O Labirinto

| terça-feira, 30 de junho de 2009 | 12 comentários |

Entrou no labirinto decidido a trazer-lhe o coração do Minotauro numa bandeja. Ela precisava de uma prova de amor, e ele, cego, achou que aquela era a melhor forma de lhe prestar testemunho. Ao princípio o labirinto era pura adrenalina, pura paixão. Nada o demovia; encontrava o caminho barrado e num salto voltava para trás e enveredava por outra via. A voz dela e a promessa de amor eterno eram os sons que o norteavam pelos sinuosos caminhos do labirinto. Quando se sentia sozinho, cantava canções bárbaras que havia aprendido nas campanhas do sul. Ao acercar-se do cerne da terrível construção, não deu de caras com o mítico animal. Antes tropeçou numa acumulação desordenada de ossos que cedo descobriu, serem os seus antecessores. Em vez do júbilo ansiado sentiu uma dúvida ensombrar-lhe o coração. As paredes agingantaram-se em seu redor e a voz que o guiara até então, deixara de ecoar pelas paredes do caminho. Angustiado percebeu que o verdadeiro labirinto começava ali.

Adaptação

| segunda-feira, 29 de junho de 2009 | 4 comentários |
De regresso ao trabalho, Abrenúncio notou de imediato as transformações que haviam ocorrido na sua ausência. O homem encarregue de lhe chicotear as costas e as dos seus colegas, tinha sido substituído. Já não era o velhinho Afonso com o seu chicote de couro gasto. Afonso era um bom homem e tinha desempenhado o cargo com esmero, mas ultimamente começara a perder as forças e já não chicoteava como antigamente. Como tal fora dispensado. No seu lugar pontificava agora Thor, um jovem de quase dois metros, com voz de trovão e bruto como um prédio de casas. Às primeiras chicotadas, o seu belo e negro chicote entrançado de cabedal levou logo consigo, pedacinhos de pele do lombo dos infelizes. Já não estavam habituados, e por isso estranharam um pouco, quando o sangue quente misturado com o suor lhes escorreu pelo dorso abaixo. Outra das modificações foi o número de participantes activos por bancada. Onde outrora se sentavam quatro colegas, agora o número fora reduzido para dois, duplicando assim o trabalho tal como a quantidade de chicotadas recebidas.Também haviam trocado de instrumento de percussão. O velho e pachorrento tambor que marcava com paciência o ir e vir das manobras, fora substituído pelo rufar nervosinho da tarola que, não se cansava com o incessante baquetear. O resultado final não melhorara por aí além, mas a gestão estava satisfeita. Abrenúncio, que já não era um moço novo, tentava acomodar-se como podia à nova condição. Tomou uma nota mental: «Um dia destes...Comprar mais pomada para as feridas».

O Monte

| sexta-feira, 26 de junho de 2009 | 6 comentários |
Gostava de ir reflectir para o alto do monte sobranceiro à Cidade. Levava o computador, o leitor de música e ali ficava horas, a olhar de cima para a Cidade e seus habitantes. A metáfora das formigas à distância estava muito usada mas era assim que ele via os seus conterrâneos – como formigas. Era certo que um cálculo mal feito da sua parte, um desvio das contas e o desastre seria certeiro. Muitas daquelas formigas obreiras desapareceriam num instante. A tentação de brincar a Deus era tremenda, o bem e o mal à distância de um clique, mas ele sempre reprimira esses impulsos em função do seu ofício. Além disso não tinha tempo para pensar nessas coisas desde que o preço dos diamantes caíra a pique. Ligava a música do Nusrat e o seu espírto concentrava-se unicamente nos habitantes da Cidade. Às vezes acompanhava o paquistanês nas suas melodias, mas era só porque ninguém o estava a ver. «Um dia destes», pensava ele «ainda hei-de saber o que este homem diz nas canções».
Quando descia do monte, voltava a ser um homem sério, circunspecto, pouco dado a cantilenas.

O Exorcismo

| quinta-feira, 25 de junho de 2009 | 2 comentários |
Depois de de lhe puxarem os cabelos, de lhe assentarem vários pontapés, rasgaram-lhe a batina e esbofetearam-lhe repetidamente. «Sai de dentro do senhor» gritavam ao sacerdote estendido no chão. Entre uma cabeçada e um ou outro soco no nariz, o homem espumava pela boca uma pasta vermelha escarlate, com pedaços do que se supunha serem dentes. No fim do acto, os homens de crucifixo ao pescoço, foram-se embora muito contentes com o resultado final da sua pequena experiência. O Sargento-Mor da Fé, esfregava as mãos e comentava com o seu colega: «Pronto! Agora que vimos que o método funciona já o podemos usar nos homossexuais». E, ao som desta última palavra, fizeram o sinal da cruz e benzeram-se muito, como que a afastar o mau olhado.

A Constipação

| quarta-feira, 24 de junho de 2009 | 7 comentários |
Havia dois dias que Romualdo andava a pingar do nariz. Uma pequena ferida na base da narina formara-se de tanto se assoar. Os seus olhos lacrimejavam devido à inflamação típica de uma constipação. No trabalho, os colegas passavam por ele e davam-lhe palmadinhas nas costas «pronto, pronto, temos que ser fortes». Sempre que Romualdo fungava e limpava as lágrimas logo alguém advertia «Vá lá pá, não é o fim do mundo, mulheres é o que não faltam por aí...». Foi chamado ao gabinete do chefe e este com uma voz ponderada anunciou-lhe «Romualdo, sabemos que estes são momentos difíceis para si, por isso se quiser, pode tirar o resto da semana.Vá para casa descansar e se precisar de alguma coisa, não hesite». Romualdo aceitou e foi passear para o Jardim. Sentou-se num banco à sombra e, a cabeça começou a latejar de dor. Jogou as mãos à cabeça e pousou os cotovelos em cima dos joelhos. Dois voluntários da Igreja dos Mansos do Senhor passaram por ele e perguntaram-lhe: «Há quantos dias não comes homem de Deus?», Romualdo levantou a cara e apresentou os olhos marejados de lágrimas, fungou muito e logo foi levado pelos gentis obreiros do Senhor. Na Missão, deram-lhe uma refeição quente e roupas para vestir que, por acaso, eram mais velhas que aquelas que usava.
Ao fim do dia, voltou para casa, serviu-se de um brandy levemente aquecido, ligou as notícias na televisão e, refastelado no sofá refectiu «Há dias estranhos».

Do Sufrágio ao Naufrágio

| terça-feira, 23 de junho de 2009 | 2 comentários |
Corriam pelas ruas a dar palmadinhas na cabeça. Eram os mutantes de Zirkon5. As eleições para Grão-Mestre da Cúpula Dourada não tinham dado bom resultado. «É a democracia pá, esta merda da democracia, onde é que isto já se viu?» indignavam-se alguns à frente das câmaras de televisão. «Ah! O velho método é que era» suspiravam outros aos repórteres da Imprensa Cósmica. O velho método de eleições, era efectivamente mais prático, mais rápido e infalível no que tocava a resultados fidedignos. Consistia em mandar os dois candidatos a um rio com um peso amarrado aos pés. Aquele que voltasse (se voltasse) primeiro à superfície era o eleito. Este método, embora eficaz, foi abolido devido a súbito desinteresse dos candidatos pela vida política. Depois veio o sufrágio directo e a situação actual. Na rua era o caos com os mutantes a insultarem-se mutuamente. Como eram muito religiosos, ambas as facções apelavam a Deus pela vitória. Na rua eram frequentes os insultos «o meu Deus é melhor que o teu». Os mutantes de Zirkon5, como não eram muito dados à razão, andavam à porrada todos os dias. O seu mote era «os problemas resolvem-se à chapada». A Federação Galáctica Internacional, que gostava pouco que os seus membros armassem conflitos (ainda que internos), definiu uma data para a finalização das hostilidades: Nunca. A data foi prontamente aceite por ambas as partes.

O Sofrimento

| segunda-feira, 22 de junho de 2009 | 4 comentários |
Labregoísio sofria em frente do aparelho de televisão. O seu problema de prisão de ventre agravara-se de tal forma nos últimos sete dias que, os médicos foram unânimes em prescrever tão violenta mézinha. Mudava de canal à mesma velocidade que as notícias perdiam o interesse. Às vezes alternava rápido entre dois canais, só para ver as discrepâncias existentes sobre um mesmo evento. Depois, começou a premir o botão do comando com fúria, e, as histórias narradas pelas histéricas criaturas da caixa que estupidificou o mundo, começaram a deixar de fazer mais sentido ainda. Viu a mulher com uma unha encravada que deu à luz a caminho do hospital; o homem que ia atravessar a estrada e foi atropelado por uma manifestação de grevistas da aviação civil; O político corrupto que fugiu para o estrangeiro com a criança desaparecida; O avião que caiu em cima do banco falido...No auge da náusea, sentiu uma pontada forte nos intestinos. «Finalmente!», pensou «é agora». Nem teve tempo de chegar à casa de banho, a explosão deu-se mesmo no meio da sala, deixando as paredes pintalgadas de um surreal
padrão acastanhado, cor de lama.
No dia seguinte, Labregoísio chegou ao trabalho exibindo um sorriso que lhe extravasava do rosto. Os colegas não tardaram a inquiri-lo sobre tamanha demonstração de felicidade:
- Grande programa ontem à noite, hã?
- Nem por isso, fiquei a ver televisão...
- Alguma coisa que valesse a pena?
- Não. Só deu merda.

O Paquiderme

| sábado, 20 de junho de 2009 | 7 comentários |
Quando Ildefonso a viu, parecia uma miragem. Vinha leve como se flutuasse sobre uma fina névoa. Enevoados eram também os seus sentimentos: Há quanto tempo não se viam? Há muito com certeza, ela estava mais velha, mas continuava com o mesmo estilo de menina e moça que o tinha seduzido. Foram passear mas acabaram na casa dele a recordar tempos que pareciam remontar a uma outra vida. Ele ansiava por tocar-lhe mas não queria arriscar uma recusa da parte dela. Ela estava à vontade com ele mas, não sabia se ele ainda a queria.
Nos dias seguintes continuaram a encontrar-se. Mediam-se um ao outro, mediavam-se, faziam os possíveis para se aproximarem só para depois se afastarem de novo. Nenhum dos dois tinha a coragem para enxotar o elefante cor-de-rosa que se entrepunha entre eles.
Ela acabou por ir embora, montada na mesma nuvem que a tinha trazido. Ele apontou no seu bloco de notas: «comprar ratoeira para apanhar elefantes».

O Veredicto

| quarta-feira, 17 de junho de 2009 | 5 comentários |
Quando o processo chegou às mãos do Juiz, já muito se tinha falado sobre o caso. Os documentos em si eram um tanto obscuros, e, já haviam sofrido variadíssimos golpes na sua integridade processual. Agora a decisão cabia ao magistrado. A fina areia da ampulheta escorria os minutos finais para o veredicto. Um senhor vestido à laia de carrasco segurava um machado de lâmina dupla, que descia a cada minuto de indecisão, sobre a cabeça do Juíz. Do lado esquerdo, um advogado magricela com tosse de tísico gritava, com os pulmões que lhe restavam:«Justiça Meretíssimo! Justiça!». Do lado direito só a displicência se manifestava: uns arranjavam as unhas, outros fumavam charuto, outros liam o jornal e nenhum deles parecia estar a prestar muita atenção ao que se estava a passar. A lâmina respirava cada vez mais perto do pescoço do Juíz e este suava em bica tentando não acusar a pressão. Dum lado pesava a vida das pessoas que, por serem tantas, eram apenas uma estatística; do outro, a Máquina que segurava o machado sobre a sua própria cabeça. A sua integridade estava em confronto directo com o seu instinto de auto-preservação; um passo em falso, um deslize, uma vírgula a mais e zás...
Nunca ele sentira tanto “a angústia do guarda-redes antes do pénalti”.

O Último Segundo

| terça-feira, 16 de junho de 2009 | 4 comentários |
«As chaves do carro na ignição. A prestação da casa. Desligar o gás. Pagar a Tv por cabo». No meio da aflição, tentava manter-se calmo, mas aquelas imagens continuavam a surgir-lhe como um Mantra, uma obsessão. «Separar o lixo. Passear o cão. Comprar leite». Era o que lhe vinha à cabeça, olhava em volta e como num filme, as pessoas gritavam, choravam, agarravam-se às cadeiras em câmara lenta . «Mudar de Televisão». Tinha a sensação de que estava a esquecer-se de qualquer coisa, talvez o aniversário de alguém importante. «Desligar o computador. Entregar os relatórios». A senhora ao seu lado, gritava por Deus e pedia por favor. Era suposto, nos seus últimos momentos, a vida passar-lhe à frente dos olhos como um filme, mas não. «Desligar as luzes da sala. Devolver o dvd alugado. Desligar o gás...não, esta já disse». A angústia de não se lembrar crescia proporcional ao pãnico em seu redor. E num último segundo: escuridão. Silêncio.Vazio.

A Viagem de Volta

| segunda-feira, 15 de junho de 2009 | 8 comentários |
Passeava à beira mar, parando apenas para apanhar algumas pedras que depois atirava de volta para o mar. Gostava de ver o ressalto das pedras quando atingiam a crista das ondas. Contava para si as vezes que as pedras saltitavam e depois tentava fazer com que saltassem mais; competia consigo próprio. Por vezes deitava-se nú à beira mar e deixava-se ir enrolado pelas ondas. Repetia todos os rituais de criança, e as pessoas que passavam riam-se. Era uma das vantagens de ser tomado por louco, podia fazer o que realmente lhe apetecia. A praia era voltar ao passado, antes da guerra, à idade da inocência. Do outro lado ficava a Cidade, cinzenta e obtusa como ela só. Foi por isso que voltou à praia, para começar de novo. No cais o barco fazia a última chamada e ele, caminhou devagarinho até atingir o seu objectivo: perder a viagem de volta.

O Melhor Lugar

| domingo, 14 de junho de 2009 | 0 comentários |
Encostados num beco escuro dizem adeus ao Rei. Estranha moldura esta por onde têm que ver Sua Majestade passar. É melhor do que nada, comentam entre si, a multidão da frente já foi espezinhada e a segunda fila ocupa agora o seu lugar. As pessoas na sua ânsia de não perder um vislumbre que seja, empurram-se, pontapeiam-se e mordem-se umas às outras. Ainda há bocado viram uma senhora de idade a puxar os cabelos de uma outra que, estava a arrancar um olho a um senhor que, rangia os dentes mas não arredava pé. O Rei era um monstro sagrado. Era feio, desdentado e sujo. Cheirava mal de todos os poros e as suas vestes eram horríveis farrapos. Não sabia sequer falar como as pessoas, grunhia uns sons guturais enquanto espumava pela boca. Boca essa de onde pendiam pedaços de carne crua. Não acenava, arrotava apenas. A multidão delirava à sua passagem. Lá atrás alguém perguntou:«Porque é tão amado o Rei?», mas ninguém sabia responder. Sabiam sim que um dia, alguém apontou e disse:«Eis o vosso Rei!».
Do fundo do beco só conseguiam entrever a histeria e o desatino da frente, do Rei nem mostras. Aquele era mesmo o melhor lugar.

A Greve

| sexta-feira, 12 de junho de 2009 | 1 comentários |
«As palavras não se escrevem sozinhas, vá lá pá!...». Era Zeferino que gritava com o apoio dos colegas. Havia dias que estavam mergulhados num imenso oceano de tédio. Não gostavam de estar encarcerados, mas já que estavam, gostavam de sair de vez em quando; brincar um bocado, apanhar ar, fazer um pouco de exercício. Estavam todos de acordo de que, em algumas das histórias, eles até se saíam bem, enfim, tudo era melhor do que o presente marasmo em que se encontravam.
«Nunca mais foi o mesmo desde que voltou lá de não sei donde...», era Abrenúncio que falava, «...Já não pára em casa, chega tarde e a más horas, dorme os dias inteiros, e ainda por cima não escreve.» Ildefonso sugeriu que, tal como muitos na Cidade, El Matador poderia estar em greve. «Mas qual greve, se alguém está em greve aqui somos nós!» gritou Romualdo.
«E no entanto...», um sorriso maquiavélico desenhou-se na face de Abrenúncio. Os outros já lhe conheciam a expressão e intimaram-no a falar.«Já viram melhor altura que esta para fugir?». Ninguém disse nada mas, a núvem negra da conspiração pairou mais uma vez na estreita cela.

O Incêndio

| terça-feira, 9 de junho de 2009 | 1 comentários |
Chegou a casa e não havia luz. Tinham-na cortado por falta de pagamento; as facturas amontoavam-se algures debaixo da cama, junto com as da água que provavelmente também já tinham cortado: foi ver. Correcto, a água também já se tinha ido. Entretanto via-se parado à entrada, encostado à porta, de cigarro apagado na boca a pensar:«há dias maus e dias cabrões, e há cabrões que nem Dias são...é o meu caso». Naquela casa onde antes havia atingido a plena felicidade, encontrava agora apenas um beco escuro, carregado de fel e angústia. Ainda restavam as sombras, que se tinham colado à parede como papel autocolante, sombras que ele não conseguia nem queria encarar, sombras que o faziam rever e re-analisar todo o processo vezes sem conta, e, chegar sempre à mesma conclusão: o culpado era ele.
Foi buscar gasolina ao carro (outro que já não servia para nada) e regou a casa como se duma flôr se tratasse, depois saiu para a rua, acendeu o cigarro e acendeu a casa.
Os bombeiros foram rápidos a chegar mas já não havia grande coisa a salvar. Ele, afastou-se em passo calmo e numa última despedida olhou para trás. A rua estava toda iluminada: «Que pena não ser Natal!» pensou.

O Princípio do Fim

| sexta-feira, 5 de junho de 2009 | 7 comentários |
Zeferino abriu a porta do frigorífico e deparou-se com um espectáculo terrível: Já só tinha duas cervejas. Não suportou o choque e gritou bem alto a sua dor: «Ó Meu Deus, estão-se a acabar!». Um ser incauto que ia a passar por debaixo da janela de Zeferino, ouviu a terrível frase, e, temente que era a Deus, arrepiou-se com a profecia. «Eu sabia,..Chegou finalmente a hora. Os tempos estão-se a acabar». Como era uma pessoa que há muito se havia preparado para a aurora do apocalypse, em pouco tempo mandou a mulher e os filhos para uma cabana no monte mais alto em redor da Cidade. Depois, montou uma banca na Praça Central e qual arauto da salvação alheia põs-se a arengar aos transeuntes:«Arrependam-se! Arrependam-se! Já falta pouco, os tempos estão-se a acabar!». O certo é que o boato já se tinha espalhado, e corria pela Cidade como sendo um dado adquirido. Os místicos consultaram os seus mapas astrais e confirmaram que sim, que o fim dos tempos estava previsto para mais ou menos aquela altura. As pessoas consultaram os místicos e logo se convenceram;«pois se a Lua está na segunda casa de Marte, não pode vir nada de bom daí». O burburinho aumentou e cedo se tranformou em ruído geral«É o fim-do-mundo, salve-se quem puder» gritavam os mais aterrorizados enquanto corriam espavoridos de um lado para o outro. O Trânsito rapidamente se tornou um caos e os acidentes eram constantes. Houve um ataque geral aos supermercados em busca de mantimentos, havia quem não percebesse o conceito de fim-de-mundo. Do pânico à pilhagem, e a outros crimes típicos do fim-dos-tempos, foi um saltinho.
Zeferino arriscou a vida para ir a um supermercado comprar cerveja, a Cidade estava totalmente irreconhecível, quando finalmente se deparou com facto de já não haver cerveja em lado nenhum, não conseguiu conter um suspiro: «É o fim!».

A Casa ao Fundo da Rua

| quinta-feira, 4 de junho de 2009 | 2 comentários |
Todos os dias surgiam homens que entravam na tasca e perguntavam onde ficava a casa da Rosa.«É só descer esta ruazinha, a casa fica lá ao fundo.» Explicava, a maior parte das vezes, a dona da tasca. A tasca ficava num Largo com vista para a casa da Rosa. Era matemático, quando entrava um homem com ar tímido, ou fanfarrão, ou perdido, a dona da tasca suspirava e, sem sair detrás do balcão lá indicava aos homens o caminho certo. Outras vezes eram os próprios clientes da tasca que, já com um copo a mais, apontavam o dedo na direcção da célebre casa. A Rosa «faz jeitinhos» dizia a dona da tasca, e tal como o seu estabelecimento, a Rosa era um marco naquele Largo perdido.
Um dia, estava Labregoísio sentado sozinho a uma mesa, a beber o seu brandy, quando entra um homenzinho, ávido de «jeitinhos» que lhe faz a pergunta do costume. Labregoísio que já sabia a resposta de cór, deu as indicações ao homem com toda a verve e empenho que costumava aplicar nas suas empresas. Sentou-se e, do outro lado da tasca, uma senhora vestida de negro sorriu e brindou-lhe em silêncio, Labregoísio devolveu o brinde e embrenhou-se de novo nas divagações de sempre. Mais tarde, curioso, indagou junto da dona da tasca sobre a senhora que tinha estado ali sentada. « Aquela? Era a Rosa!»

O Objecto

| quarta-feira, 3 de junho de 2009 | 5 comentários |
De tempos a tempos os habitantes de Argon 5, quando as luas estavam no ocaso e o céu estava limpo, juntavam-se em grandes grupos nas suas praias de areia vermelha, e em ambiente de festa, esperavam pela passagem do acermatador. A passagem deste estranho objecto pelos céus de Argon 5 havia sido detectada pelos astrónomos 10 anos antes. Ninguém sabia de onde vinha este estranho e obsoleto electrodoméstico, nem o propósito da sua recorrente passagem, mas que era um belo espectáculo, lá isso, ninguém negava. Os populares, enquanto esperavam na praia, ensaiavam as suas teorias; uns diziam tratar-se de um objecto vindo de outra dimensão, outros garantiam que o objecto era originário no passado, os mais religiosos apostavam em ser aquele, um sinal de um deus qualquer. Os cientistas, mais cépticos, desmitificavam o acontecimento, e explicavam o fenómeno como sendo o aparelho nada mais que lixo, posto em órbita por alguma civilização atrasada, a muitos, muitos, muitos anos-luz do seu planeta. Independentemente de teorias e explicações mais ou menos científicas, era bonito de ver, o espectáculo das pessoas todas na praia, a aplaudir e a assobiar, sempre que o ACERMatador riscava os céus de Argon 5.