusco-fusco à total escuridão, de supernova a buraco negro. Era essa a ferida que desatinava e fazia doer.
Sem ela sentia-se desequilibrado; como se estivesse bêbado, o que efectivamente estava, mas dum desequilíbrio diferente; como que desajeitado numa valsa a quatro tempos.
E assim era a solidão que chavão nenhum deixava entrever mas que ele sentia nesse momento. Em suma: tinha saudades.
Ai saudade que me prendes os pés ao soalho – suspirou, sem encontrar tradução para estrangeiro.

O Homem é Bom?

| sábado, 1 de janeiro de 2011 | 5 comentários |
Que manifesto orgulho o de um pai: assistir ao filho a cumprir algo de grandioso na vida. Um deleite para os olhos, um bálsamo para a memória. O jovem guerreiro, arrastando a presa pelos pés à volta da aldeia como era de costume a título de exibição; esquartejou-a e colocou os quartos de carne ao lume. Um lume brando só para dar uma corzinha: a boa carne come-se a sangrar - era um dos cânones cravados nas Tábuas da Lei.
Ofertou simbolicamente uma das partes do animal aos deuses, que eram quatro como os elementos e  lançou outra à multidão esfaimada. Um gesto magnânimo. Ouviram-se hurras de excitação e o pai do jovem guerreiro abanou a cabeça em sinal de aprovação: o protocolo estava a ser seguido como devia, não havia dúvidas que o rapaz era filho de um chefe. O melhor pedaço do animal ofereceu o mancebo ao pai, que também era o seu líder e sumo pontífice. O cheiro do holocausto agradou-lhe de tal forma que, abocanhou o cadáver com toda a pujança e autoridade que o status lhe conferia. A turba urrou uma vez mais de excitação; o dia era de festa: o menino tornara-se homem.
Quando o chefe da tribo sentiu algo a prender-se-lhe entre os dentes, a multidão deixou de respirar em suspenso. O jovem guerreiro pensou ver ali o fim da sua glória, uma nuvem negra na sua iniciação. Mas eis que o grande líder sorri, e extrai de entre o canino e o incisivo, um objecto brilhante e luminoso. 
Ah! Meu rapaz, és sem dúvida filho do teu pai: de todos os sacerdotes que nos aborrecem com a Palavra, escolheste o mais gordo e suculento - Eram os pensamentos do Grande Chefe enquanto lambia os beiços e admirava orgulhoso a cruz de ouro que lhe tinha saído em brinde.