O Repouso

| terça-feira, 31 de março de 2009 | 1 comentários |
Deitou-se e fixou o olhar num ponto invisível no tecto. Relaxou os músculos e acomodou-se o mais que pôde àquela posição. Repetiu dentro de si um pequeno mantra e deixou-se estar. Ao fim de quatro dias naquela posição começou a sentir-se mais confortável: já não sentia os desconfortos do corpo, nem o seu peso, nem as suas maleitas. Sentia-se um bibelot, um tapete, um vegetal, só a sua mente vagueava, livre de inquietações. Alguns dias depois a mulher virou a cama para o sol e começou a regá-lo. Em pouco tempo a vegetação começou a crescer em si e em seu redor, uma flora variada que saltava ao olhar de quem entrava no quarto. A mulher estava maravilhada, todas as semanas convidava as amigas para tomar chá e estas gabavam-lhe muito o belo jardim. Os amigos apareciam ao fim-de-semana, montavam as tendas e passavam as noites a jogar poker e os dias a caçar javalis. Os seus filhos depressa descobriram que não havia melhor lugar para brincar às escondidas e aos polícias e ladrões. Em pouco tempo toda a gente se esqueceu dele, do seu nome e da sua fisionomia, e no entanto ele era feliz. Tinha tudo o que precisava.

A Situação

| segunda-feira, 30 de março de 2009 | 0 comentários |
«A situação é demasiado grave!» anunciava o Chefe do Departamento. Eram doze e estavam reunidos na sala grande. Os mais àvidos do carinho do chefe abanaram a cabeça afirmativamente, o Chefe com o olhar passou-lhes a mão pelo pêlo. Urgia resolver a situação o mais rápido possível exortava o Chefe. Alguém sugeriu que se criasse uma Comissão de Investigação.«Boa!», gritou o Chefe e atirou um osso ao colaborador. A Comissão deliberou que o mais importante era encontrar um culpado, tudo o resto era secundário, nomeou-se então um Investigador Especial. Este, sem mais delongas sabendo que o que estava em jogo era a situação, que precisava de ser resolvida rapidamente, relatou o caso a um dos membros do mais Alto Conselho de Direcção. O Alto Conselho, em reunião de emergência chegou à conclusão que, o que o Caso estava mesmo a precisar era de sangue novo, e, logo mandou substituir todos os chefes de departamento. Os novos chefes de departamento tiveram como primeira incumbência, reunir com todos os colaboradores e achar definitivamente uma saída para a situação, que como todos sabiam era demasiado grave.

O Carrossel

| sexta-feira, 27 de março de 2009 | 3 comentários |
Quando o carrossel parou, Romualdo ainda andou dois ou três dias com a cabeça à roda mas depois assentou. Ninguém lhe dissera que ia ser tudo tão cinzento quando a brincadeira acabasse. Nunca antes tivera que ser sério e mal-humorado logo pela manhã e agora era o que lhe exigiam; todas as manhãs para cúmulo. Não se lembrava de alguns anos da sua vida por isso suspeitava que tivessem sido os melhores. A genialidade de Romualdo dependia das voltas do carrossel e, agora que este tinha parado definitivamente, não se sentia à vontade no meio das outras crianças que, como descobriu mais à frente, já eram todas muito adultas. Um dia, sentindo-se deslocado e como já ninguém brincava com ele, saiu em busca de outros carrosseis e quiçá também do Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível.

A Espera

| quinta-feira, 26 de março de 2009 | 0 comentários |
«Passe por cá segunda-feira de manhã, precisamos de falar consigo sobre um assunto que o concerne», foi o que a senhora lhe disse ao telefone. Às nove da manhã de segunda-feira lá estava Zeferino, na fila, à espera de falar com alguém sobre um assunto que supostamente era do seu interesse. As filas eram o seu pior inimigo desde a proibição. Qual seria o assunto? Eles nunca dizem o assunto, se o fizessem a fila nunca o chegaria a ser. As filas são organismos vivos que precisam de alimento. Alimentam-se da paciência dos membros que a constituem. Zeferino suava por todos os poros, apetecia-lhe fumar, apetecia-lhe estar em todos os lados menos ali. Agora o seu cubículo sem janelas já não lhe parecia tão medonho, surgia-lhe simpático até. Só se lembrava de coisas boas para fazer, é sempre assim, quando estamos impossibilitados de fazer uma coisa não conseguimos pensar em mais nada. «Qual será o assunto, qual será o assunto...eu tenho andado tão calminho». Zeferino desesperava e a fila engrossava. Cada vez parecia estar mais longe. «Deve ser isto o Inferno» pensou, «morrer e ficar à porta do Céu eternamente à espera».

A Doença

| quarta-feira, 25 de março de 2009 | 4 comentários |
Quando estive doente, de cama, foi o meu vizinho que cuidou de mim. Foi ele que preparou o caldo de galinha e mo empurrou pela garganta abaixo, foi ele que me mediu a febre, foi ele que me deu a medicação e foi ele que me acalmou nos delírios. Este meu vizinho, que todos consideram estranho nos seus hábitos e nos seus ditos, é uma pessoa extraordinária. Todos os dias de manhã sai à rua com uma lata de ervilhas presa a uma trela, e passeia o seu “cão” rua acima, rua abaixo. «É o meu Abrenuncio» diz ele. «O Abrenuncio é o cão mais inteligente do mundo» afirma enquanto faz festas à lata. Os outros vizinhos não acham aqueles propósitos nada bons para a imagem da congregação, e por isso, escarnecem dele e evitam-no nas escadas ou no elevador ou onde quer que seja. Há pouco tempo, o meu vizinho caiu de cama muito mal, e eu fui lá a casa para lhe retribuir o favor e tratar dele como deve de ser. Infelizmente não foi possível, o Abrenuncio ladrava ferozmente e não deixava ninguém aproximar-se do enfermo.

Estado Caótico

| terça-feira, 24 de março de 2009 | 4 comentários |
O País estava em estado de choque. Vários ministros haviam já se demitido e o Governo estava por um fio. Invariávelmente as sessões da Assembleia da República acabavam com cadeiras a voar e insultos trocados entre todas as bancadas. O Presidente da República apelava à calma mas ninguém lhe ligava nenhuma. Na rua a polícia de intervenção tentava aplacar sem êxito as inúmeras revoltas que iam acontecendo por todo o país. A nação estava a saque, o cenário nas ruas era dantesco; com carros virados, lojas a arder e o lixo que já não era removido havia vários dias. A população recolhida nas suas casas não conseguia afastar o sentimento de medo e impotência. Quando perguntámos a Zeferino o porquê desta crise, este respondeu-nos que não sabia muito bem, mas que tudo tinha começado com um árbitro qualquer num qualquer jogo de qualquer coisa.

Noites Brancas

| segunda-feira, 23 de março de 2009 | 0 comentários |
«Nas noites brancas é que estava eu bem, com o um copo de vodka na mão e o sol da meia-noite ao fundo». Pensava nisto Romualdo, enquanto ordenava alfabeticamente, as multas aplicadas aos indivíduos que persistiam em ser canhotos. Enjoava-lhe mais aquela despensa escura e bafienta com pastas empilhadas até ao tecto, que a travessia do golfo com as nuvens negras a tocarem o mar e o balanço agitado do ferry. Com tantos processos para arrumar, não lhe sobrava quase tempo nenhum para não fazer nada. Nas noites brancas, sentava-se à janela a fumar e contemplava o branco deslavado do céu, sem saber se ainda era noite ou se já era manhã.
A culpa aqui, não é tanto dos canhotos, mas de quem os prossegue.

A Distância

| domingo, 22 de março de 2009 | 2 comentários |
Quando se cruzam, na rua, no trabalho, no elevador, trocam sorrisos como se fossem apenas conhecidos. Os silêncios incomodam quando estão numa sala sozinhos. Ele tenta não olhar directamente para ela mas observa-a com o canto do olho, ela não olha sequer para ele. Ele diz«Desculpe...» ela responde «Não tem de quê».
Ele lembra-se dela e dele juntos, cúmplices, felizes, como se tivesse sido no dia anterior, ela finge não se lembrar bem daquele senhor. Ele pensa que se esticar o braço consegue tocar-lhe, e no entanto, é como se estivessem separados por um continente. Um continente de indiferença.

O Meu Amigo...

| sexta-feira, 20 de março de 2009 | 0 comentários |
«O meu amigo imaginário é melhor que o teu...». E, por causa de uma afirmação que podia ser desvalorizada e esquecida em menos de dez minutos, estiveram dez anos em guerra.

Aos que lá ficaram

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A professora resolveu vingar-se de anos de abusos. Com uma fita preta a apanhar-lhe o cabelo, pinturas de guerra na cara e armada até aos dentes saiu decidida para a escola. Agora todos iriam provar da vingança da heroína, que dito assim até parece outra coisa, não queriam aprender a bem mas agora iam aprender a mal. Entrou na sala de aula e disparou indiscriminadamente sobre os energúmenos dos alunos que choravam e gritavam pela mãe. «Aprendam camelos, aprendam!» gritava a professora e ria desalmadamente enquanto largava a caçadeira de canos serrados e mudava para a AK47. Estava numa matança desenfreada que até dava gosto vê-la quando se desequilibrou e caiu da cama. Bateu com a cabeça na mesinha de cabeceira e chorou muito, não de dôr, mas por ter acordado.

Os Sanguessugas (assim na terra como em Africa)

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Primeiro, abusaram dela e tiraram-lhe para sempre a inocência, com violência e malvadez. Depois chegaram os vampiros, os que sugam a vida, a beleza e tudo o que seja singelo, e no desdobramento, sugaram-lhe o espírito que era a única coisa que ainda a mantinha de pé. Zeferino, que estava na sala, já tinha reparado que os vampiros chegam sempre de mansinho (como os abutres) com as suas cruzes e os seus fatos de carmim e negro. Gritam «heresia, heresia» enquanto bebem chá com bolinhos. Se lhes dão tempo de antena, sugam o oxigénio todo de dentro de um salão, o que faz com que as pessoas deixem de pensar como deve de ser, uma vez que ficam com o cérebro todo desoxigenado.

A Festa

| quinta-feira, 19 de março de 2009 | 1 comentários |
Um deles ia partir. Passaram a noite sentados à volta duma mesa que por acaso era redonda, a beber vodka e malte, a fumar charutos e tudo o mais. (re)Contaram histórias passadas e riram-se das cicatrizes de cada um. Leram poesia em voz alta e tocaram guitarra, sax e caixa de fósforos. Ouviram tudo o que sr. Coltrane tinha para dizer e aplaudiram o mestre de pé. Andaram à porrada porque estavam embriagados e fizeram as pazes porque estavam muito embriagados. No fim todos “aterraram”, menos um, o que foi embora.

A Estrada

| quarta-feira, 18 de março de 2009 | 2 comentários |
Quis atravessar a estrada mas não conseguiu. O pé aventurava-se todos os dias mais um pouco, mas nunca chegava a tocar efectivamente a passadeira. Andava nisto havia anos, todos os dias saía de casa e dirigia-se àquela estrada, que se atressava entre ele e o seu melhor caminho. Os automobilistas abrandavam e incentivavam-no «Vai! Vai!» ou então «Já falta pouco, só mais um bocadinho...», mas nada, o último passo nunca era dado. Voltava costas, e deixava para trás a estrada, coberta de poeira dos carros que passavam a toda a velocidade.«Amanhã é que vai ser» repetia pra si próprio sabendo de antemão que não era verdade.

A Senhora Gorda

| terça-feira, 17 de março de 2009 | 10 comentários |
Começou a sonhar todas as noites com a senhora gorda. A principio ela aparecia só como figurante ou em pequenos papeis, e por isso ele pensou que fosse mais uma daquelas personagens vulgares que habitam a lixeira do insconsciente. Mas, pouco a pouco, a gorda senhora foi tomando um protagonismo inesperado nas suas perfomances oníricas. Aparecia como sua colega de trabalho e depois como sua supervisora. Outras vezes era a mulher engraçada e bem disposta que conta anedotas aos amigos no café. O círculo encolhia e a senhora gorda estava cada vez mais presente; no cinema, nas aulas de dança de salão, nos concertos de jazz (aqui diga-se que até cantava bem), e por fim na sua cama. A partir de certa altura, já só tinha sonhos eróticos com a senhora gorda, depois começou a sentir um certo afecto por ela, e por fim já lhe era difícil separar-se dela quando chegava a altura de acordar. Deu por si apaixonado pela senhora gorda e todos dias não via a hora de estar com ela. Um dia tomou todos os barbitúricos e soporíferos que tinha lá por casa e deitou-se. Encontrou-se com a senhora gorda numa catedral majestosa onde se casaram. Como nunca mais acordou, desconfia-se que tenham vivido felizes para sempre.

Para a Fábrica de Letras - Sonhos

O Messias dos Parques

| segunda-feira, 16 de março de 2009 | 0 comentários |
Quando Romualdo voltou à Terra, completamente falido, depois de anos a vender sabonetes por esse Universo fora, deparou-se com um fenómeno estranho. As pessoas tinham deixado de saber conduzir. Algo ou alguém havia-lhes retirado essa capacidade. O resultado era catastrófico para além de pouco prático e dispendioso. Todos os dias haviam colisões frontais e morria gente, todos os dias encontrava veículos estacionados em cima dos passeios em frente aos monumentos e sabe-se lá mais onde. Mas o mais grave desta afecção que havia atingido o povo de Romualdo «outrora tão sapiente», era não conseguirem estacionar os carros de forma alguma, uma manobra que antes praticavam com mestria e destreza. Romualdo, que sempre tivera um coração desmedido, arregaçou as mangas, enrolou o jornal que tinha na mão e desatou a por ordem no caos. As pessoas de tão contentes que ficavam com a sua ajuda atiravam-lhe moedas e gritavam «BRAVO!». Hoje o exemplo de Romualdo é seguido por muitos e pode-se dizer que nunca antes um acto havia sido tão solidário, tão desinteressado, tão merecedor de aplauso.

A Hora

| sexta-feira, 13 de março de 2009 | 2 comentários |
A hora que ele gostava mais era a hora de ponta. Gostava de andar no meio da multidão apressada, mas ao contrário desta, com todo o vagar. Deixava-se ir com a corrente. Na Terra a relatividade era mais bonita. Não havia nada mais relaxante do que a pressa dos outros. Lia-lhes no rosto, o desespero e a angústia e pensava frequentemente «Que pena não os podermos ajudar». Bebia café na sua hora favorita. A nave-mãe esperava-o, estava na altura de voltar para casa.

Indesejáveis

| quinta-feira, 12 de março de 2009 | 4 comentários |
Um dia, estava o senhor Engenheiro cansado da vilania dos professores e da sua insistente recusa em ensinar e das suas manifestações barulhentas, quando tomou uma medida radical: Acabar com eles de uma vez por todas. Como? Perguntou-se. Como era Engenheiro, a solução surgiu-lhe simples. Construiu um asteróide artificial do tamanho de três estádios de futebol, pôs os professores todos lá dentro e mandou-os para o espaço, em órbita à volta de Ion7. Não contou com o problema dos alunos que, vendo-se sem professores para bater tiveram que se voltar para outras classes sociais, nomeadamente os pais. Os pais revoltaram-se contra o senhor Engenheiro e desataram a manifestar ruidosamente. Oh! Não, pensou o senhor Engenheiro «será que não se pode descansar neste país?». Para um mesmo problema aplica-se uma mesma solução, havia ele aprendido no terceiro e último ano de faculdade; agarrou nos pais, asteróide, espaço e já está. A seguir foram os estudantes, os enfermeiros, os advogados, os juízes, os taxistas, os camionistas, os pescadores, os agricultores, os militares, os polícias, os funcionários públicos, o Presidente da República, os Deputados da Assembleia da República, enfim, tudo e todos quanto fizessem barulho debaixo da janela do senhor Engenheiro. Este, cansado que estava de tanto construir asteróides, de pé na varanda do seu apartamento, contemplou um país totalmente vazio e sorriu «finalmente vou poder dormir um soninho descansado». A crise tinha acabado.

A Personagem

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Estava sentado na cadeira, com as mãos em cima da secretária. Um cigarro dava os últimos suspiros no cinzeiro. Ele olhava para o nada, e o nada olhava para ele. Havia várias horas que não mudava de posição e o telefone de serviço não parava de tocar. Sentia-se bem naquela modorra, não sabia porquê, era um cansaço benigno. Algo lhe desviou entretanto a atenção do nada. Algo que se movia sorrateiramente atrás dele. Com o canto do olho, sem se mexer, conseguiu ter um vislumbre da personagem. Era o IRS. «Quem será este IRS que todos os anos me persegue?». Sentiu que a paz era coisa do passado.

À Noite

| quarta-feira, 11 de março de 2009 | 2 comentários |
Olhou o relógio e viu que tinha passado exactamente um minuto desde a última vez que viu as horas. Rebolou na cama. Coçou os calcanhares e por simpatia sentiu comichão na barba. Coçou. A comichão espalhou-se e em pouco tempo já tinha coçado o corpo inteiro. Olhou outra vez para o relógio, passou mais um minuto. Rebolou para o outro lado. Contou ovelhas até à exaustão. As ovelhas fartaram-se e fizeram greve. Reuniu-se com o delegado sindical das ovelhas: queriam pagamento das horas extraordinárias e férias remuneradas. Que não, que não podiam parar de saltar a cerca, logo agora que ele tanto precisava delas. As ovelhas mostraram-se unidas e inflexíveis. Olhou para o relógio, mais um minuto «Se calhar está avariado». Começou a contar carneiros, mas estes não eram tão fofos como as ovelhas; faziam muito barulho com os cascos e às vezes saltavam aos pares. No meio da confusão apareceu um cão pastor e a desordem total instalou-se. As ovelhas não arredavam pé com as suas bandeiras negras e os seus gritos de ordem e os carneiros corriam desalmados apavorados com o cão, a cerca tinha sido destruída e ele assistia impávido ao espectáculo. De repente apareceu um Pastor com uma voz bem modulada que anunciou «são 7h00 em Portugal Continental, 6h00 nos Açores, está a ouvir a Remulak FM». Levantou-se, afastou a nuvem de pensamento com a mão e foi fazer café.

O Acordo

| terça-feira, 10 de março de 2009 | 1 comentários |
A guerra entre os Disléxicos e os Gagos durava havia mais de três décadas. Nenhuma das tribos parecia querer dar a lingua a torcer e adoptar em detrimento da sua, a pequena dificuldade linguística da outra. Os gagos orgulhavam-se da sua maneira característica de soluçar as palavras que, garantiam, era milenar. Já os disléxicos, liberais de raíz, sentiam-se muito confortáveis com a forma sui generis como reorganizavam os vocábulos. De ambos os lados as baixas eram consideráveis ao longo de tantos anos, e foi por isso que resolveram chegar a um acordo. Decidiram que, não havendo maneira de se acertarem quanto à forma de falar, deveriam pelo menos chegar a um consenso na forma de medir o calçado. E foi assim que em Remulak-A Grande foi assinado o primeiro Acordo Ortopédico da História.

Dança das Cadeiras

| segunda-feira, 9 de março de 2009 | 0 comentários |

Zeferino chegou a casa um dia, e, para espanto seu, quando se sentou no sofá reparou que as pessoas que estavam na sala não eram suas conhecidas. Como era boa pessoa, muito tímido, muito respeitador, Zeferino perguntou a um dos presentes «Desculpe, não se teram enganado na residência?». Não! Foi a resposta que ouviu antes de lhe ser dada uma explicação. Aparentemente, por causa da crise, havia uma grande procura de casas desabitadas. Estava em vigor a lei da ocupação. Quem estivesse dentro de casa era considerado o dono.
No corredor do prédio encontrou o seu vizinho Romualdo que tinha perdido as pernas na Guerra do Xanax. Tinha ido buscar o correio aos rés-do-chão e agora fazia um esforço enorme para voltar para casa. Zeferino olhou de soslaio e reparou que o vizinho tinha deixado a porta de casa aberta. Pela primeira vez, uma expressão maligna desenhou-se-lhe no rosto.

Apocalyse Já!

| sábado, 7 de março de 2009 | 5 comentários |
Duas testemunhas de Jeová acordaram-no a um sábado às dez horas da manhã. Erro crasso: como não tinha tomado o pequeno almoço não tinha feito ainda a medicação. Começaram a falar-lhe de Jeová e de como só uns poucos escolhidos o irão conhecer. Segundo erro: desmotivaram-no com aquela conversa, ele nunca havia sido escolhido para nada. Prosseguiram a descrever-lhe os horrores do Apocalyse e foi então que ele começou a sentir tonturas. Quando voltou a si, havia pedaços de testemunha de Jeová espalhados pela casa toda e o sangue escorria pelas paredes. Tinha acontecido outra vez; O horror, o horror.

Efeito Boomerang

| sexta-feira, 6 de março de 2009 | 8 comentários |

Ela só tinha orgasmos se lhe dessem palmadas nas nádegas. Então, ele dava-lhe as palmadas sempre que faziam amor. Depois tomou-lhe o gosto e começou a dar-lhe palmadas sempre que lhe apetecia. Começou a sentir uma certa excitação com aquilo, talvez fosse a sensação de poder, e das palmadas passou a dar-lhe socos, pontapés, dentadas, etc... Um dia deu-lhe com um taco de baseball.
Hoje, na sua estreita cela, continua a provocar orgasmos, mas agora é ele que apanha palmadas nas nádegas.

Para a Fábrica de Letras - Violência

O Diagnóstico

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Em jovem, o professor de filosofia havia-lhe dito que, naquela idade o seu cérebro era como uma esponja e que por isso tinha que absorver tudo e aproveitar o dia. Absorveu, absorveu, absorveu, aproveitou o dia e a noite também e só se lembrou do professor outra vez quando lhe foi diagnosticado um cancro no fígado.

O Verdadeiro Caminho

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Todos os dias quando vou para o trabalho, passo por uma igreja decrépita que me fica em caminho. A Igreja de Nossa Senhora dos Mártires de Outrora. À porta, sempre o mesmo filme, um padre de batina rota e suja, segura entre dedos uma beata. Em seu redor, consegue o prodígio de segurar (com o seu charme) três beatas de carne e osso. Penso, «Se ainda fumasse, era capaz de bafejar aquelas beatas e acabar-lhes com a miséria». Ao padre nota-se o total desinteresse de quem está cansado de bajulações, não ligando a mínima às outras três. É triste ser o último representante de uma religião que abusou moral e fisicamente dos seus fiéis. Nostradamus bem que os avisou, mas eles não lhe ligaram nenhuma e agora é aquilo que se vê. Passo pelos quatro e logo as beatas se põem a fazer o sinal da cruz«benza-nos Deus, benza-nos Deus», eu mostro-lhes esticado o dedo médio, indicando claramente que sou um seguidor do Unicórnio Cor-de-Rosa Invisível.

Era uma vez na América

| quinta-feira, 5 de março de 2009 | 0 comentários |



A Reunião

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Estavam terrivelmente aborrecidos, sentados nos seus maples de cabedal. Beberricavam whisky de malte e discutiam as últimas de uma crise que parecia andar algures. Chega-se a uma certa altura nesta profissão em que, uma pessoa aborrece-se tanto que não há dinheiro que pague este fastio, comentou um. È verdade, concordou o outro, as pessoas pensam que é fácil, mas estes milhões não se ganham sozinhos. Eram donos/gestores de uma qualquer empresa e aborreciam-se de morte.
-Snooker? Sugeriu um.
-Nahhh, dá muito trabalho. Queixou-se o outro e bebeu mais um gole.
-Setas? Voltou-se o primeiro.
-Hummm, receio que seja um pouco mundano.
O Tédio agigantava-se a cada segundo. Então, um dos gestores iluminou-se de contente e com os olhos muito abertos e as faces muito vermelhas exclamou:
-Já sei! Vamos despedir pessoas.
Ah, era sem dúvida a melhor ideia que tinham tido em semanas, aplaudiu o colega. No dia seguinte os trabalhadores chamaram a comunicação social, gritaram palavras de ordem, fizeram vigílias, vociferaram impropérios contra os gestores, mas já não serviu de nada, o despedimento colectivo era um facto. Os gestores por seu lado entreteram-se bastante com estas tropelias e combinaram repeti-las de tempos a tempos.

O Sr. Bandido

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O sr. Bandido entrou encapuzado pelo banco adentro e dirigiu-se calmamente a uma das caixas. Apontou o dedo indicador à empregada e com uma voz rouca e compassada «Queria fazer um levantamento se faz favor, passe a mensagem». Carregado com o produto de todas as caixas e do cofre, acendeu um cigarro e dirigiu-se para a saída. Os dois polícias armados que estavam à porta do Banco solícitos abriram-lhe passagem e com um sorriso amável«volte sempre senhor!». Não tardou a aparecer a Judiciária que tomou conta da ocorrência. Recolheram as impressões digitais do costume e chatearam toda a gente. Uma semana depois, o sr. Bandido foi presente a um Juíz. O Juíz, olhou para o processo e depois para o sr. Bandido, e, por fim pronunciou«sr.Bandido, já é a segunda vez que tenho o prazer de o encontrar nestas circunstâncias, o senhor é um malandro, não devia fazer estas coisas aos seus concidadãos. Vá-se lá embora mas não se esqueça que se o apanho aqui outra vez, sou bem capaz de lhe puxar as orelhas». O sr. Bandido agradeceu encarecidamente ao Juíz, cumprimentou os dois guardas prisionais com uma palmadinha nas costas e saiu porta fora. Lá fora pediu educadamente o carro emprestado a uma senhora e foi passear para o shopping. Noutra parte da cidade, num universo quase paralelo, um sem-abrigo mal educado roubou descaradamente um paposseco pelo que foi imediatamente linchado.

O Vizinho

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O meu vizinho um dia contou-me um sonho profético que teve. A Segurança Social entrava em colapso e deixava de pagar reformas. O estado demitia-se das suas funções e o país era tomado por banqueiros anarquistas por dirigentes de futebol e construtores civis. As pessoas que se viam despojadas de todos os seus haveres, dormiam debaixo das inúmeras pontes sobre o Tejo, e também dentro das apodrecidas carruagens do TGV que tinha tido um acidente descomunal no dia da sua viagem inaugural. Estranho sonho, mesmo para um vizinho que apressado ainda gritou «vou comprar um colchão, e tu devias fazer o mesmo».

A Vizinha

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A minha vizinha todos os dias canta uma espécie de cantilena macabra que repete até a exaustão até à hora do jantar: Kling-Klang-Crssshhh-Kling-Klang-Crshhh.
-É o som que fazia a máquina com que eu trabalhava na fábrica, já não consigo passar sem ele.
Começou com este monocórdico ritual depois de ter sido despedida. Abana-se para a frente e para trás, sentada num banco de madeira e canta: Kling-Klang-Crsssshhh-Kling-Klang.

One of these days

| quarta-feira, 4 de março de 2009 | 1 comentários |
Foi só quando se acabaram as balas e o fumo assentou, que percebeu que tinha acertado na cabeça do patrão e não na do cliente. Não se lamentou muito, o patrão, bem vistas as coisas, era um bocado urso e mais cedo ou mais tarde teria que o despachar...Foi mais cedo do que havia planeado. Foi para a cafetaria e pôs-se a beber cerveja e shots de whisky. Os seus colegas de trabalho corriam em pãnico e alguns escondiam-se por debaixo das mesas, outros atrás das portas. Mas
não havia nada a temer, Remus mostrava-se sereno. Talvez os colegas da contabilidade tivessem razões para sentir algum receio, mas os outros não. É o que dá viver em Remulak – A Grande, mais dia menos dia um pessoa sente aquela necessidade premente de levar uma arma semi automática para o emprego. Ouviu as sirenes da Brain Police e pediu mais um shot e uma cerveja. Entretanto, Zeferino, seu colega de caça, aproximou-se com cuidados:
- O que é que te passou pela cabeça? - perguntou.
- Pela minha, nada, já pela do patrão passou uma de 38mm.
- Assim sem mais nem menos?
- Nem mais,...É esta cidade sabes? É futurista demais, acho que me vou mudar para o campo. E dito isto afastou-se. Mudou-se efectivamente, mas não para o campo.

Um dia na Vida

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Mal acordou, levantou-se num salto e pôs o desfibrilhador a carregar. Encostou as pás ao peito, gritou mentalmente clear e zzzzzppp, 300 joules percorreram-lhe o corpo. Escusado será dizer que não foi preciso tomar café. Foi para o trabalho a correr e acenou aos condutores enquanto ultrapassava os automóveis na auto-estrada. Chegou ao trabalho e desatou a despachar processos só com uma mão, com a outra coçava rapidamente as rugas do escroto. Deu seguimento a processos que estavam encalhados havia mais de dois meses. Quando finalmente ficou com as mãos livres e tendo já o escroto em sangue, começou a coçar o escroto dos colegas. Limpou a secretária e foi a correr para casa, de caminho passou pelo barbeiro, mas este não conseguiu cortar-lhe o cabelo. Chegou a casa e levou a mulher para cama, teve três orgasmos e a seguir, pôs a mala no chão, despiu-se e foi tomar banho. Jantou em frente da televisão, os telejornais noticiavam em pânico que estava a nevar na Serra da Estrela, mudou para outro canal que noticiava muito calor no Brasil. Fartou-se e foi-se deitar, leu dois livros, uma banda desenhada e uma revista cor-de-rosa. Quando chegou a hora de dormir, tirou o desfibrilhador debaixo da cama e desta vez carregou-o a 600 joules. Clear, ZZZZZZZZZZZPPPPPPPPPPPP, e adormeceu de olhos abertos com um sorriso que lhe ia de uma orelha à outra.

Passaporte Lusitano

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Zeferino tinha a viagem marcada para Estónia no Sábado. Era segunda feira. Ainda não tinha Passporte mas como sabia que podia requerê-lo com urgência não se preocupou. Segunda feira aproveitou para tirar fotografias novas e tratar de outros assuntos de menor importância. Terça feira foi ao Governo Civil e iniciou o processo de emissão do passaporte em 24 horas. Pouco depois foi chamado ao Gabinete da senhora responsável pelos passaportes. Com a sobrancelha arqueada esta disse-lhe que o seu B.I. estava inválido e que portanto não lhe poderia ser emitido o passaporte, a empregada que o atendeu fez que sim com a cabeça. «Está a ver, se não carrego no plástico não consigo ver que a data de nascimento é 1972». Foi a correr ao Arquivo de Identificação para que lhe emitissem um B.I. novo. Informaram-lhe logo que iria pagar uma multa, uma vez que o B.I. estava danificado «Só conseguimos ver a data de nascimento quando carregamos no plástico». Logo ficou a saber que os funcionários do Arquivo entravam em greve no dia a seguir e que por isso o B.I. só estaria pronto na Sexta. Só na terça feira da semana seguinte é que Zeferino teve o passaporte e assim já não conseguiu apanhar o avião que tinha saído 3 dias antes. Agora anda a considerar o Cartão de Cidadão, uma vez que está a pensar viajar para o ano que vem.

Bzzz-Crssshhh

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É manhã, estou no escritório, pernas em cima da secretária e cigarro aceso na boca. Mais um dia ignóbil à espera de sexta-feira. Aproveito para praticar o meu desporto matinal: ouvir a barba crescer. Os processos continuam a empilhar-se na mesa ao lado do telefone. Mais um dia ignóbil e o milagre não se deu, os processos não se resolveram a si próprios. Uma mosca irritante (existem outras?) começa a sobrevoar o meu espaço aéreo. Qual é a finalidade deste bichos? O que é que Deus tinha em mente? Os Bzzz da mosca confundem-se com o som da barba, que por esta altura cresce a uma velocidade vertiginosa. Crssshhh faz a barba quando cresce, Bzzzz faz a mosca quando passa, reparo que os dois sons misturados criam uma espécie de beat jazzístico agradável. Mais processos, parece que, além de não se resolverem sozinhos, ainda se reproduzem. Abano o pé ao ritmo do swing da mosca e da barba. Tento equilibrar a cinza no cigarro e penso: porque ruminam as vacas? Que espécie de compromissos pode uma vaca ter para comer à pressa? A inércia pesa-me tanto que mesmo que quisesse levantar-me não conseguia. Um dia destes alguém vai abrir a porta, afastar os processos empilhados até ao tecto e descobrir um esqueleto aborrecido de beata na boca. Esta ideia assusta-me tanto que tomo uma atitude radical, levanto-me, mato a mosca e vou à pressa comprar gillettes.
Compreendo as cabras quando comem à pressa, têm que fugir dos pastores.