#215

| quarta-feira, 29 de setembro de 2010 | 5 comentários |
Romualdo pasma-se. O ódio está de volta. A perseguição ganha terreno: alimenta-se da intolerância e da ignorância e mais que tudo, duma estupidez conhecida entre nós por ser ambundante e ambundantemente disfarçada.
Romualdo isola-se, não compreende os outros. Não tem medo; queda-se perplexo. Descobre-se numa pele que não é a sua, como se representasse um papel. Não quer ser vítima. Não quer ser carrasco. Olha-se ao espelho e vê os traços da vetusta humanidade esvanecerem-se como poeira ao vento.
Um dia vêm-me buscar a mim.
Eliminamo-nos por ordem crescente do ódio. Eliminamo-nos porque ajuda a passar o tempo e a frustração. Somos frustrados porque não somos felizes; entregámos a felicidade aos outros para que cuidassem dela, como um penhor. Ficou a promessa de voltar um dia para a resgatar, numa manhã de nevoeiro, qual Sebastião, mas nunca voltamos. Esquecemo-nos dela, é só.
Os outros estão no fulcro das nossas vidas, sabem de nós, decidem por nós. Comandam-nos, como titereiros. O centro gravitacional da massa humana que forma os outros assemelha-se em tudo a um buraco negro: capaz de nos sugar a luz dos olhos.
Um dia vêm-me buscar a mim. Quando não houver mais ninguém. Os que vierem não serão os monstros abomináveis que as nossas mães nos falavam, não. Serão os nossos vizinhos, sorridentes, entre um bom dia e um como tem passado; os nossos colegas com quem acabámos de almoçar; os nossos amigos sempre a quererem o nosso bem. Quem vier, trará um beijo na face em mente. Ter inimigos identificados é um luxo.
Romualdo não está só, todos os loucos o acompanham. Os loucos são unidades móveis de felicidade esquecida. Não têm medo; quedam-se sim, perplexos.

Os Cães

| segunda-feira, 27 de setembro de 2010 | 10 comentários |
Os cães deitam-se aos meus pés, depois de uma revolução de saltos e alegria, típica dos cães sempre que chego a casa. Dou-lhes de comer e o agradecimento está-lhes no olhar. Conseguem dizer tudo com aqueles olhos, os cães. Se aprendêssemos alguma coisa com os cães, poupávamos os maiores equívocos provocados pela linguagem, invenção que se diz do diabo. Responderíamos às carícias com um abanar do rabo e à má disposição com um rosnar; ladrávamos se estivéssemos zangados e tudo era mais simples. Este passo evolutivo ainda está longe de quem para tudo precisa de mil reuniões e mil formulários e mil protocolos; de quem se desfaz em carimbos e segundas vias e cópias em triplicado.
Quando falamos dum mundo cão, esquecemo-nos que é um mundo de roupa lavada, comida a horas certas e passeios diários na companhia de alguém que se gosta - como pode ser isto ruim?
Às vezes apetece-me ser como os cães: morder as canelas das pessoas que não gosto.

Diário de Abrenúncio
25/09/2010

Areia Fininha

| quinta-feira, 23 de setembro de 2010 | 15 comentários |
É como areia fininha que se escapa por entre os dedos. A vida. Escapa-se-lhe às mãos cheias por muito que cerre os punhos. Não. Reformula o pensamento: talvez escape precisamente porque cerra os punhos. E os dentes, também cerra os dentes. Tudo em si é encerrado.
Um dia o poeta acordou e viu que tinha a vida toda desarrumada. Os dias por cima das cadeiras, os meses debaixo da cama e largos anos amarfanhados de qualquer maneira num cesto de roupa suja. As pessoas chamavam-lhe poeta mas havia muitos anos que não rimava; não conseguia encontrar a musicalidade nas palavras que faziam eco umas com as outras. Ainda seria poeta? Pode ser-se poeta sem escrever uma simples quadra, um verso que seja?
Era um poeta do silêncio. E isso existe? Poetas mudos?
Tinha um amigo pintor que não pintava, o que para si era um consolo. Passavam muitas tardes juntos, sentados no sofá, a embebedarem-se. O amigo falava-lhe dos quadros que não tinha pintado, das cores vivas e quentes, cheias de paixão, que enchiam a sala de luz numa cascata multicolor. O poeta acendia cigarros e mimava aos saltos os poemas que não tinha escrito, que por serem duma forma maior de lirismo silencioso, emocionava ambos. Aos fins-de-semana juntava-se-lhes Anacleto, o músico, que era surdo e não tocava nada.
O que ele queria era agarrar a vida em todo o seu esplendor. Queria deixar de escrever lugares comuns como: a vida em todo o seu esplendor. Queria amar. Amar com as mãos e a boca e os dentes. Queria escrever sobre o amor. Queria escrever sobre o amor de pernas para o ar. Amor ao contrário lê-se Roma. Queria ir a Roma. Queria agarrá-la em Roma e em todo lado. Em todo o lado é onde fica o mundo. O mundo escapa-se-lhe como areia fininha por entre os dedos.

Metamorfose

| sexta-feira, 17 de setembro de 2010 | 8 comentários |
Labregoísio, que sempre fora um indivíduo calmo e ponderado, começou a sentir uma ponta de irritação descer-lhe pela espinha abaixo. Era a terceira vez que se cortava a fazer a barba e ainda mal tinha principiado. Não que a barba em si fosse um desafio. Essa desaparecia a golpes precisos de máquina de barbear que tinha seis lâminas electromagnéticas. O que o deixava mesmo desaustinado era a sua vizinha. Mais propriamente a gritaria desta logo pela manhã. A filha não dormia e a vizinha achava que esse martírio era algo que deveria de ser partilhado com o resto dos condóminos.
Labregoísio era senhor de um sinal de nascença na face, daqueles que são muito bonitos até que ao mínimo corte desatam numa sangria bíblica. E quando digo bíblica refiro-me ao antigo testamento. No novo também há sangue, mas é só no fim quando (spoiler alert) o Cristo morre.
Naquela manhã, estava Labregoísio a executar a tarefa minuciosa de contornar o sinal com o sexteto de lâminas afiadíssimas; manobra que exige a concentração dum cirurgião senão a frieza dum talhante, quando começa a vizinha num pranto O QUE É QUE EU FAÇO A ESTA MOÇA MEU DEUS???. A vizinha gritava numa voz fininha e irritante como se não houvesse amanhã, e quanto mais a vizinha gritava mais a criancinha chorava, e quanto mais a criancinha chorava mais a vizinha se exasperava MAS O QUE É QUE TU QUERES? JÁ NÃO TE POSSO OUVIR MOÇA DO DEMÓNIO!!!.
Ora a mão de Labregoísio que se queria firme, largava numa dessas danças desengonçadas ao ritmo da gritaria da outra, o que se traduzia em lacerações várias. O sangue escorria qual praga do Egipto e Labregoísio era um daqueles homens que não podia ver sangue. Não daqueles que ficam amarelos e depois desmaiam, não. Labregoísio transformava-se. Desceu a escadas e bateu à porta da vizinha. A vizinha, de criança a chorar ao colo, abriu a porta e deparou-se com um homem estranho de máquina de barbear em punho.
Com a cara coberta de pedaços de papel higiénico vermelho, e uns olhos que faiscavam ódio visceral, já não era Labregoísio que ali estava, era Romualdo, e este só tinha uma dúvida: carótida ou jugular?

Lições de Física

| segunda-feira, 13 de setembro de 2010 | 12 comentários |
O dia em que Abrenúncio perdeu o pivô estava cinzento e ameaçava chuva. É sempre nestes dias que tudo acontece; um céu escurecido, umas nuvens carregadas, o diabo à espreita e pronto, temos os ingredientes necessários para cozinhar uma desgraça.
Neste dia em particular o diabo escondia-se por detrás de um poste. Abrenúncio já atrasado para o emprego, a correr desvairado pela calçada, não conseguiu evitar olhar para uma bela moça loira de pernas até ao pescoço e saia pelo umbigo que se cruzou com ele. A uma determinada velocidade quando duas forças se confrontam, uma delas é forçada a ceder. Neste caso singular em que a boca de Abrenúncio se dispôs a medir forças com o poste da luz, o poste da luz levou a melhor. E como dois corpos não podem ocupar um mesmo espaço ao mesmo tempo, o pivô cedeu o seu lugar à pedra dura do poste e abandonou a boca de Abrenúncio. Como uma desgraça nunca vem só e o diabo nunca está contente, a moçoila calhou olhar para trás no exacto momento em que Abrenúncio abria a boca desdentado com o sangue a escorrer-lhe copioso pelo queixo. Depois começou a chover.
O trauma foi tal que no espaço de tempo que mediou entre o acidente e o ir ao dentista, Abrenúncio foi assaltado pelos mais assombrosos pesadelos. Uma noite sonhou com a loira sentada na sua sala de jantar rodeada dos outros dentes. Tomavam chá e comiam bolinhos. De semblante carregado exigiam de Abrenúncio a informação. Qual informação? A informação! Abrenúncio afundava-se no cadeirão e não encontrava respostas, não sabia de nada, estava completamente a leste do paraíso artificial. Encolhia os ombros e abanava a cabeça coberta por uma fina camada de suor frio. Não sabia de nada. A falta que o dente lhe fazia. Era o pivô que costumava ler as notícias lá em casa.

O Banquete

| quarta-feira, 1 de setembro de 2010 | 25 comentários |
A festa ainda estava no seu estado embrionário mas os convivas encontravam-se já sentados à mesa. Uma mesa composta de outras mesas que formavam um círculo. Ninguém queria ficar de costas para ninguém, não por uma questão de educação, mais por instinto de sobrevivência. Miravam-se nos olhos constantemente e arreganhavam os dentes. Tiravam medidas, avaliavam-se. Havia quem salivasse.
As divergências sobre a ementa, que não se podiam considerar supérfluas, eram muitas; os convidados haviam decidido, por uma qualquer vicissitude da época, comerem-se uns aos outros. Assim mesmo, sem apelo nem agravo. Ora, uma empreitada deste nível nunca é aceite de ânimo leve, assim, do pé para a mão. Impunha-se organização. Estas coisas só se decidem através de uma forte sentido de entendimento e comunhão. Entretanto, se havia quem não se importasse de ser comido havia também aqueles que se recusavam veementemente a servir de repasto a qualquer um.
Os de estirpe mais nobre, por exemplo, não lhes bastava a carne do seu vizinho mal passada a sangrar no prato, não. Queriam-na servida por criados de libré. Por outro lado, a malta da rambóia, não se ensaiava nada em comer a nobreza entre dois pedaços de pão depois de devidamente esturricada no fogareiro. Eram dois estilos diferentes que se confrontavam. Anuíam, isso sim, em que era preciso era haver carne. E sangue. Disso não restavam quaisquer dúvidas. A incerteza residia precisamente no objecto dessa carne e desse sangue, que nenhuma das partes estava disposta a produzir.
A certa altura a argumentação puramente filosófica subiu de tom para o debate religioso: Quem deve comer o homem? E como em todas as manifestações de cariz religioso, lá estavam os sacerdotes, de pé, à espera duma conclusão. Abençoavam uns e outros na certeza porém, de que fosse qual fosse o desenlace, uma terça parte lhes caberia por direito divino.
Os magarefes, na sua eterna paciência, bocejavam aborrecimento perante tamanha polémica. Afiavam os cutelos com a desenvoltura típica do ofício, e como novidade, colocavam nos ouvidos tampões de silicone para abafar o ruído; que isto os homens quando lhes toca a morrer gritam mais que os porcos.

Para a Fábrica de Letras - tema livre