Aqui No Deserto

| domingo, 31 de outubro de 2010 | 12 comentários |
Quando chove é sempre motivo de festa. No deserto a chuva é bem-vinda. Saio da tenda e corro todo nu pelas dunas. Um costume beduíno? Não sei. Talvez seja o êxtase por tamanha oferta de um deus que se afirma pela secura, tanto climatérica como metafísica. Aqui a chuva não é boa para a agricultura, por não haver agricultura, mas é boa para os camelos; para eles é como se fosse bar aberto.
Aproveitamos o momento para sacudir de cima a poeira do deserto; uma poeira que nos cobre há séculos, camada sobre camada, como se fôssemos uma cebola, ou uma boneca russa. À noite, aquecemos o chá e celebramos a chuva com histórias que nos contaram os nossos bisavós, e rimo-nos muito com a boca desdentada. Os slughis assustados uivam à lua; talvez porque nunca ouviram histórias da chuva contadas pelos seus bisavós. Os camelos roncam saciados.
Pela manhã o deserto já não está no mesmo sítio. Vogou com a chuva, como a via láctea, que flutua pelo universo afastando-se das galáxias irmãs sem dizer adeus. Levantamos acampamento e zarpamos com o deserto; nunca estamos sós quando fazemos novos vizinhos, o que interessa é a viagem.

Não Comer, Não Rezar, Não Amar – Dormir Apenas

| sábado, 30 de outubro de 2010 | 15 comentários |
Um tristeza enorme abateu-se sobre os ombros de Romualdo. Os poetas situam geograficamente a tristeza no coração: um aperto, dizem eles. Os místicos colocam-na na alma, como algo de que se padece. Romualdo não sentia apertos de espécie alguma, nem exaltações febris no espírito; a sua tristeza pesava-lhe, era isso. Como se estivesse debaixo da roda de um camião TIR. Um peso enorme que lhe tolhia os movimentos. Quando se deslocava era como se se arrastasse, os ombros apontavam o chão, vergados ao peso da tristeza feita chumbo. A angústia sentia-a na barriga e a paixão nos olhos.
A paixão sentia-a vermelha, como se o coração fosse rebentar de um momento para o outro; uma bomba relógio cardíaca. Negra era a cor com que percepcionava a tristeza: como o chumbo, como as pedras de calçada, que embora as houvesse de outras cores, Romualdo só as via negras. 
Quando estava apaixonado e triste, via tudo vermelho e negro, como as bandeiras anarquistas. Nessas alturas saía à rua, gritava palavras de ordem e atirava pedras aos polícias. A seguir fechava-se em casa, deitava-se debaixo da cama e dormia.
Romualdo admirava os budistas por causa do equilíbrio. Os budistas gostavam de Romualdo por causa da falta de equilíbrio. Esforçavam-se para o tentar equilibrar e riam-se muito dele quando caía desengonçado, como nos filmes antigos. Os budistas eram engraçados e queriam muito ajudá-lo, mas havia aquela coisa do tofu que se intrometia constantemente entre ele e o nirvana.
E assim estava agora Romualdo: encurralado. Uma tonelada de ombros empurravam-no para baixo. Para debaixo da cama.
Adormeceu a pensar na quantidade de pedras que ainda havia para atirar.

Uma Estátua Não É Uma Ilha

| terça-feira, 26 de outubro de 2010 | 21 comentários |
O homem-estátua da rua de Santo António nunca pára quieto. Faz adeus às pessoas, fala com as crianças e cumprimenta os turistas. O homem-estátua assemelha-se mais a um pantomineiro que está preso ao chão; como se tivesse criado raízes na calçada. Um pantomineiro também não será que estes não falam. O homem-estátua parece antes de mais estar perdido. E no entanto dá mostras de felicidade, não obstante a farpela branca e a cara mal pintada. A única semelhança entre o homem-estátua e uma estátua é que os pombos cagam-lhe em cima com igual desprezo.
Dizem para aí que o homem-estátua, antigamente, seria um severo funcionário do Estado, de maus humores, nenhuns amores; sempre sério e estático. Um homem só portanto; não por opção.
Um dia, ao ouvir falar do homem que largou tudo para se tornar artista de circo, uma luzinha branca bateu-lhe forte na parte detrás do cérebro. Uma luz que cresceu, ramificou-se pelas circunvalações da massa cinzenta e começou a piscar, qual árvore de natal, na parte de dentro da cabeça. Foi então que decidiu tornar-se artista, homem-estátua mais propriamente.
É um mau artista o homem-estátua e por isso às vezes passa fome, mas é muito bom nas relações públicas.


#222 (o primo afastado da besta)

| sábado, 23 de outubro de 2010 | 12 comentários |
Era como que uma espécie de hipnose. Não! Era qualquer coisa como sonhar acordado. Também não era bem isso. Era algo na fronteira de ambos os estados, como se lhe tivessem injectado com uma droga benigna.
Sentou-se em frente ao computador, desapaixonado, como sempre ficava quando tinha que elaborar maçudos relatórios, pejados de estatísticas estranhas, que não interessavam a ninguém para além das maçudas pessoas a quem estes relatórios interessavam. O que farias se a tua vizinha se tornasse num zombie? Era uma das perguntas colocadas aos inquiridos. A sério?
Acedeu à pasta A Minha Música e escolheu um ficheiro ao calhas, que o que ele precisava era de música de fundo para concluir uma empreitada que se previa longa e boçal.
A canção começou com um contrabaixo, melancólico, suave, muito pachorrento que soltava umas bordoadas graves, como uma voz antiga que aconselha, que protege. Foi como se lhe tivessem colocado um cobertor quente por cima dos ombros numa noite fria. Depois veio o saxofone, com as notas bafejadas pelo vento, que saltitavam pelo tom cavo do baixo como as pedras de verão saltam pela crista das ondas quando são atiradas pelos banhistas. E foi assim que depressa chegou a um estado meloso e catatónico de puro deleite, que sempre atingia quando se punha a ouvir música em vez de trabalhar. Com os olhos fixos no ecrã do computador, estático, quem o visse admirar-lhe-ia a concentração. No entanto, por muito que quisesse dar início à actividade, não conseguia; tinha a sensação de estar íntimo com a harmonia do universo: todos aqueles sons eram verdadeiros e tocavam-lhe nas extremidades dos nervos. Outra vezes, quando passava em frente da estante dos livros, se houvesse um que lhe despertasse a atenção; ou por se lembrar de ter gostado, ou por já não se lembrar muito bem do enredo, abria-o e logo atingia um transe igual ao provocado pela música ficando eternidades a ler, no meio da sala, em pé.
Esqueceu-se das horas. O director ralhou-lhe por causa do atraso dos relatórios, dos prazos e de mais não sei mais o quê. Mas a ele, o que lhe interessava era um estado de contemplação, que depois de atingido já não se podia desfazer; uma felicidade que ia para além das medições e convenções e conceitos e preconceitos das gentes ditas normais.
Encolheu os ombros e regressou pesaroso à estúpida realidade, que sempre o atingia na testa quando menos esperava, como uma bélinha.

A Velha História do Homem Que Saiu de Casa Para Comprar Tabaco e Só Voltou Doze Anos Depois

| quarta-feira, 13 de outubro de 2010 | 15 comentários |
O que fazer a um corpo quando não o reconhecemos ao espelho. Que espécie de prodígio é este? Uma possessão? Alguém acredita nisso? Pode-se viver parte da vida num invólucro ressequido, ressacado, ressentido e nem dar por isso? Quem és tu e porque estás em todo o meu redor? Pergunta o homem quando acorda num quarto de hotel, num corpo que não é o seu, ao lado duma mulher que não é sua. O meu corpo não tinha olheiras, nem este bigode nem a barba por desfazer. O meu corpo não estava cansado, nem tinha rugas, nem cabelos brancos salteados pelo crânio. A mulher abana a cabeça enquanto conta o dinheiro. Retoca o baton e sai, deixando-o sozinho a falar com o reflexo, como se representasse um monólogo para si próprio; uma encenação numa casa de espelhos onde uma só alma comprou bilhete. Alguém viu o meu corpo seco, ligeirinho, limpo e vistoso? Grita o homem para o barman, com os olhos raiados de sangue. O barman enche-lhe o copo do seu veneno preferido e abana a cabeça. Ninguém tinha visto tal corpo.
Ah! Deve ser isto a tal de solidão que toda a gente falava. Este vaguear incessante à procura de algo. Um indivíduo acorda e de repente está perdido e ninguém o reconhece; condenado a procurar algo que já não pode encontrar - o seu rasto. Pelo menos é o que dizem os físicos: não se pode viajar no tempo para trás, para o passado, por mor dos paradoxos.

A Lesão

| terça-feira, 12 de outubro de 2010 | 10 comentários |
Não era a inacção em si que o aborrecia. Com a indolência podia ele compactuar. Acordar tarde, passar o dia de boxers e pantufas; ler os livros abandonados na mesa de cabeceira, beber a cerveja que se amontoava no frederico à espera de um qualquer jogo de futebol, não era algo que lhe causasse desprazer. Era a lesão que o tirava do sério. Um passo em falso, um tropeção, um esforço mal medido e a lesão que espreitava por detrás de um qualquer manual de fisioterapia saltou para a realidade e instalou-se-lhe no corpo pouco habituado a estas modernices. A lesão provocava dor. Uma dor circular, estúpida. Uma dor que ia e vinha e lhe rondava a lesão em movimentos concêntricos como os de um tubarão. Quando pensava já estar melhor, vestia-se, agarrava nas chaves e estando prestes a sair, eis que a dor saltava por detrás da porta e atacava-o como um meliante furtivo na calada da noite. Nessas alturas sentava-se e ligava a televisão, mas a dor agudizava-se de tal forma que logo desligava o aparelho. Era uma dor que não se compadecia com a programação nacional.
A ansiedade era o pior de tudo. Estar à espera que lhe doesse era mais desagradável que quando lhe doía mesmo. A pessoa a quem a sua morte é anunciada sofre muito mais que o incauto, que ao sair de casa apanha com um piano de cauda em cima. A morte imediata acaba por ser mais musical que o longo silêncio da espera.
Sentia-se encurralado. Como um animal preso numa gaiola. Nota mental: Nunca mais ir ao jardim zoológico.
Não conseguiu ler o jornal. As notícias do mundo causaram-lhe, mais que dor, tristeza. Entreteve-se então a catalogar os discos da colecção de jazz e descobriu que os analgésicos misturados com cerveja tornavam os solos do Dizzy Gillespie, numa palavra: flutuantes. Ruminou no porquê de os comprimidos para a dor chamarem-se analgésicos e não oralgésicos, uma vez que são tomados pela boca. E nisto a dor atacou-o traiçoeira. Uma pontada só, para lhe lembrar que ainda existia, não fosse ele esquecer-se.
Foi para a varanda e acendeu um cigarro. Reparou no vizinho do andar de baixo, que se atarefava todo a prender à sacada, uma bandeira vermelha e verde com um manguito amarelo ao centro.
Este é que a sabe toda – pensou.


O Dedo

| sábado, 9 de outubro de 2010 | 6 comentários |
Em tempos de crise a inspiração escasseia. As ideias ficam presas no cérebro que padece de falta de oxigenação. O sangue deixa de circular, tal não é o aperto do cinto. A necrose instala-se. Era assim que se sentia Labregoísio diariamente. Sufocado. Como se tivesse a cabeça presa num torno mecânico. Ah! a imagem do operário oprimido pelo sistema. Um bom leit motiv para um mural. O homem preso à máquina. O homem servo da máquina. A máquina que rumina o homem.
Fez as contas por alto, que a matemática nunca foi o seu forte, e descobriu que será um homem velho quando a situação der algum sinal de melhoria. A vida, tê-la-à passado em contenção, em esforço, em desassossego, miserável e com medo. A sério? É isto que nos espera? A vida? É isto?
Indignava-se com a falta de indignação. Deixou-se cair no cadeirão e abandonou de novo a tela; trocou os pincéis pelo cigarro e pôs-se a esfumaçar. Gostava da sala cheia de fumo - recordava-lhe outras praias e nevoeiros - amores e inocências numa época em que podia considerar-se feliz sem ter vergonha de si próprio. Tempos que já não voltam. Não por a marcha do tempo ser linear na forma como a percepcionamos, mas por já não haver inocência uma vez que abrimos os olhos. E olhos foram abertos concerteza. Abertos para no-los encherem de areia e de promessas. Mentiras!
Que sentido de traição é este? Pergunta-se Labregoísio. Porque nos aconchegamos nesta tristeza?
Levantou-se e procurou os lençóis velhos com que resguardava os móveis quando viajava.
A sério? É só isto? Meia dúzia de banqueiros sem escrúpulos, uma classe política imbecil e dois meninos que nunca trabalharam na vida a digladiarem-se mimados, como quem luta pelo último brinquedo da moda – nós! É por isto que se vão estragar gerações inteiras?
Esquartejou o lençol e pintou as partes de vermelho e verde – a cor da tesão e do ciúme – desenhou-lhes em amarelo um punho fechado de dedo médio em riste e dependurou tudo da janela. Sim, porque não é só em dias de bola que devemos mostrar a nossa excitação. Era este o seu manifesto. Um dedo esticado. Um dedo que talvez se espalhe pelo bairro, pela cidade, pelo país inteiro, até que os senhores engenheiros de fim-de-semana, os senhores doutores de pacotilha e todos os outros de seriedade duvidosa, sintam um dia ao se sentarem nas suas poltronas, um forte ardor subir-lhes pelo ânus acima.


Questões de Química

| quarta-feira, 6 de outubro de 2010 | 12 comentários |
Abrenúncio gostava de ir à mercearia. O facto de as compras serem mais caras que nos outros sítios era compensado por um ambiente único que só na mercearia encontrava. Conhecia algumas na cidade, cada vez mais escassas, e tinha a certeza que em cada uma delas havia um mundo de personagens únicas retumbantes nas suas idiossincrasias. Cada mercearia é uma rede social. Todos os clientes sabem da vida uns dos outros e daqueles que não se conhece, fica-se a saber através dos amigos dos amigos. Antes de ser um espaço de comércio é um sítio de partilha: de conhecimentos da vida alheia, das notícias do bairro, das viagens organizadas pela junta de freguesia, de mezinhas várias, enfim...
Abrenúncio gostava da mercearia tanto quanto detestava supermercados grandes - perdia-se quase sempre, e nunca sabia onde estavam as coisas - ali não, na mercearia era tudo perto.
Na sua mercearia, gostava particularmente da senhora de cabelo ralo, pintado de cor-de-laranja que andava sempre de pantufas. Quando chegava a sua vez na caixa fazia questão de agarrar num produto ao calhas e afirmar em voz alta, como quem não quer a coisa, Este shampoo é muito bom! Eu sei porque a minha filha é Química e ela disse-me que este era um bom shampoo. Noutros dias era a manteiga. Noutros ainda o detergente da loiça, o amaciador da roupa, o creme para as mãos, a pasta de dentes, e tudo quanto possuísse um ph. Nunca se coibia de aconselhar outros clientes, ou não fossem estes meros vitelos no matadouro que era o marketing agressivo dos mass-media. Esse não vizinho, esse não presta, leve antes este que a minha filha que é Química diz que é muito bom. E Abrenúncio levava, para ele era tudo igual, não lhe fazia a mínima diferença; o que ele gostava era de ver a mulher com o peito cheio de orgulho por ter uma filha que, não era nem mais nem menos do que: Química.
A dona da mercearia abanava a cabeça numa concordância pachorrenta, diz que sim, diz que sim. Ela que só queria vender, não lhe interessava quem fazia a publicidade: se as televisões, se a mãe da Química. Registava as discussões entre clientes com malabarismos diplomáticos que a permitiam ficar sempre de acordo com as partes envolvidas, como convinha a uma dona de mercearia. Se as indicações da filha Química iam de encontro às do filho doutor daqueloutra cliente, a dona da mercearia encontrava facilmente um ponto de intersecção comum às duas, qual sabedoria salomónica.
Do seu filho não falava. Era tabu e todos os clientes sabiam-no. Era como se não existisse, ainda que tivesse pedido clemência por ele, ao doutor juiz, no dia da sentença. O marido, que orientava o negócio, também nunca dava parte de fraco quando começavam os concursos para ver quem tinha o filho mais bem sucedido. Nem pestanejava.
Ainda não tinha sido há muito tempo que o filho se levantara a meio da noite, e,  por qualquer razão, com uma faca de cozinha, atacou primeiro o pai e depois a mãe, desferindo golpes aleatórios que acertaram ora num ora noutro. Como estavam às escuras e não viam o agressor, gritaram por socorro e chamaram pelo filho, que só não veio porque já lá estava.
Sempre que ia às compras Abrenúncio não conseguia deixar de notar na enorme cicatriz que a mulher trazia ao pescoço desde a lúgubre noite. Com o homem passava-se o mesmo. Os cortes agora sarados notavam-se-lhe na cara e nos braços. Cortes profundos que doíam menos à superfície que no seu âmago. Marcas de Caim que ficam para sempre e que não se podem remover. A resignação só era comparável com o que tinha sido a surpresa.  Até tu meu filho! - diria Júlio César. Até tu minha filha que és Química! – diria a senhora de cabelo cor-de-laranja.

A Hard Day's Night

| sexta-feira, 1 de outubro de 2010 | 24 comentários |
It's been a hard day's night
And I've been working like a dog
The Beatles

Acordou com o cheiro da chuva. Mais concretamente com o cheiro da terra molhada. A cabeça doí-lhe como se tivesse marrado numa bigorna. Um espirro de vodka estremeceu-lhe nas narinas e o sabor do álcool voltou-lhe à boca num enjoo matinal. Estava prestes a dar à luz uma ressaca monumental. Pelo aspecto molhado da sala deduziu que tivesse chovido a noite inteira. Desde que ela se fora que ganhara o hábito de dormir de janelas abertas, todo nu, na esperança vã que uma noite ela regressasse e se deitasse com ele na vasta cama que aumentava de tamanho todos os dias. Vestiu o roupão cor-de-rosa e de caminho para a cozinha agarrou na garrafa de vodka meio cheia. Ora aí está uma imagem positiva que os gurus da auto-ajuda nunca se lembraram de usar: um indivíduo acorda ressacado depois de uma noite perdida e mesmo assim consegue ver a garrafa de vodka meio-cheia.
Quando a má-disposição começou a tomar proporções montanhosas, tomou uma decisão radical: Bloody Mary. Deitou uma porção generosa de vodka num copo alto, juntou-lhe uns restos de tabasco fora de prazo, uma pitada de sal, sumo de tomate, pimenta, e, como não tinha molho inglês juntou-lhe mais vodka, que isto dos cocktails matinais o segredo está no improviso. Bebeu o composto de um só trago e pouco depois sentiu o sorrisinho da noite anterior aflorar-lhe de novo os lábios.
Agora sim, estava pronto para o trabalho. Acendeu um cigarro e voltou para a sala que também era o quarto e fazia as vezes de hall de entrada. Ligou a aparelhagem e pôs um cd do Coltrane; aos primeiros acordes soltou um passinho de dança.
Sentou-se em frente ao computador que ficara ligado da noite anterior e enterrou os pés nus no tapete árabe, única recordação duma viagem que tinham feito juntos, noutra vida. Na secretária, por debaixo da montanha de rascunhos, ainda guardava a carta que ela lhe deixara em cima da cama num envelope agora amarelo. A frase, por ser tão singela, ficou-lhe atarrachada na memória: Deixo-te o tapete, levo o cão.
Sacudiu a cabeça e tentou concentrar-se no trabalho que já estava mais que atrasado. Tinha ficado de escrever um livro para crianças, encomendado pela editora, mas todos os dias ruminava á volta do tema e não passava do título: Pai Natal ou Menino Jesus? – Eis a Questão!
Acendeu outro cigarro. Não conseguia conter a inspiração: era-lhe permeável. A dita atravessava-lhe o corpo como o sangue dominical por um cálice partido; como a chuva que lhe entrava pela janela. Os dedos passeavam pelo teclado mas o resultado era sempre o mesmo: reminiscências duma tristeza. Uma tristeza que se prolongava ao longo do dia. Um dia que demasiado cedo se fazia noite.

Para a Fábrica das Letras -  O Cheiro da Chuva